Famílias aguardam casas cinco anos após acidente em Mãe Luiza

Publicação: 2019-08-24 00:00:00 | Comentários: 0
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O dia 13 de junho de 2014 vai ficar marcado para sempre na memória de muitos moradores do bairro de Mãe Luiza, quando homens, mulheres, crianças e idosos por pouco não foram 'engolidos' pela cratera aberta na Rua Guanabara após rompimento de uma tubulação ocasionando deslizamento de terra devido às fortes chuvas que desabaram sobre Natal em pleno campeonato mundial de futebol daquele ano – a capital do Rio Grande do Norte foi uma das sedes dos jogos da Copa do Mundo. No local foi construída uma escadaria que dá acesso à orla da praia de Areia Preta, zona Leste da cidade, e das 26 famílias atingidas 17 ainda aguardam reparação pelas perdas.

Zé de Lô, não saiu do imóvel condenado e tem que usar uma escada para entrar em casa
Zé de Lô, não saiu do imóvel condenado e tem que usar uma escada para entrar em casa

Na ocasião, a Defesa Civil Municipal afirmou que a cratera formada entre a Rua Guanabara e a Av. Governador Sílvio Pedroza – na orla de Areia Preta – foi ocasionada pelo rompimento de “tubulações de drenagem e esgotamento sanitário”. Os moradores atingidos pelo desmoronamento estão recebendo “aluguel social” no valor de um salário mínimo (R$ 998): 26 casas totalmente destruídas, e 46 imóveis foram parcialmente destruídos. Ao todo cerca de 300 imóveis foram interditados no bairro, mas apesar do aviso de interdição na fachada as residências continuam ocupadas.

“Perdi tudo quando a casa caiu: geladeira, fogão, TV, móveis, tudo! Incluindo duas motos e uma bicicleta; está tudo enterrado aí embaixo da escadaria. O buraco também engoliu seis coqueiros que tinha plantado aqui. Ainda bem que não tinha ninguém na hora que aconteceu”, lembrou Antônio Francisco de Lima, mais conhecido como seu Zé de Lô, que chegou com a família em Mãe Luiza em 1949.

A casa de Zé de Lô é um dos três imóveis da Rua Guanabara que serão reconstruídos pela Prefeitura. Morando sozinho nos fundos da residência, contou que “da metade para frente caiu tudo”. Para entrar no cômodo onde vive de forma improvisada, o senhor de 85 anos precisa vencer cinco metros de altura subindo em uma escada de madeira que fica encostada no batente da porta.

Desde 2014 ele convive com o risco de desabamento do que restou da casa. “Da próxima vez que a Prefeitura vier aqui, vou pedir para derrubarem aquela parede ali em cima para evitar que caia na minha cabeça. Hoje meu medo maior é essa viga: se arriar, acabou-se Zé de Lô”, disse apontando para uma viga comprometida que sustenta a laje do teto do cômodo onde mora.

Seu Zé informou que a Prefeitura de Natal pretende reconstruir a parte do imóvel de desabou, mas não da maneira que ele gostaria: “Tinham três casas aqui, era um primeiro andar, com três medidores de luz e três de água, mas só querem refazer uma casa térrea. A outra casa, para compensar, querem trocar por um apartamento lá no condomínio que estão prometendo. Prefiro que façam aqui”, avalia.

Quando a enxurrada levou as casas, ele estava trabalhando na cidade de Santa Cruz, e a residência acabou sendo invadida e saqueada: levaram todas as ferramentas de Zé de Lô, que faz de tudo um pouco no ramo da construção civil. “Além de perder tudo, ainda tive de pagar um advogado para garantir meu direito de receber o aluguel social”.

Comerciante calcula prejuízo em R$ 100 mil
A comerciante Ana Maria Alves, de 48 anos, vizinha de seu Zé de Lô, calcula que acumulou um prejuízo de mais de R$ 100 mil com o desmoronamento – incluindo o valor da compra do terreno, adquirido entre 2010 e 2011 do cantor Fernando Luiz. Ela contou que sua casa “era a mais nova entre as que desabaram. Ainda estava sendo concluída quando o buraco abriu, sobrou só a cozinha e a área de serviço. Fazia pouco mais de um ano que estava morando na casa”, lamentou.

Aninha, como é conhecida no bairro, morava com o marido, dois filhos e três cachorros, e disse que só deu tempo de salvar uma mala com documentos. “Tinha um comércio na frente, perdi toda a mercadoria. Gastei o que não tinha para contratar um advogado particular que pudesse garantir meus direitos”, desabafou. A família da comerciante aguarda laudo técnico para saber da possibilidade de reconstruir o imóvel no mesmo lugar.

Aninha afirmou que o buraco abriu devido vazamentos no sistema de drenagem e de esgotamento sanitário. “Antes de cair tudo, chamamos a Caern e a Prefeitura para ver a situação. Temos tudo documentado. Não fizeram nada, e a condição só piorou até desmoronar. Estou doente com tudo isso”.

Ela informou que no último dia 13 de agosto participou de nova audiência sobre o assunto, mediada pela Justiça, e que a Prefeitura de Natal se comprometeu em iniciar a construção dos apartamentos e a reconstrução das três casas até o mês de dezembro próximo. “Foi o que disseram, vamos ver”, finaliza.

Condomínio deve atender a quem perdeu imóvel
A Prefeitura do Natal confirmou nessa quarta-feira (21) a construção de um empreendimento no bairro, onde parte das unidades (29 apartamentos) irão contemplar famílias atingidas pelo desabamento ocorrido cinco anos atrás. O edital para viabilizar a obra a ser erguida em terreno adquirido pelo Município ao lado da delegacia de Mãe Luiza, orçada em R$ 2,5 milhões, está sendo elaborado pela Secretaria Municipal de Habitação, Regularização Fundiária e Projetos Estruturantes (Seharpe).

Os apartamentos do condomínio habitacional projetado pela Seharpe, situado na avenida João XXIII, terão sala, cozinha, banheiro, dois quartos e área de serviço, além de equipamentos de lazer. As unidades também foram contempladas com estruturas de acessibilidade.

A expectativa é que os serviços iniciem até dezembro próximo, com conclusão prevista para o segundo semestre de 2020. Os recursos são provenientes do Ministério do Desenvolvimento Regional e fazem parte do programa Minha Casa, Minha Vida do governo Federal.

Cronologia

2014
13 de junho: após fortes chuvas, tubulações de drenagem e de esgotamento sanitário se romperam e abriram uma cratera na Rua Guanabara, no bairro de Mãe Luiza, zona Leste de Natal. O deslizamento de terra 'engoliu' 26 casas e comprometeu a estrutura de outros 46 imóveis. Dois edifícios na orla da praia de Areia Preta (na Av. Governador Sílvio Pedroza), ambos com 20 andares, precisaram ser temporariamente interditados por questão de segurança;

2015
8 de dezembro: Prefeitura de Natal inaugura escadaria, construída no local onde houve o deslizamento de terra, permitindo o acesso da Rua Guanabara para a orla de Areia Preta;

2017
22 de agosto: Prefeitura de Natal anuncia retomada das obras para reconstrução dos imóveis que desabaram no deslizamento de terra de junho de 2014. Serviços não avançaram;

2019
13 de agosto: após audiência mediada pela Justiça, que reuniu moradores e gestores municipais, a Prefeitura de Natal se comprometeu em iniciar obras no bairro de Mãe Luiza para reconstruir três das casas atingidas pelo deslizamento e construir um condomínio onde serão alojadas famílias atingidas.







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