Economia
Faern teme que agricultores e indústria reduzam produção
Publicado: 00:00:00 - 15/05/2022 Atualizado: 10:29:42 - 14/05/2022
Além de afetar o transporte, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), José Vieira, declara que, para evitar mais prejuízos, os agricultores e indústria podem reduzir a produção. “Sem sombra de dúvidas, o aumento do diesel tem causado uma preocupação muito grande. Muitos produtores podem reduzir áreas de produção em função do custo do plantio, além de reduzir o manejo da produção, a aplicação de defensivos, de adubação, isso acaba impactando também a produtividade”, argumenta.
Magnus Nascimento
Na Ceasa, os produtos já estão chegando mais caros, principalmente os hortifrutigranjeiros, que levam em conta a variável do frete

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“O óleo diesel tanto impacta nossa produção em si, dentro da propriedade, quanto na retirada dos produtos da propriedade para a cidade. Então nós temos dois impactos diretos, na produção e no transporte de nossos produtos para o comércio ou para o mercado de fora. Isso tem nos deixado preocupados. O resultado de tudo isso é o aumento do preço dos alimentos e isso é uma consequência. Os produtores têm tentado cada vez mais reduzir os seus custos para poder gerar um impacto mínimo possível na gôndola do supermercado”, explica Vieira.

O quadro é considerado “adverso” pelo presidente da Faern, que prevê uma situação de “estabilidade para cima” em relação ao preço dos produtos nas feiras e supermercados diante da insegurança econômica do País. Não é só o setor de produtos que sofre com a carestia do diesel, o sentimento de apreensão também aparece entre os próprios caminhoneiros, que veem o combustível subir na bomba a cada parada no posto de combustível. Na estrada desde 2004, Marcos William diz que pensa em vender a carreta e deixar o volante por causa dos altos custos.

“Para a gente não está valendo mais a pena, não tem condições porque hoje o combustível é 60% do que a gente ganha. Se fosse só isso ainda tava bom, mas é difícil manter um caminhão desses, a manutenção é cara. Antes dava para fazer oito fretes por mês, mas se fizer isso hoje, o gasto com combustível passa de R$ 35 mil, aí hoje eu só faço quatro. O valor do frete aumentou, mas o que sobra para a gente caminhoneiro é menos do que era antes, quando o frete custava menos”, conta o cearense, que transporta frutas entre Petrolina, Natal e Fortaleza.

O alerta chega até mesmo no setor de energia renovável, que teme alta nos custos operacionais, já que peças e equipamentos para a montagem dos parques eólicos, por exemplo, também são transportadas por via terrestre. “O setor está sempre atento a tudo que pode prejudicar sua competitividade. O aumento do preço dos combustíveis, que aumenta o preço do frete, alguns grandes componentes são importados ou que são fabricados no Brasil e são transportados por longas distâncias, então o transporte é um dos elementos de custos que é muito relevante. Por isso, há essa preocupação”, comenta Sandro Yamamoto, diretor técnico da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica).

Solução passa por mudança na política de precificação
Especialistas e representantes da cadeia produtiva potiguar afirmam, em consenso, que não há solução mágica para reduzir os danos do aumento do diesel, pelo menos no curto prazo, sem uma coordenação nacional, o que significaria uma mudança na política de precificação da Petrobras. No entanto, o economista Thales Penha diz que medidas podem ser adotadas para atenuar a dependência do diesel. Do ponto de vista prático, o professor universitário destaca que diminuir a pressão sobre os produtos de necessidade básica pode ser uma saída.
Magnus Nascimento
Praticamente, todos os generos alimentícios tiveram aumento de preço. Escalada continua e consumidores reduzem compras

Praticamente, todos os generos alimentícios tiveram aumento de preço. Escalada continua e consumidores reduzem compras


“Poderia colocar algum tipo de subsídio para as camadas mais pobres, não para todo mundo porque se você der isenção geral acaba beneficiando os mais ricos. Poderia se fazer uma desoneração em alguns produtos, mas localizados no pessoal inscrito no Cadastro Único. É uma medida para proteger essa população mais vulnerável, criar um cashback com o Nota Potiguar, por exemplo, você informa no caixa e aparece que você tem desconto lá na hora”, pontua Penha.

O presidente da Faern, José Vieira, aponta que produtores independentes e indústria já vêm utilizando alternativas para não parar a cadeia. Segundo Vieira, em relação ao combustível não há “muito o que fazer” e por esse motivo, os trabalhadores e empresas buscam economizar em outras fases da produção.

