Fernando Suassuna: “Tratamento e prevenção podem antecipar a volta” 

Publicação: 2020-05-24 00:00:00
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O torcedor do futebol do Rio Grande do Norte o conhece como ex-presidente do Abc e Alvinegro apaixonado. Os antigos alunos de cursinhos pré-vestibulares, relembram suas aulas divertidas de biologia. Os atuais médicos potiguares o conhecem como o grande professor. E a luta contra o coronavírus, no estado conta com a sua capacidade como um dos mais experientes infectologistas do País. Há dias isolado por ter uma série de comorbidades que o colocam no grupo de risco do Covid-19, o médico Fernando Suassuna, tem dedicado todo seu tempo e energia para auxiliar no combate ao vírus. 

Suassuna tem participado ativamente de vídeo-conferências e na produção de um protocolo médico para os colegas que estão na linha de frente contra o Covid-19.

Sua paixão pelo futebol também o coloca nessa outra luta. Com o esporte parado, os clubes sofrem e a torcida sente a falta de ver a bola rolar. Nessa entrevista à Tribuna do Norte, Suassuna explica caminhos que podem vir a ser trilhados no Estado.
Créditos: Vicente EstevamSegundo infectologista, o retorno do futebol precisa ser tratado com urgência e surgimento de medicamentos e prevenção são essenciais na lutaSegundo infectologista, o retorno do futebol precisa ser tratado com urgência e surgimento de medicamentos e prevenção são essenciais na luta
Qual a possibilidade de retorno seguro do futebol diante do quadro atual no RN?
O futebol do Rio Grande do Norte, como os dos demais estados do país, sofre com a angústia da paralisação de suas atividades devido a pandemia da Covid-19. Esse momento é de grande importância para manutenção do distanciamento social, no sentido de evitar o contágio e o risco de provocar o congestionamento nos serviços de saúde do estado. Caso haja um colapso do sistema, consequentemente haverá a mortalidade da assistência médica. Várias competições sofreram interrupção devido a esse processo, com desgaste muito grande para os clubes que foram obrigados a isolar atletas, cancelar alguns contratos e o fato vem gerando uma crise, sem precedentes, que atingiu em cheio o futebol.

Poderia existir algum prazo?
Como infectologista, sempre disse que as projeções dessa pandemia, uma doença que não possui um tratamento eficaz e nem vacina para proteger as pessoas, apontava que não teríamos a volta do futebol antes do mês de setembro. Na situação em que o RN se encontra, com o tipo de curva epidemiológica que vem apresentando, os dados indicam que os meses de maio e junho também serão períodos importantes de aumento no número de casos da doença. Mas muitas coisas estão ocorrendo de maneira rápida, a comunidade científica vem buscando uma forma de tratamento eficaz para Covid-19, com possibilidade de prevenção por meio de medicamentos que estão sendo estudados. Os processos vão agir tanto no tratamento quanto na prevenção e podem antecipar a data prevista, anteriormente, para a retomada das atividades no mundo esportivo. Precisamos colocar um ponto final nessa imensa crise e trazer o futebol de volta, que é uma atividade importante na sociedade. Lembrando que com o retorno, todos os atletas terão de ser testados de forma muito corriqueira, aqueles que apresentarem testes positivos no IGG, indica que já desenvolveram anticorpos para doença e que, provavelmente, não serão transmissores, com esse grupo não haverá problema. Porém, aqueles que ainda não tiveram contato com o coronavírus, vão ter de ser protegidos, trabalhando separado dos outros grupos. Já o atleta que testar positivo para IGM, mesmo se não apresentar quadro febril, ele será diagnosticado com Covid, tendo de ficar afastado dos trabalhos, sendo obrigado a entrar num período de isolamento, para não contaminar outras pessoas. A previsão aponta ainda que, pelo menos este ano, todos os jogos terão de ser realizados com os portões fechados para o público, uma vez que a aglomeração potencializa a possibilidade de uma explosão de novos casos, podendo conferir ares mais dramáticos a essa pandemia. O futebol terá de retornar de forma gradual e sem torcida, não vejo como se colocar público dentro de um estádio, na condição epidêmica que o RN se encontra.

