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Fé e esperanças renovadas
Publicado: 00:00:00 - 12/09/2021 Atualizado: 14:27:18 - 11/09/2021
A esperança no ser humano. A renovação sem fim do sentido da vida. O enigma da busca e da fruição da infinita dimensão do amor. O “pobrezinho” de Assis testemunhou o amor do Cristo por todas as criaturas. Detectou, essencialmente, no ato de amar sem retribuição, na opção para doar sem submetê-la à vontade de usufruir, na felicidade de partilhar, dar, dividir e transferir, libertando-a dos condicionamentos em receber, na imolação, dando a própria vida pelos outros, como extensão do amor de Deus pelos homens. Somente o amor exorciza o ódio, o medo, a injustiça, a violência, a impiedade, os egoísmos, a intolerância e as vaidades, que brutalizam a condição humana. Desfiguram-na subvertendo sua substância. Giovanni Papini, escritor e pensador cristão, exortava os homens a desfrutar dos caminhos que ascendem a Deus pelo amor e pela paz. O acesso à Luz. Busca interminável do gênero humano. O espetáculo, universal e magnificente, também no dizer do grande Teilhard de Chardin, sacerdote, pensador e cientista, “da missa sobre o mundo, em que o Cristo Cósmico acolhe os filhos de Deus de todas as moradas”.  Mas, infelizmente – advertia Papini - os homens também estariam sujeitos aos domínios da maldade e da bestialidade ao renegar, violentar ou ignorar sua própria dignidade, que fermenta sua grandeza. O desafio de sempre. A verdade é o que faz do homem um verdadeiro homem. Indestrutível, imbatível por sua espiritualidade, que lhe descortina a ascensão sem fim. Percurso de todos os homens. Não importam as circunstâncias nem, sobretudo e principalmente, as adversidades. Enfrentando-as e superando-as, a humanidade retoma seu curso natural: ascender a Deus. Buscar, incessantemente, a Luz. Sempre...

 O tema, no âmbito literário, revela, sem disfarces, a influência dos tempos natalinos na obra de Charles Dickens. A epifania do Senhor e o usufruto do amor de Deus. Oferta de paz infinita para todos os homens. A permanência e atualização das percepções de Dickens, que adquiriram uma dimensão transcendental, convertendo seus leitores em cultores da solidariedade. Eis um dos maiores contadores de estórias em todos os tempos. Sem abstrair, em sua vasta obra, outras características e peculiaridades. Como o estilo, marcantemente pessoal, imergindo em pessoas e contingências, possibilitando harmonia da leveza de descrições com uma multiplicidade de sentimentos, ações e sensações. Sua tendência para configurar painéis de episódios conturbados e marcantes, incertos, controversos e imprevisíveis. A antevisão de novos tempos, que desabrochavam ao seu redor. É o caso de "Um conto de duas cidades", em que Paris e Londres se alternam em plena Revolução Francesa. Ou, ainda, esse magnífico e fantástico mosaico de caracteres humanos, emoldurando os tempos vitorianos em “Oliver Twist”, "Grandes Esperanças" e “Contos do Natal”. Dele deveríamos dizer como Tolstoi, ao considerar seus personagens e enredos como "expressão nítida da humanidade". Ninguém se esquece das "Aventuras de Mr. Pickwick”, ainda hoje inspirando gerações em todo o mundo. Os tempos atuais estão carentes, ou órfãos, de escritores como Dickens, Monteiro Lobato, Lewis Carroll, irmãos Grimm, Hans Christian Andersen, James Matthew Barrie, Mark Twain, Saint-Exupéry, Maurice Druon, Jonathan Swift, Robert Louis Stevenson e tantos outros... 

Por que falar em Charles Dickens? Porque a paz e a solidariedade se associam à sua obra, são intrínsecas ao seu estilo e à sua visão de mundo. Influência universal, que irmana povos e culturas. Até o avarento, que pontifica uma de suas estórias natalinas, não consegue conter, ao final, a fermentação e a explosão de esperanças em seu coração. Geralmente os sentimentos e as emoções triunfam, fustigando fantasmas do egoísmo, da ambição, das vaidades, da indiferença, da mesquinharia, de mentira, medo e arbítrio. Não é incomum ver inconformados, invejosos e odientos bestiais contagiarem multidões e até nações. Foi o caso de Hitler. Cuja maldade, loucura, ódio, intolerância e autoritarismo desenfreados sobrepairam, ainda hoje, como um “anjo maligno” em parte da América Latina. Indisfarçavelmente sequioso para dar o bote final no poder e destruir a democracia.   A Paz, legado do Salvador, por Ele testemunhada como Artífice e Príncipe da Paz, é o valor universal da vida. A paz nutre a esperança. Reanima-a nas consciências e nos corações de todos os homens. Foi também percepção de Confúcio, que viveu no século VI antes de Cristo. Não há questões, desafios e buscas que se excluam do seu alcance. Impõe-se sedimentá-la no viver de cada homem, harmonizando-o consigo memo. Elo sem fim com Deus.

Os acontecimentos da conjuntura política no mundo suscitam um clamor, um grito, um brado pela paz. Paz em cada ser. Paz em cada nação. Paz em todos os povos. O nosso tempo, que se entrechoca com surpreendentes transformações, reivindica a seiva da esperança. Clama por esperança a fim de que os homens possam trilhar seus verdadeiros caminhos e alcançar a plenitude de sua vocação. Sempre com paz. Somente o amor, que é o coroamento da condição humana, sua maior expressão, pode sedimentar, sem recuos, essa paz. Realizar a convergência da humanidade com o Criador. O Advento do Senhor plantou no espírito, na consciência e no coração dos homens as sementes das "Grandes Esperanças". Esperanças eternas. As vítimas da violência, em todos os lugares e culturas do mundo, sabem o peso, o sentido e a dimensão da paz. São elas os “pacíficos do Senhor”. A Paz, que é interior, individual e coletiva, gera a consciência da verdade. A democracia é o caminho de progressão para a liberdade. Essa via se chama paz social. Paz e liberdade são intrínsecas, portanto, à democracia. Estas reflexões, no Brasil, ainda podem concretizar-se nos homens de fé. Sem ódio e e sem medo. Ainda bem...






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