“Pode-se colocar sistema de energias renováveis para poder baixar custos, energia, principalmente quando se irriga muito. Tem empresas que estão buscando alternativas e implantar sistemas de energia para segurar os aumentos. Com relação à produção, isso tem sido uma tendência muito grande, muitos produtores têm utilizado fertilizantes biológicos, deixando, de certa forma, os adubos químicos. Acredito que isso vem para ficar porque além de abaixar o custo da produção, você consegue melhorar a qualidade dos produtos”, avalia.

Dolarização deixa governo de “mãos atadas”
A sensação de que “não há muito o que fazer” em relação ao preço do diesel que preocupa o presidente da Faern é compartilhada por representantes do próprio Governo do Estado. O secretário adjunto de Tributação, Álvaro Bezerra, entende que o governo fica de “mãos atadas”, diante da “dolarização” dos preços dos combustíveis praticados pela companhia. “Tentou-se vincular isso ao ICMS, mas ficou provado, categoricamente, que não era essa a questão. O ICMS foi congelado, mas o combustível continuou subindo, graças à paridade com o preço do barril do petróleo no mercado internacional. No caso do diesel, isso traz danos muito grandes para a população porque o diesel puxa o transporte da mercadoria, então o frete sobe”, pontua Bezerra.

A política de preços da Petrobras segue uma tendência do mercado global, dentro de uma lógica que acompanha o comércio de outras commodities do mercado brasileiro, como produtos agrícolas, minérios e metais, que têm seus valores associados à variação das cotações internacionais e taxas cambiais diferentes. Segundo a companhia, a medida de paridade é considerada “fundamental para que o mercado brasileiro siga sendo suprido sem riscos de desabastecimentos”.

O último aumento de quase 9% do diesel, feito pela Petrobras, há uma semana, foi justificado pela petroleira por uma “redução na oferta de diesel”, que pressiona os preços globalmente. “Os estoques globais estão reduzidos e abaixo das mínimas sazonais dos últimos cinco anos nas principais regiões supridoras. Esse desequilíbrio resultou na elevação dos preços de diesel no mundo inteiro, com a valorização deste combustível muito acima da valorização do petróleo. A diferença entre o preço do diesel e o preço do petróleo nunca esteve tão alta”, frisou.

O novo aumento foi “absolutamente necessário” para evitar um desabastecimento, afirmou o presidente da Federação Nacional do Comércio de Combustíveis e de Lubrificantes (Fecombustíveis), Paulo Miranda. “Nós já estamos passando por um processo de racionamento seletivo. O Brasil tem 41 mil postos, mais ou menos 20 mil postos com a bandeira branca (marca própria), e os bandeiras brancas são atendidos por companhias distribuidoras menores, regionais, pequenas. Essas distribuidoras já não estão conseguindo importar o produto, o óleo diesel”, relatou Miranda.

Empresas de ônibus de Natal pedem subsídio
As empresas de ônibus de Natal estão reivindicando que a Prefeitura pague pelas gratuidades no transporte coletivo para compensar o aumento nos custos após o reajuste do diesel. Caso isso não ocorra, a consequência apontada é a redução de mais linhas de ônibus, numa frota que já está reduzida a 70% desde que a pandemia da covid-19 começou, sendo que 24 linhas nem operam mais porque foram devolvidas ou suspensas pelas empresas. Nem a isenção do ICMS da parte do Governo do Estado estaria compensando o desequilíbrio financeiro e, como esse benefício foi condicionado ao congelamento do preço da tarifa, a saída que os empresários do transporte dizem ter encontrado é cobrar à Prefeitura.

Os benefícios de gratuidade na tarifa de ônibus para idosos, pessoas com deficiência, ou da meia passagem para estudantes não são exatamente “de graça”. Essa conta vai para o passageiro que paga a tarifa inteira e que atualmente é de R$ 4,00 em espécie ou R$ 3,90 no cartão eletrônico. O que as empresas querem é que o Município passe a pagar pelas gratuidades, mas sem reduzir a tarifa dos passageiros que pagam inteira, já que não pode haver aumento no valor do passe.

Sem poder pedir o reajuste de tarifa para não perder a isenção do tributo, as empresas apontam como única saída o subsídio da parte do Município. “Comprar passagens e distribuir com pessoas beneficiadas. Se isso não for feito imediatamente, vai levar as empresas à falência, ou as empresas que suportarem vão ter que se desfazer de veículos em operação, reduzindo despesas com óleo diesel, a quilometragem percorrida e para tanto terão que devolver mais linhas deficitárias e viagens para compensar esse acréscimo”, apontou Nilson Queiroga, consultor técnico do Sindicato das Empresas de Transporte Urbano de Natal (Seturn).

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