Na sua visão qual seria a forma segura para a realização de treinos?
Estimo que o retorno aos treinamentos, em minha opinião, poderá ocorrer em torno de julho ou agosto. As partidas terão de ficar um pouco mais para frente, pelo fato de que com a paralisação tão prolongada, os atletas perderam basicamente todo o condicionamento que haviam adquirido no período de pré-temporada. Então os clubes terão de ter um tempo para realizar esse trabalho de recuperação. Mas reforço que esse prazo é baseado na tese de que nada de novo ocorrerá até lá e, surgindo uma forma eficaz de combate a doença, as previsões sobre tempo, certamente, serão abreviadas.

E para a realização de jogos?
As condições em que irão ocorrer os treinos e as partidas, irão depender bastante da situação imune dos atletas. Alguns jogadores já se infectaram, como a imprensa noticiou, em alguns dos grandes clubes brasileiros e ressalto que a testagem será importante.

A testagem é segura para os que fazem o futebol?
Os testes rápidos que serão realizados, não possuem 100% de confiabilidade e podem indicar tanto falsos positivos quanto falsos negativos. Geralmente o nível de acerto em situações desse tipo gira entre 60% e 70%, o que obriga essa testagem a ser repetida, na busca de minimizar a faixa de erro. O ideal é que todos os jogadores estejam bem informados para tomarem os cuidados necessários, principalmente os atletas que ainda não tiveram contato com o vírus. Esse grupo pode trabalhar com aqueles que já se mostram imunes, mas existe o caso dos pacientes assintomáticos, que podem contaminar o companheiro, sem sequer saber que está doente, caso o exame apresente um resultado de falso negativo.

Existe alguma forma de profilaxia para atletas, comissão técnica, jornalistas e gandulas, etc que estariam nos jogos?
Existem duas drogas que estão sendo testadas para prevenção da Covid-19 e, que, se forem aprovadas e liberadas, uma vez que já são utilizadas para combater outras doenças, vem dando uma grande esperança para o pessoal que milita na área da saúde. Com isso a probabilidade de as pessoas envolvidas num espetáculo de futebol ficarem protegidas aumentaria bastante, claro que de maneira transitória através desses medicamentos! Caso isso ocorra, vai modificar totalmente a história que estamos planejando sem esse tratamento inovador e que prevê distanciamento de segurança entre as pessoas. Além disso, ainda temos essa crise social e econômica passando de uma forma muito forte para dentro do futebol. Temos de evitar isso!

Na sua opinião, torcida no estádio só após a vacina?
Esperamos resolver essa questão da prevenção o mais rápido possível, para abreviar o retorno das atividades, sou da corrente que não devemos pensar em vacina nesse momento, esqueçam isso, pois a previsão é de que ocorra apenas em 2021. A única alternativa é trabalhar na proteção dos atletas, as pessoas diretamente envolvidas com os jogos e a imprensa. Assim teremos condições de garantir segurança ao espetáculo do futebol. Na Europa já estamos presenciando a retomada de alguns campeonatos importantes, mas existe notícia de que, em alguns países, a Covid-19 está começando a crescer novamente. Então temos de ter muito cuidado com essa situação também.

O futebol e a sociedade, como um todo, precisam de quê para vencer esse desafio?
É necessário que a sociedade entenda a situação que estamos vivendo, todos temos de seguir as recomendações das autoridades da área da saúde, bem como das autoridades sanitárias do país. Precisamos manter um bom nível de isolamento e distanciamento social, neste momento em que a curva de transmissão da Covid-19 vai em busca de atingir o pico epidêmico. Recomendamos manter, ainda, um bom nível higiênico também visando um bom percentual de prevenção. No mais é torcer para que as coisas, daqui para frente, deem certo. Devemos dar uma atenção boa aos grupos de riscos, aquelas pessoas propensas a desenvolver as formas mais grave dessa doença, propiciando uma diminuição no número de mortalidade e de internamentos. Enfim, tudo vai passar pelo epicentro da crise, concentrado em maior parte no setor da saúde. Hoje necessitando de todo apoio da sociedade para resolver os seus problemas e devolver ao povo brasileiro a paz e a tranquilidade que merecemos. 






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