Fernando Suassuna: 'Não posso garantir que continuarei no cargo nas condições que estão'

Publicação: 2019-12-15 00:00:00 | Comentários: 0
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Em um período em que as dívidas do ABC foram expostas e o clube está sendo obrigado a cortar investimentos, bem como na própria carne para reduzir os gastos. O quadro funcional já foi reduzido em cerca de 40% e o futebol também promete ser abalado com a política de orçamento justo lançada pelo conselheiro Bira Rocha, com o aval do  presidente Fernando Suassuna. O dirigente diz que, se o plano de metas não for implementado, não terá como tocar o clube, que tende a perder patrimônio e encolher até que alguma decisão de combate a crise seja tomada. Veja o que diz o presidente alvinegro sobre o atual momento e o que está pensando para o futuro abecedista.

Clube passa por uma grave crise financeira e está com investimentos bastante limitados. Diretoria quer negociar uma parte do terreno para quitar o débito de R$ 33 milhões
Clube passa por uma grave crise financeira e está com investimentos bastante limitados. Diretoria quer negociar uma parte do terreno para quitar o débito de R$ 33 milhões

Depois de debatida a questão do montante da dívida do ABC, qual o caminho que a diretoria resolveu seguir?
O debate foi aberto e importante entre a diretoria executiva e o conselho deliberativo. Nele nós tiramos um bom proveito, principalmente na última reunião, onde vários conselheiros apresentaram propostas no sentido de fazer o clube diminuir gastos, diminuir os seus custos. Eles entendem que o processo é de mudança do ABC e que, aliada a proposta realizada por Bira Rocha, que é um plano para promover o saneamento financeiro do clube, no sentido de fazer o ABC voltar a crescer. Bira mostrou de forma didática a inviabilidade de se manter longas áreas de terrenos improdutivos, que só fazem aumentar os impostos que temos a pagar. Como a prioridade é quitar salários, quando as coisas andam mal nas finanças, esses tributos vão acumulando e acabam sufocando e agravando o quadro da dívida.

 Foi dito também que o orçamento do clube terá de ser muito justo, para evitar o acúmulo de mais dívidas. De hoje em diante não se permite mais saldo no vermelho neste setor? Como anda essa questão?
Eu ganhei um pouco ais de tempo para realizar a proposta orçamentária para o futebol do ABC em 2020. Vai ser uma proposta digna e que venha atender a todos os anseios desse novo momento. Temos as propostas de corte de gastos lançadas por Bira Rocha e pelos nossos conselheiros e iremos fazer o possível para andar dentro delas. Não podemos contribuir para o aumento dessa dívida.

 Qual foi a primeira medida que Suassuna tomou neste sentido, com o objetivo de cortar gastos?
Há algum tempo tínhamos em mente a possibilidade de realizar uma reforma administrativa dentro do ABC. Então vimos que o nosso quadro de funcionários estava extremamente inchado e resolvemos reduzir o número de pessoas trabalhando aqui dentro em todos os setores. Iniciamos com um corte que atingiu em torno de 30 a 40% do nosso quadro. Até aqui foram 44 servidores desligados e haverá a necessidade de cortar mais alguns. Resolvemos trocar número por capacidade e, estamos apostando, numa gerência totalmente profissional, com a contratação sendo realizada através de um processo seletivo, com a participação do consultor Marcelo Sant’Ana e sua empresa de consultoria, a Footway. Então captamos no mercado profissionais de uma grande capacidade técnica e que começaram a fazer a diferença na administração do clube. Ultimamente tem saído funcionários antigos, que vinham trabalhando em cargos estratégicos. Esses também tiveram de ser mudados por causa da nova estratégia administrativa. A contensão de gastos, a transparência, austeridade e a responsabilidade irão nortear a administração daqui por diante. Nosso mandato, possui vários empecilhos, mas o pior de todos são essas dívidas, que da forma como estão, inviabilizam o ABC de funcionar tanto no futebol quanto na parte administrativa. Vem daí a necessidade de se atacar o problema agora. Do ponto de vista econômico é prejuízo tocar a situação como se encontra, pois o patrimônio que conseguimos acumular, irá desaparecer tendo ou não alienação, por que se as contas não forem pagas vão ocorrer o bloqueio dos bens do clube, virão os processo de leilão e então é importante se colocar um freio definitivo na situação. Sabemos que as medidas tomadas serão delicadas, ocorrerá com bastante austeridade, mas esse é o remédio que o clube necessita.

 Com tanto aperto, como ficará a questão do futebol?
É claro que diante de tal situação eu não poderei ficar de braços cruzados, terei de usar o poder de gestão de um clube como o ABC para buscar alternativa. Essa história de só poder gastar aquilo que conseguir arrecadar, deixa qualquer agremiação com a calça justa. Por isso tenho feito visitas a alguns clubes que possuem parceria com o nosso, que possuem parcerias em direitos econômicos de atletas nossos que estão atuando por lá, como Grêmio e Athletico-PR no sentido de viabilizar mais algumas receitas para 2020, de uma forma que garanta a continuidade do processo, mas que contemple também os nossos compromissos.
 
