Face a face: exposição segue aberta no Iguales

Publicação: 2020-07-22 00:00:00
Tádzio França
Repórter         

Após 16 anos entre redações, por trás e à frente das câmeras, o jornalista e empresário Cristiano “Crico” Félix se permitiu abraçar as artes visuais com mais afinco e liberdade. Apreciador, consumidor e curador atento, ele também resolveu apostar na própria produção. O isolamento imposto pela quarentena criou o momento propício para gerar “A Outra Face”, exposição autoral que ficará aberta durante os meses de julho e agosto na galeria do Complexo Iguales, no Tirol. O acesso ao local é gratuito.

Créditos: DivulgaçãoA série “Ramos” remete ao Domingo de Ramos e as “faces” propriamente ditas remontam, segundo o autor Cristiano “Crico” Félix a influências do passado, através de viagens e gênios da arteA série “Ramos” remete ao Domingo de Ramos e as “faces” propriamente ditas remontam, segundo o autor Cristiano “Crico” Félix a influências do passado, através de viagens e gênios da arte


“Voltei a pintar por absoluta necessidade de expressão. Passei a encarar, nesse período tão conturbado para todos nós, que as linguagens falada e escrita não são minhas únicas formas de comunicar”, afirma o autor de “A Outra Face”. Crico conta que voltou a pintar no final de março, e ao longo de quatro meses produziu pouco mais que 20 telas. “Comecei a vender e, surpreendentemente, consegui comercializar 11 trabalhos em dois meses”, diz. Foi o incentivo que faltava para montar uma exposição.

Inspirações
“A Outra Face” reúne um conjunto de inspirações que remontam a variados momentos, fases, viagens e pensamentos. A série da mostra chamada de “Ramos”, por exemplo, é uma menção ao fato de que o autor começou a pintar na véspera do Domingo de Ramos. “Esses galhos tinham relação direta com o confinamento, com a simbologia da data”, explica, mas também tem a ver com uma viagem feita por ele pouco antes da quarentena. “Passei algumas semanas de férias na Tailândia e estar na Ásia é olhar para uma cultura e paisagens completamente diferentes. A natureza se manifesta de um jeito que faz a gente repensar muita coisa”, reflete.

Já as “faces” propriamente ditas, remontam a influências do passado. O artista conta que após se formar em jornalismo morou um ano na Espanha, onde teve contato direto com as obras de Diego Velásquez, Salvador Dalí, e principalmente os cubistas, como o francês Paul Cézanne. “Foi observando os estudos preliminares dessas obras que encontrei uma simplicidade que acredito ser extremamente relevante de se discutir nos dias de hoje”, ressalta.

Créditos: DivulgaçãoO jornalista montou a exposição na galeria do Complexo Iguales, no TirolO jornalista montou a exposição na galeria do Complexo Iguales, no Tirol


Crico Félix acredita que o distanciamento social fez isso com as pessoas, que querem cada vez mais encontrar sentidos lógicos, estéticos e emocionais no que é simples. E isso é um grande desafio. Após perceber essa tendência, o artista se deparou com referências da técnica “onelinedrawing”, que vem ganhando muito espaço. “Vi os trabalhos de artistas contemporâneos como Koketit, OctaviaTomyn e Salventius, até que consegui encontrar uma linha de trabalho com a minha própria ordem. De lá pra cá, busco outras informações visuais de artistas diversos, não só das artes plásticas, mas da música e da moda”, diz. Ele adiciona ainda as estéticas de artistas como David Bowie, Freddie Mercury e Mick Jagger em suas obras.

Ao se instalar na galeria, Cristiano sentiu a necessidade criar desenhos menores, que teriam um valor mais acessível. Então começou a se aventurar com ‘Posca’ e cartão para aquarela da Canson, de 300 gramas. Uma leva de desenhos da série “Faces” surgiu e preencheu esse espaço. “Acho que todos nós artistas precisamos ser inclusivos e acessíveis. A arte é feita para mostrar emoção, retratar a realidade do seu tempo, mas também enfeitar os ambientes. Eu tenho trabalhado para ocupar paredes, difundir esses conceitos”, enfatiza.

As obras estão à venda, mas o artista procurou idealizar um espaço que não se resumisse a isso. “A comercialização não está isolada em primeiro plano, ela vem ladeada da possibilidade de oferecer cultura para o espectador que também deve ser encarado como consumidor dessa narrativa, ainda que não possa levar um trabalho para sua casa”, afirma. Portanto foi criado na galeria um painel onde ficam algumas telas, onde funciona também como espaço “instagramável”. A ideia é que o visitante leve uma lembrança do lugar, e ainda divulgar a obra em suas redes sociais.

Além de artista, Cristiano também é o administrador e proprietário da Galeria Iguales. O momento difícil vivido pela cena artística não passou despercebido. “A galeria é um espaço de apoio aos artistas, sobretudo os potiguares. Durante a quarentena muitos artistas me ligaram para falar de suas dificuldades, ouvi muitos relatos do tipo ‘Estou sem dinheiro para comprar comida para dentro de casa’. 

Algumas dessas pessoas têm filhos pequenos e eu imagino a sensação de impotência diante desse problema”, conta.

Durante esse primeiro momento, tudo que Cristiano Félix levantou com a venda de suas telas foi usado na compra de trabalhos de outros artistas, além de ajudar as pessoas que trabalham na própria galeria. “Agora nós temos mais um desafio pela frente. Os espaços culturais estão fechados para vernissage, por exemplo. Como aqui é uma área comercial, consigo abrir para visitação individual. Mas é claro que, como todo mundo, estou ansiando ver a casa cheia, a celebração do fazer artístico e do espaço cultural”, conclui.

Serviço:
Exposição “A Outra Face”, de Crico Félix. 
Onde: Galeria Iguales – Av. Hermes da Fonseca, 1062, Tirol. De terça a sábado das 10h às 22h.