Famílias relatam drama da fome na zona Oeste de Natal

Publicação: 2020-09-27 00:00:00
Cláudio Oliveira
Repórter

Fome: termo que vem do latim faminem e é o nome que se dá à sensação fisiológica pelo qual o corpo percebe que necessita de alimento para manter suas atividades inerentes à vida. Mas a palavra também se traduz em tristeza, sofrimento, revolta, humilhação. O direito de ter o que comer para sobreviver tem sido negado, cada vez, a mais gente. É o reflexo do crescimento da pobreza e da miséria que assola a sociedade. Somente no Rio Grande do Norte, 282 mil pessoas moram em lares onde pelo menos uma pessoa passa fome porque não tem como saciar essa necessidade básica. O número está em crescimento e a tendência é que aumente, se nenhuma medida eficiente for tomada.

Em números absolutos, 2 milhões, dos 3,5 milhões de habitantes do Estado convivem com a Insegurança Alimentar em uma de suas formas: leve, moderada ou grave. O número equivale a 59% da população, segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) 2017/2018 - Análise da Segurança Alimentar no Brasil, divulgada no último dia 17 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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A Insegurança Alimentar é identificada quando o acesso e a disponibilidade de alimentos são escassos e também pela má qualidade da alimentação. O problema cresce junto com a desigualdade social e afeta as famílias que passam por dificuldades financeiras, atingindo em cheio grupos específicos, como a população de rua e refugiados.

O coordenador da ocupação Olga Benário, na zona Oeste de Natal, Célio Lima, relatou que, de maneira geral essas pessoas já se encontram em vulnerabilidade social, uma vez que vivem à margem da sociedade, sem emprego certo, oportunidades e instrução ou grau de escolaridade elevado. Na ocupação que ele coordena moram 129 famílias em pequenos barracos, ocupando uma área pública onde seria construído um cemitério. Todas elas, em algum ou em vários momentos, não tiveram o que comer. “Às vezes um ajuda o outro, mas aqui as pessoas não têm muito pra ajudar e acaba em dificuldade também”, contou Célio.

Na POF 2017/2018 o Rio Grande do Norte aparece como o 3º estado do Nordeste em quantidade de lares com pessoas passando fome. O número cresceu a partir de 2013 e chegou a 81 mil lares em 2018. No Brasil, a Insegurança Alimentar Grave atingiu 10,3 milhões de pessoas em algum momento no período de 2017 e 2018, num acréscimo de 68,9 milhões, em comparação com 2013, última vez em que a pesquisa foi realizada.

As histórias de quem passa fome emocionam e trazem a reflexão do porquê isso ainda acontece. Ouvindo os relatos, percebe-se que o problema aparece intimamente ligado a outras mazelas sociais, como a falta de acesso à saúde, à educação, à moradia e à dignidade do cidadão.

“Hoje temos o que almoçar. A janta...Deus proverá...”

Créditos: Magnus NascimentoMaria Claudiane do Nascimento, 43 anosMaria Claudiane do Nascimento, 43 anos

Temos necessidades de muitas coisas, mas a fome é a pior. Eu tenho quatro filhos, três são pequenos: a mais velha tem 19 e os outros têm sete, cinco e o de um ano que é deficiente, tem acúmulo de água na cabeça (hidrocefalia). Com a pandemia, a gente que mora só com os filhos, ficou numa situação ainda pior. Eu trabalhava de doméstica, mas estou desempregada há mais de um ano. Chega a hora da refeição e não temos o que comer. São momentos tristes porque meus filhos ficam pedindo e eu não tenho como alimentar eles. Já cheguei a dormir com fome, com meus filhos chorando pedindo comida sem eu ter em casa. Nessas horas, a agonia aperta e a gente sai pedindo a um e a outro. Faltando comida na mesa, falta tudo. Minha única renda é a do Bolsa Família, mas não teve mudança no valor com a pandemia. Hoje, foi um dia até bom porque logo cedo consegui dois reais e comprei pão pra gente tomar café e ainda tenho o restante do feijão de ontem. Mas a vida tá assim: hoje tem almoço, mas a janta... Deus proverá..

“Amanhecemos sem ter o que comer”

Créditos: Magnus NascimentoSuziane de Moura, 37Suziane de Moura, 37


Eu sou a provedora da família e agora estou desempregada. Somos sete pessoas em casa: eu e meus seis filhos. O mais velho, de 21 anos, está fazendo uns extras pra ajudar nas despesas. Teve dia em que a gente acordou sem ter o que comer. Então, adiantamos o almoço para cobrir a fome do café da manhã que não teve. E assim, a gente vai sobrevivendo. A gente passa por privações e tem que dividir a comida que tiver no armário para conseguir passar o dia todo. Ou então, a gente acorda mais tarde pra o dia ficar mais curto e dorme mais cedo. Aí vai dividindo a comida que ainda tiver, fazendo um revezamento. Num dia come feijão com arroz, no outro só arroz. É desesperador uma mãe de família com seis filhos não ter como alimentar a todos. A sorte do meu filho mais novo é que ele ainda mama. Quando a gente sabe que estão entregando cesta básica, a gente vai atrás porque a necessidade é grande. Recebi o auxílio-emergencial da pandemia, mas ainda assim não supre todas as nossas necessidades. Hoje em dia, a gente não compra nada, nem gasta com qualquer outra coisa porque tudo o que entra é para garantir comida.

"Mais de dois dias sem uma refeição completa"

Créditos: Magnus NascimentoMaria Gabriela da Conceição de Aquino , 22, dona de casaMaria Gabriela da Conceição de Aquino , 22, dona de casa


Atualmente a situação é complicada, não recebo auxílio. Tenho três filhos: um de cinco, outro de quatro e o pequeno, de dez meses. Sou mãe solteira. Moro sozinha. Só tenho ajuda da organização da ocupação em que moro e de quem chega com boa vontade de ajudar com doações. Além da falta de alimentos para as refeições, para as crianças menores não tem leite. A coisa mais triste é quando nossos filhos pedem alguma coisa para comer e não temos o que dar pra eles. E isso acontece com frequência. A gente se sente muito triste em não poder alimentar as crianças. Algumas pessoas doaram cestas básicas nesse período e aliviou por alguns dias. Minha mãe ajuda no que pode. Do pouco que ganha, ela sempre dá algo, mas também nem sempre tem para dar. Estou desempregada, mas eu trabalhava como doméstica e, agora, para piorar, meu filho está doente e nem medicação tenho como comprar. Os três têm problema de asma. Chegamos a passar dois dias e meio sem ter refeição certa. Pedia a um e a outro pra “enganar” a barriga.