Fernando Colares: “Cuidado no uso do sistema Pix”

Publicação: 2020-10-18 00:00:00
Ricardo Araújo
Editor de Economia


Em menos de 30 dias, os cidadãos brasileiros bancarizados terão ao seu dispor uma nova ferramenta para realização de transações bancárias instantâneas, o Pix. Bancos e instituições financeiras com mais de 500 mil clientes correm contra o tempo para adaptar suas tecnologias ao que é preconizado pelo Banco Central do Brasil para a operacionalização segura do Pix. Em paralelo, milhares de brasileiros já tentam cadastrar suas respectivas senhas de acesso ao novo sistema. Uns com sucesso, outros nem tanto, o que gerou uma enxurrada de reclamações.

Créditos: Magnus NascimentoFernando Colares é especialista em Tecnologia Financeira e Presidente do ImobancoFernando Colares é especialista em Tecnologia Financeira e Presidente do Imobanco


Conforme esclarecimentos do Banco Central do Brasil, instituição que elaborou o Pix inspirado em modelos adotados em pelo menos seis países ao redor do mundo, a ferramenta será uma alternativa mais barata, pois é gratuita para pessoas físicas; rápida, com transações confirmadas em até 10 segundos e segura. Essa segurança, porém, não depende somente da ferramenta, mas da sua usabilidade por quem tem o smartphone na palma da mão. Na entrevista a seguir, o especialista em Tecnologia Financeira e presidente do Imobanco, Fernando Colares, analisa a funcionalidade do Pix e aponta adoção de cautela para que não o usuário não caia em golpes.

Didaticamente, como se pode explicar o PIX e sua funcionalidade?
O Pix é um sistema de pagamento instantâneo, criado, mantido e hospedado pelo Banco Central do Brasil, que visa possibilitar a pessoas físicas ou jurídicas promoverem transferências de recursos, podendo assim, pagarem ou receberem valores, 24 horas por dia, 7 dias por semana, com tempo transacional de até 10 segundos. Para o uso do Pix ambas as pessoas terão que ter sua chave cadastrada que equivalerá ao “caminho” de seu banco ou fintech, agência e conta. Com acesso a sua chave ou QR Code equivalente, a pessoa pagadora poderá ler o QR Code do recebedor, utilizando-se para isso do aplicativo da empresa que usa, informar o valor a ser transferido e ordenar a transferência ao pressionar o botão equivalente em seu telefone móvel smartphone.

Quem pode ter o Pix e por quais motivos é importante tê-lo?

Pessoas físicas ou jurídicas podem promover seus cadastros para terem acesso a essa tecnologia, sendo importante tê-lo, em virtude da imediata disponibilidade do dinheiro a qualquer momento. Essa disponibilidade contínua é o maior atrativo do presente sistema, sendo assim mais relevante para quem tem hábito ou necessidade de pagamento à vista (sem uso de crédito de terceiros). Imagine que um leitor nosso, nesse momento, pode necessitar pagar o jardineiro, comprar uma água mineral numa barraca de praia, abastecer seu veículo de combustível e até fazer uma doação (porque não?). Na China já se registram casos de mendigos que anunciam na placa onde pedem contribuições (o que chamamos aqui de esmola) com o QR Code onde poderá receber o valor a ser doado. As transações de Pix não têm qualquer limite, seja de valor ou horário.  

Outros países utilizam ferramentas semelhantes? Elas tornaram o ambiente financeiro mais competitivo? Por quê?

O Banco Central do Brasil pesquisou sistemas de pagamentos instantâneos em vários países, dentre eles Cingapura, China, Finlândia, Estados Unidos, entre outros. Os países que tiveram a possibilidade de disponibilizar a seus cidadãos formas de promover pagamentos instantâneos com plataformas mais abertas, registraram um grande crescimento de oferta de novas tecnologias e por consequência, barateamento de preços finais aos usuários. Ou seja, a concorrência é positiva para o cidadão.

