Fernando Filizola: 'Que show foi aquele? Estou nele até hoje!'

Publicação: 2019-05-05 00:00:00 | Comentários: 0
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Yuno Silva
Repórter

Em 1968, Fernando tinha 22 anos e circulava com uma banda de rock por toda a região Nordeste. Influenciado pelos Beatles, tocava guitarra, cuidava dos arranjos e repetia “yeah!” sempre que o vocalista dava a deixa. De passagem por Natal, onde costumava fazer shows no Aeroclube ao lado dos colegas do The Silver Jets – entre eles Reginaldo Rossi – conheceu Maria Gorette, de 15 anos, na época aluna do Colégio Imaculada Conceição. Gorette e as amigas estavam na organização da quermesse da escola, mas a atração musical havia faltado e elas foram para a calçada da Av. Deodoro pensar em alguma solução para entreter o público que lotava a quadra de esportes do CIC.

Fernando Filizola, músico e fundador do Quinteto Violado
Fernando Filizola, músico e fundador do Quinteto Violado

Nesse intervalo a banda resolveu parar o carro, 'por acaso' para paquerar as estudantes. Depois de ouvir sobre o desfalque na programação, Fernando, todo galanteador, convocou o grupo: “Vamos ajudar as garotas!” A quermesse estava salva, e o destino traçado.

Foi amor à primeira vista: Fernando e Gorette se casaram três anos depois, e não se desgrudaram mais. “Que show foi aquele? Estou nele até hoje!”, disse a curraisnovense Gorette,  durante conversa da reportagem do TN FAMÍLIA com o músico, cantor e compositor Fernando Filizola para a seção Minha Área desta semana.

E assim a relação de Fernando Filizola, 73, com Natal e o Rio Grande do Norte se estreitou. Pernambucano de Limoeiro, artista fundador do Quinteto Violado e parceiro-backing vocal de Reginaldo Rossi quando o 'Rei do Brega' ainda estava no início da carreira, Filizola lembra com saudade dos tempos que a cidade era perfumada. “Natal cresceu muito, para cima, e perdeu aquele cheiro bom (de flores, de frutas e de perfume)”.

A primeira vez
Conheci Natal em 1966, quando vim com os Silver Jets tocar no Palácio dos Esportes. A banda fazia parte da caravana de artistas do Recife organizada pela TV Jornal do Commercio que veio se apresentar em prol da arrecadação de alimentos e recursos para os flagelados de uma enchente que teve naquele ano. Vim tocando guitarra, claro!

Quatro mãos
Minha iniciação musical foi em Limoeiro (PE), onde comecei a ter aulas de piano. Mas me aborreci com o piano, aliás, com a pianista que estava tocando comigo: ela errou um movimento e a plateia riu da gente. Foi uma tragédia  na minha vida. Pensei: se eu errar, a partir de agora, assumo a responsabilidade sozinho. Aí pedi uma sanfona para o meu pai, queria ver quem iria tocar sanfona à quatro mãos. Na época, começo dos anos 1960, o acordeão estava em alta por causa do Luiz Gonzaga. Essa relação profissional com a música começou comigo e meu irmão (já falecido), que também teve aula de piano e depois aprendeu a tocar bateria. Meu pai era muito jeitoso, galanteador, gostava de cantar um pouquinho nas serenatas. 

Silver Jets
Depois que nos mudamos para Recife, comecei a tocar violão e cantar Bossa Nova. Montamos um conjunto de baile: eu na sanfona, meu irmão no piano, chamamos amigos para completar. Mas notei que aquilo estava ficando muito elitizado, eu com 16 para 17 anos, muito novo ainda, vi que aquilo não era pra mim. Cai no rock. Foi quando Reginaldo Rossi me chamou para formar o The Silver Jets. Começamos a circular bastante por Pernambuco, o grupo ganhou corpo: meu irmão começou a tocar bateria com a gente, ensinei um outro amigo a tocar contrabaixo, Reginaldo fazia a guitarra base e eu a solo. Depois foi entrou teclado. O que acontecia no Sul, a gente ia incorporando. Fomos considerados o melhor grupo de rock de PE da época. Reginaldo cantava em inglês, eu fazia só o “yeah” – para mim já estava bom demais!

Jovem Guarda
Como comecei a fazer arranjos, todos os artistas da Jovem Guarda que vinham para a TV Jornal do Commercio me procuravam. Toquei com todos: Wanderléa, Wanderley Cardoso, Ronnie Von... todos que passavam por Recife tocavam com os Silver Jets. Com o Roberto Carlos só da primeira vez, depois que ele estourou com o calhambeque passou a andar com um trio (RC Trio). Mas teve uma vez que o material dele pegou fogo, não mudaram a chave de 110V para 220V, aí emprestei minha guitarra. Eu ensinava música, e minhas alunas reconheceram a guitarra que ficou com fiapos da franja da blusa do Roberto. Foi aquele briga [risos].

Quinteto Violado
Depois que o Reginaldo Rossi saiu da banda para iniciar carreira solo, assumi o The Silver Jets – fiquei até 1968, ano que fui ser produtor da TV Universitária do Recife. O rock estava em baixa, a Bossa Nova estava se transformando em MPB e fundamos o Quinteto Violado. Tocava viola. Logo no primeiro show, na Fazenda Nova (onde acontece a Paixão de Cristo), foi um sucesso danado. E quando terminamos o show, o filho do dono do teatro virou e disse: “Pai, lá vem os violados”. Por certo não soube dizer os violeiros, mas seria um bom nome para o grupo – como éramos cinco, ficou Quinteto Violado. Deu certo que só caçuá em besta! Eu e Gorette viajamos muito juntos nesse período.

Duplo sentido
A música começou a dar uma baixada, deu aquela sufocada financeira, e decidi seguir carreira solo. Montei uma banda e fui tocar em Sergipe, isso em 1984. Fui contratado para trabalhar em uma campanha política, e fiquei tocando por Aracaju e cidades do interior. Fazendo campanhas políticas também. Paguei minha dívidas, quitei apartamento; deu certo! Cheguei a gravar um disco solo, “Tá cheirando a coisa boa”, frase com duplo sentido mesmo, com participação de Dominguinhos – com quem tive uma amizade muito forte – e Nando Cordel que me deu muita força. Hoje em dia toco só por hobby, para brincar, principalmente na casa da minha filha (em São Paulo), e do meu filho (em João Pessoa).

Graçandu e Seridó
Antes de vir morar aqui, e ficar dividido entre São Paulo e João Pessoa, aproveitava todas as folgas para vir à Natal. Era bom demais curtir a Lagoa de Extremoz, a praia de Graçandu, o Seridó. Sempre adorei o Rio Grande do Norte. Foi em Graçandu, onde costumo ir até hoje (na casa do cunhado e da sogra), que aprimorei minha pintura. Gosto de pescar, mergulhei muito (pesca submarina), mas hoje vou de molinete mesmo – ou pesco no prato: caranguejos, picado de carneiro. [risos] A primeira vez que estive no Seridó era Festa de Santana. Fiquei com aquelas imagens guardadas, que inspiraram uma música que fiz para o primeiro disco do Quinteto Violado. Vez por outra volto por lá, para acompanhar a festa e rever os parentes.










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