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Fernanda Soares produz curta-metragem documental 'Mulheres cordelistas na cena potiguar'
Publicado: 00:00:00 - 14/09/2021 Atualizado: 21:38:49 - 13/09/2021
Tádzio França
Repórter

A peleja das mulheres contra o machismo é braba e se dá em todas as áreas. No mundo do cordel, onde a presença masculina ainda se impõe, elas também têm muito a lutar. Um novo esboço no embate foi traçado pelo curta-metragem documental “Mulheres cordelistas na cena potiguar”, da jornalista Fernanda Soares. O filme de 25 minutos mergulha na literatura de cordel pelo viés do olhar feminino, abordando as trajetórias de quatro cordelistas potiguares, mulheres que têm em comum o amor por essa cultura, e também os problemas típicos da área. O documentário já está disponível no Youtube, por tempo limitado.     

Reprodução
Claudia Borges conta de um encontro de cordelistas em que ela era a única mulher e foi deixada por último. O filme retrata essa e outras histórias com a sensibilidade da diretora Fernanda Soares

Claudia Borges conta de um encontro de cordelistas em que ela era a única mulher e foi deixada por último. O filme retrata essa e outras histórias com a sensibilidade da diretora Fernanda Soares


A obra conta a história  das cordelistas Tonha Mota, Rosa Régis, Claudia Borges e Dodora Medeiros, que narram suas jornadas, influências, e a constante batalha contra o machismo em um universo literário dominado pela presença masculina. “Todas elas têm uma história em comum, e todas passam pelo machismo em algum momento de sua carreira no cordel”, afirma Fernanda. Não é segredo, ela ressalta, que muitos cordéis têm conteúdos problemáticos em relação à mulher, reflexo do predomínio masculino no segmento.  

Fernanda é filha e irmã de cordelistas, e também colaboradora do espaço Estação do Cordel. Sempre teve a percepção da minoria feminina nessa área. “Já ajudei a organizar muitos eventos da Estação, e sempre ficava evidente como as mulheres tinham pouca presença”, conta. O pontapé para a realização do documentário se deu com o lançamento do movimento nacional “Cordel Sem Machismo”, no ano passado, um manifesto que muitas mulheres e homens assinaram. A pesquisa inicial foi de Ygor Felipe e Nando Poeta, que convidaram Fernanda para dirigir. 

Pelejas
Em campo, a equipe pôde constatar as semelhanças entre as histórias das cordelistas. Todas conheceram o cordel através do pai ou de outros membros da família, e todas já encararam alguma situação machista de frente. “A Claudia Borges contou de um encontro de cordelistas em que ela era a única mulher, e foi deixada por último. Na sua vez, quase todo o público já tinha ido embora, e os organizadores perguntaram se ela ainda queria se apresentar. Ela se sentiu humilhada”, diz. 

Tonha Mota, que é negra, já foi criticada por abordar temas raciais em seus cordéis e eventos. Ela é coordenadora da Estação do Cordel e presidente da Academia Norte-riograndense de Literatural de Cordel. A equipe também viajou até Caicó para falar com Dodora Medeiros. Pelo menos lá, a realidade parece ser outra. “Vimos que em Caicó tem muitas mulheres interessadas em fazer cordel e ocupando espaços importantes. E o que é importante: mulheres de várias gerações”, enfatiza. 

Há diferenças entre mulher e homem na hora de fazer cordel? Segundo Fernanda, a estrutura, com suas regras e métricas são as mesmas, mas é no conteúdo que as diferenças estão: “Elas fazem uma leitura da sociedade pelo seu ponto de vista e, claro, não reproduzem o machismo dela”, diz. Ela ressalta o fato de o cordel ter muitas vertentes, e que as questões sociais são comuns no gênero. E claro, o humor, a poesia, história, tudo isso também está nos cordéis das mulheres. 

“Mulheres cordelistas na cena potiguar” teve produção executiva de Will Silva, e foi realizado com recursos federais via lei Aldir Blanc de apoio à cultura, pelo edital Fomento à Cultura Potiguar, promovido pela Fundação José Augusto. Segundo Fernanda, o filme ficará no ar por tempo determinado, já que a intenção  é leva-lo para participar de festivais audiovisuais Brasil afora. 

Serviço:
Documentário “Mulheres cordelistas na cena potiguar”. Onde ver: canal do Youtube da Estação do Cordel (Ponto de Memória Estação do Cordel). Por tempo limitado. 







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