O Pix se mostra uma ferramenta segura para transações financeiras, conforme defende o Banco Central? Como minimizar riscos enquanto ela é utilizada?
Segurança é a palavra-chave para qualquer banco ou fintech prosperar e o mesmo se aplica ao sistema Pix! Numa linguagem mais técnica, todas as transações financeiras nesse sistema, bem como as operações de registro e alteração de chaves, são realizadas por mensagens assinadas digitalmente pela instituição emissora, enviadas em um canal criptografado por meio de TLS com autenticação mútua. Para tanto, são utilizados certificados digitais ICP-Brasil no padrão SPB. Traduzindo essa definição do corpo técnico do Banco Central, para um leitor mais desconhecedor do que é e como se faz tecnologia, o Pix é sim seguro. Contudo, a ponta da transação, que não está coberta pela segurança do Banco Central do Brasil, é o usuário. Esse, enganado por fraudadores pode acabar enviando dinheiro para alguém que não sabe quem é ou mesmo que deveria fazê-lo. Assim, faz-se necessário ter cuidado no uso do sistema Pix. No caso do Pix, contamos com vários mecanismos de segurança, como cadastramento prévio de sites, certificados digitais e a assinatura digital, além lógico, das diversas validações a serem feitas pelos aplicativos que disponibilizarão essa facilidade transacional. Ainda assim, um usuário poderá ser ludibriado e levado a acessar um site falso contendo QR Code para pagamento via Pix, necessitando estar permanentemente atento à tela de confirmação das informações sobre o recebedor e, ao perceber qualquer inconsistência, não realizar o pagamento. A regra é simples: tenha cuidado e sempre permaneça atento ao promover suas transações.

Como as fintechs e instituições de pagamentos poderão se desenvolver a partir do dia 16 de novembro, quando o Pix se tornar “universal" no país? Essas empresas estão preparadas para um aumento de demanda?

Acreditamos que o Pix será utilizado pelos mesmos usuários que promovem hoje operações de compra com débito em conta ou mesmo usuários de nossos serviços que transferem valores para quitação de operações, dívidas ou compromissos. Não existe, em nosso plano atual, uma visão concreta de que o número de operações de débito em conta irá crescer em função da facilidade. Há quem pague à vista e haverá sempre quem necessitará do crédito para promover seus pagamentos. Apesar do comentário, temos a esperança que o número de pessoas “bancarizadas” aumente e assim, impulsione o crescimento dos negócios financeiros e da utilização de nossos serviços.

Do seu ponto de vista, qual o perfil do usuário do Pix? Os mais idosos terão dificuldade em usá-la, por quais motivos?

Acredito que os primeiros usuários serão as pessoas com idade entre 18 e 59 anos, ativas e moradoras de grandes centros ou centros urbanos. A questão do uso pelos idosos não estará relacionada à dificuldade, visto ser prático o pagamento pelo Pix, mas sim, pela desconfiança e segurança para realizar a transação. Os idosos geralmente carecem de um atendimento mais personalizado e mais próximo, visando retirar suas dúvidas e eliminar seus motivos de insegurança. Já existem fintechs que estão se especializando na criação de tecnologia para idosos, com cores, tamanhos e intuitividade própria para esse público. Muito ainda há por ser feito.

O Banco Central acertou em lançar o Pix em 2020, mesmo em meio à pandemia da covid-19? O que esse lançamento mudará nas transações financeiras no país? Novos bancos deverão aportar por aqui?

Em nossa avaliação, o Banco Central do Brasil está de parabéns! O ano de 2020, com todo esse problema de saúde pública e falta de acesso a atendimento e serviços financeiros, foi um ano ideal para o surgimento de uma tecnologia com essa aplicabilidade. O mercado hoje não carece de novos bancos, pois com o surgimento das ESC – Empresas Simples de Crédito, SEP – Sociedade de Empréstimos entre Pessoas, Crowndfunding (ou financiamento coletivo em português), Securitizadoras e Fidc – Fundo de Investimentos em Direitos Creditórios – todas já regulamentadas pela CVM – Comissão de Valores Mobiliários e Banco Central do Brasil – ele está aberto para operações de crédito. Essa estrutura de crédito aliada às tecnologias das fintech de cartões de crédito/débito, carteiras digitais e plataformas de comércios eletrônicos, terão total capacidade de irrigar na economia brasileira, em um montante suficiente para transformar o Brasil em um país modelo.