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Quadrantes
Fábula e realidade
Publicado: 00:00:00 - 19/06/2022 Atualizado: 15:07:18 - 18/06/2022
Cláudio Emerenciano 
[ Professor da UFRN]

Todos os homens, desde os primórdios dos tempos, possuem uma visão de vida em função de sua fé, dos seus sonhos, de sua imaginação e dos seus ideais. Mas a fé é mais abrangente. É universal e transcendental. Não se esgota na percepção da realidade.

 Desvenda os caminhos da identidade, progressiva e permanente, da humanidade com o Criador. Um dos gênios do século XX, padre, cientista e filósofo Teilhard de Chardin, elaborou bela síntese da vida. Está em seu livro “O lugar do homem no universo”. A vida revela em tudo seu sentido. Espontaneamente. Tudo manifesta o amor infinito de Deus. Poema ao homem e ao universo. 

O desamor transgride a Criação: injustiças, violências, desigualdades, misérias, guerras, paixões, perfídias, egoísmos, vaidades, mentiras, fanatismos e hipocrisias. A grandeza do homem nasce na humilde e generosa partilha do bem, dos sonhos, dos sentimentos, de ideais e das coisas.

 Maurice Druon suscitou a reminiscência: “De onde sou eu? Sou de minha infância como de um país”. O universo sentimental de uma criança semeia convicções, atitudes e laços, que deveriam estender-se por toda a existência. Mas os homens, geralmente, tendem a perder ou abdicar dos sonhos da infância. A ficção não é apenas fantasia e fuga da realidade. É a fábula que infunde, pedagogicamente, a distinção entre o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o iníquo, o belo e o feio, a luz e as trevas. É incomparável a contribuição dos contos infantis de Monteiro Lobato na sedimentação de valores em gerações de crianças brasileiras.

Até hoje, ainda que reescritas por outros escritores. Hans Christian Andersen, Charles Dickens, Mark Twain e os irmãos Grimm também influenciam o imaginário infantil em todo o mundo. A realidade frequentemente desmonta ou violenta utopias, devaneios, ideais, buscas e aspirações. Mas a vida me ensinou a associar a realidade às fábulas vivas em minha memória.  

Exemplo: a vida de Machado de Assis. Mulato, filho do pintor de paredes Joaquim (também mulato) e da lavadeira Maria Leopoldina, autodidata. Foi o mais notável escritor brasileiro. Muitos estudiosos e críticos literários, em todo o mundo, consideram-no gênio.

Venceu os preconceitos do seu tempo. Muitos dos que com ele conviveram destacavam-lhe no temperamento a melancolia e a taciturnidade. Era tímido e contemplativo. Mas nada o impediu, em romances, contos e crônicas, de revelar o Brasil do seu tempo e magistralmente antever nossas peculiaridades até hoje. Quando morreu, em 1908, aos 69 anos, lia, falava e escrevia oito idiomas.

 Harold Bloom, professor da Universidade de Yale, em 2017 foi considerado “o crítico literário anglófono mais famoso do mundo". Em 2002, no livro “Gênio – os 100 autores mais criativos da História da Literatura”, consagrou Machado de Assis” e enfatizou: “Machado de Assis, o maior literato negro (mulato) surgido até o presente”. João Gaspar Simões, excepcional escritor e crítico literário de Portugal, ressaltou a identidade entre Machado e Eça de Queiros. Eles mantiveram correspondência até à morte de Eça em 1900.

 Outros famosos escritores da época também se corresponderam com o “bruxo de Cosme Velho” (Machado). Carlos Drummond de Andrade o reverenciou com o poema “A um bruxo com amor”.

Graciliano Ramos, inovador prefeito de Palmeira dos Índios, é um dos nossos maiores escritores. Albert Camus, que o traduziu para o francês e o editou (“Vidas Secas”, “São Bernardo” e “Memórias do Cárcere”), considerava-o um dos maiores estetas da arte de escrever no século XX. Sisudo, também autodidata, falava e escrevia em italiano, francês, espanhol e inglês. José Lins do Rego, outro grande escritor, foi seu amigo íntimo. Eram inseparáveis. 

Graciliano, preso arbitrariamente pelo “Estado Novo”, sem nunca ter sido processado nem julgado, testemunhou maus tratos e torturas na prisão. Residiu com a família no apartamento de José Lins do Rego, no Rio, após sua liberação. Ali concluiu “Memórias do Cárcere”, que alcançou impactante repercussão internacional. Antônio Maria, cronista, escritor, compositor, dramaturgo e letrista, jamais esqueceu suas fantasias de infância. Transformou casarões centenários do Recife “em castelos que abrigavam ternura e beleza sem fim”. Já em Frederico Fellini o menino sonhou e criou. Foi assim enquanto viveu. Mas os dois, Antônio Maria e Fellini, baquearam na ausência do amor e morreram...

Juscelino Kubitschek, filho da professora primária Júlia, que o chamava de Nonô, quando menino não tinha sapatos para ir à escola. Sonhava de olhos abertos. Telegrafista, médico, foi modelo de governante otimista, democrata convicto e modernizador. Síntese dos anos JK (1956/61): “éramos felizes e não sabíamos”. 

O país explodiu em criatividade, realizações e inovações. Tempos de renovadas esperanças. A nossa História é fonte exuberante de transformações sob o embalo dos sonhos. Em tempos de crise política, moral, ética e espiritual, as fábulas deveriam voltar a moldar a realidade. Reencontremos o sentido da vida brasileira. Pois há algo irresistível e indisfarçável em nosso povo: a vontade de ser feliz.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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