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Fagner: Casamento perfeito da poesiacom a música
Publicado: 00:00:00 - 23/04/2019 Atualizado: 21:23:39 - 22/04/2019
Thiago Gonzaga
Escritor

A Derivaldo dos Santos

Em 1973, o cantor e compositor cearense Raimundo Fagner lançou um dos discos mais emblemáticos da MPB, “Manera Fru Fru Manera”, conhecido popularmente como “O Último Pau-de-arara”, que foi seu primeiro álbum de estúdio, lançado e distribuído pela gravadora Polygram. Três anos, depois, “Manera Fru Fru Manera” foi relançado incentivado pelo êxito do disco deste mesmo ano intitulado “Raimundo Fagner”, grande sucesso de 1976, já pela gravadora CBS. “Manera Fru Fru Manera” foi impulsionado também pela música “Canteiros”, uma das faixas do LP que mais tocava nas rádios alternativas do país, fazendo enorme sucesso com o grande público e sendo marcada como uma das canções mais importantes da carreira do cantor. Quando penso em você/Fecho os olhos de saudade/Tenho tido muita coisa/Menos a felicidade...

Em "Canteiros", Fagner usou trechos das letras "Na Hora do Almoço" de Belchior, e "Águas de Março" de Antônio Carlos Jobim. Porém uma polêmica iria surgir, por conta da autoria da canção, que Fagner creditou apenas como dele. Na fase áurea do músico, em meados dos anos 70, foi aberto um processo contra Fagner pelas filhas da poeta e escritora Cecília Meireles, por ter ele, supostamente, plagiado o poema “Marcha”, de autoria da mesma.

No mesmo ano musicou o poema “Epigrama No. 9”, registrado no disco ”Orós”. E, novamente, em 1978, musicou “Motivo”, do disco intitulado ”EU CANTO”. Eu canto, porque o instante existe/ E a minha vida está completa/ Não sou alegre nem sou triste, sou poeta.

Na época do julgamento, Raimundo Fagner admitiu em juízo que, ''sem tirar a beleza dos versos, procurou fazer uma adaptação à música'', reconhecendo o uso indevido do poema “Marcha”, de Cecília Meireles, na composição “Canteiros”.  Resumindo a história, as filhas ganharam a causa e Fagner ficou anos sem poder cantar essa linda canção em público. Somente em 1999, o caso felizmente teve fim, quando a gravadora Sony Music fez um acordo com elas para a regravação da música, o que aconteceu em janeiro de 2000, em Fortaleza, no primeiro registro ao vivo das músicas do compositor cearense. 

Ainda no disco de 73, Fagner gravou com o nome de “Sina” o poema “O Vaquêro”, sem creditar a autoria a Patativa do Assaré. Após retratar-se, Fagner tornou-se amigo e importante divulgador do poeta popular pelo Brasil. Patativa autorizou e cantou com Fagner “Vaca Estrela e Boi Fubá”, em 1980.

Embora tenham acontecido esses pequenos entraves, Fagner é o compositor  brasileiro que mais  musicou poemas e os divulgou, basta citar outro exemplo, o grande êxito que foi, em sua voz, “Fanatismo”, soneto da poetisa portuguesa Florbela Espanca. Com melodia de Fagner, o poema foi gravado no disco “Traduzir-se” de 1981.

Em 1982, Fagner lança o álbum "Sorriso Novo", com três canções adaptadas de poemas de Fernando Pessoa e Florbela Espanca, musicadas por ele e pelo músico cearense Ferreirinha: "Qualquer Música" (Fernando Pessoa), "Fumo"  e "Tortura"  (Florbela Espanca)  Em 2000, voltou a musicar mais um poema de Florbela Espanca, "Chama Quente", no álbum “Raimundo Fagner ao Vivo".

Fagner musicou o poema “Traduzir-se” de Ferreira Gullar, com o nome do qual batizou o álbum de 1981. Uma década depois, o cantor recorreu  novamente a Gullar para fazer a versão de “Borbujas de amor”, sucesso do cantor dominicano Juan Luis Guerra. “Borbulhas de amor” foi uma das músicas de maior sucesso em 1991 e de toda a carreira do menestrel cearense.

Ferreira Gullar e Fagner formaram produtiva parceria que resultaria em  várias músicas, além de “Traduzir-se”, “Me Leve” (“Cantiga Para Não Morrer”), (1984), “Contigo” (1983), “Rainha da Vida” (1987). Fagner regravou ainda Nélida Piñon, que com a parceria de Luiz Diniz, tem sua “A Doce Canção de Caetana”, registrada no disco “O Quinze”, de 1989, o 15º disco de sua carreira ,cujo título, é também uma referência ao romance da conterrânea famosa, Rachel de Queiroz. "Semente”, de Mário de Andrade," Os Amantes", de Affonso Romano de Sant'Anna, “Verde”, de Garcia Lorca,  entre  outros poemas , foram também musicados por Fagner , inclusive “Maria Luiza" de Luís da Câmara Cascudo:

Estes e tantos outros poemas, o grande  cantor e músico cearense transformou em sucessos, que já fazem parte da História da MPB.







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