"Faltam Líderes, Sobram Heróis"

Publicação: 2018-08-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Sâmela Gomes
Presidente da Universidade Potiguar e da Faculdade Internacional da Paraíba

Recebi, na semana passada, um convite de um grande amigo, excelente escritor, Cesar Souza, que está lançando mais um livro, (certamente brilhante, conhecendo-o como escritor e pensador) intitulado “Seja o Líder que o Momento Exige”. Ainda não o adquiri, mas já imagino algumas das discussões que ele deve provocar, pensando nas nossos últimos bate-papos nossos sobre o tema.

Um dos questionamentos que sempre me faço quando penso em desenvolvimento de novos líderes – papel relevante de qualquer liderança – é: quais elementos são temporais, portanto, compreensíveis principalmente à luz de um contexto histórico, social, econômico? Estamos levando isso em consideração?

Uma das ilusões sobre liderança, na minha visão e também de alguns autores e executivos, é de que existe um só tipo de líder, independente da época em que se atue. O “verdadeiro” líder, que reina absoluto, em qualquer era. Existem grandes armadilhas nesta suposição, mas, para mim, neste sentido, existe algo crucial quando falamos em liderar: a lógica usada para a tomada de decisões. Líderes tomam decisões importantes todos os dias, às vezes mais de uma no mesmo dia. Decisões que impactam pessoas, processos, resultados e a própria cultura organizacional. Contudo, a lógica para fazê-lo mudou muito, junto à forma de atuar sobre os problemas, na execução das soluções.

Em 1940, por exemplo, o modelo de empresas no ocidente era o retrato de sua sociedade: hígida, centralizada, patriarcal, com verdades absolutas descritas em manuais. Na contemporaneidade, vimos o mundo diluir-se. O sociólogo polonês Bauman – um dos mais relevantes da atualidade, morto ano passado – nomeou este fenômeno de “Modernidade Líquida”, que intitula um dos seus livros mais lidos. Vivemos a fluidez de um tempo em que vivemos em redes, somos velozes, flexíveis, mais assertivos, e com muitas ferramentas tecnológicas para ajudar em nossas decisões.  

É um tanto óbvio que líderes nestes dois contextos têm formas de tomar decisões de maneiras diferentes. Enquanto em 1940 o líder tomava decisões sozinho, “dono do saber”, dentro de uma hierarquia piramidal e quase canônica, atualmente, dentro do nosso mundo fluido, fugaz e veloz, a liderança entende do que é tecnicamente relevante, mas toma decisões em conjunto, ouvindo suas equipes e analisando os impactos vários que uma resolução pode causar. Seria bastante temeroso que empresas hoje destinassem os seus caminhos a líderes que agissem com base em modelo ultrapassado.

Se antes líderes eram endeusados como Heróis, distantes, inatingíveis e salvadores, hoje, deles é exigida elevada inteligência emocional, experiência e exemplo para inspirar confiança e capacidade de integrar áreas porque conhece do negócio como um todo. Os conhecimentos dos pontos nodais, neste contexto, são cruciais para tomada de decisão, de forma flexível e sistêmica.

Entretanto, quando penso que nossa nação tem a oportunidade de escolher democraticamente seu maior líder, me assusta que ainda estejamos com a mentalidade de um mundo que não existe mais. E pior: vejo que faltam líderes, mas sobram heróis.

Neste processo seletivo dos mais relevantes para todos, espero que possamos ter tempo de pensar sobre as lideranças que de fato precisamos atualmente e que não entremos em um “Túnel do Tempo” saudosista e perigoso; nossos ídolos podem ainda ser os mesmos, mas os heróis já morreram há muito de várias overdoses. Que possamos sim, não esquecer o passado, mas agir com os pés no presente, pensando no futuro.   





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