A questão da venda de patrimônio sempre foi delicada dentro do conselho deliberativo do ABC. Você disse que não há alternativa para resolver o problema do clube, sem levar a alienação ao debate. Então essa questão pode provocar algum tipo de batalha na cúpula alvinegra?
Existem dois pontos sobre essa questão. O primeiro consiste naquela parte do terreno onde funcionaria o posto de gasolina, esse processo já está devidamente concluído, a área está vendida, já foi registrado em ata. Mas essa aprovação e a venda vão servir para resolver os problemas das finanças do final de 2019. Tivemos compromissos a cumprir, antecipamos receitas da Copa do Nordeste e esses recursos terão de ser repostos para viabilizar o orçamento da próxima temporada. Se não tivermos essas receitas para recompor o que já pegamos, deixará o futebol totalmente inviável para o próximo ano. Nós temos um plano de ação para reapresentar ao conselho, já levando em consideração a modificação na logística da distribuição desses recursos.

Depois que a crise e o montante financeiro devido acabou desbravado, o ABC se viu obrigado a paralisar algum projeto?
Na verdade, o projeto que tínhamos pensado para o ABC e, considerávamos mais emergente, era esse da reforma administrativa e ele está caminhando bem. Temos tido muitas dificuldades, hoje estamos arranjando modo para pagar a folha com o décimo terceiro salário aos funcionários, temos ainda de pagar os acordos realizados com os atletas e funcionários desligados em agosto, período que o clube não dispunha de dinheiro suficiente em caixa. Tudo isso ficou para agora. Todos estão recebendo mensalmente uma quantia e tudo tem de ser pago, sob pena de o acordo não cumprido se transformar em mais uma avalanche de questões na Justiça do Trabalho.

 Falando em Justiça do Trabalho, me lembrei do caso Ranielle Ribeiro, ex-treinador que cobra mais de R$ 1 milhão ao clube. Como o presidente encara essa situação?
Achei estranho pela maneira como foi colocado. Pelo que escutei dentro do departamento jurídico do ABC, o que se comenta é que coisas absurdas foram colocadas dentro dessa ação. O nosso departamento jurídico foi reforçado com a chegada do escritório do doutor Gleidson, ele é quem vai estar bastante atento a esses casos. Agora pedir todo mundo tem o direito, vamos atrás da realidade para saber o que realmente é devido, e defender o ABC com força.

 Você se mostrou surpreso com a atitude, pelo fato de vir pagando, ainda, a todos os treinadores de Geninho para cá?
Sim me gerou surpresa, mas a gente não sabe o que se passa na cabeça das pessoas. Nós temos a obrigação de analisar, Ranielle Ribeiro, praticamente, se recusou a entrar em acordo, as negociações sempre eram travadas e, isso tudo, é muito ruim.  Confio no departamento jurídico do nosso clube para resolver essa ação e, francamente, espero que seja a última. Ninguém aguenta mais, é por isso mesmo que estou fazendo um esforço grande para cumprir com todos os compromissos firmados em dia.
 
Pelas projeções realizadas, quando o torcedor do ABC verá o clube investindo forte no futebol novamente?
A nossa lógica do futebol foi formar um time com um perfil do nosso treinador, Francisco Diá, que sabe montar equipes competitivas com elencos não tão caros. Ele tem essa filosofia de trabalho, estamos deixando-o bem à vontade nessa questão e, digo aqui, que não irei admitir qualquer tipo de interferência, principalmente as externas.  Então Diá já tem um grupo praticamente definido, faltando três ou quatro peças para se encaixar e vir para dar qualidade, mas, ainda assim, com uma folha barata para os padrões do ABC nos últimos anos, o nosso orçamento está quase extrapolando.  Porém vale salientar que dentro desse orçamento não está previsto as premiações que o ABC irá conquistar avançando em competições como a Copa do Brasil e a Copa do Nordeste. Aquilo que for entrando, vindo de premiações, irá reforçar o caixa do futebol, como também não fizemos a previsão da comercialização de atletas oriundos das nossas bases. Acredito que iremos ter uma receita, neste sentido, até maior que a desse ano que está se encerrando. Apesar de considerado um elenco barato, existem atletas no grupo em que tivemos de realizar um investimento mais alto, que são os casos de Wallyson e Augusto, vindo do Santa Cruz-PE. À medida que tivermos possibilidade de fazermos, os investimentos serão realizados dentro do futebol.

Com relação ao mercado externo, o ABC está atento a essa possibilidade de realização de parcerias com empresas ou grupos estrangeiros?  Isso ocorreu recentemente com o Bragantino, que surge com potencial de investimento muito forte. Aqui vocês estariam dispostos a encarar algo idêntico?
O ABC não está à venda, porque o nosso clube pertence ao povo, aos seus torcedores. Mas estamos sim atentos a parcerias. Parcerias, lógico, que sejam boas para gente e para o investidor. Acho que com essa nova lei que vem em 2020, permitindo a abertura do capital dos clubes nacionais para o investidor estrangeiro, irá facilitar muito a condição de agremiações do porte do ABC e que sejam também estruturados como nosso clube é. Tenho certeza que seremos visados por termos estádio próprio, estarmos em Natal, uma cidade que já foi sede de uma Copa do Mundo. Temos, ainda, o projeto de construir um novo centro de treinamentos para revelação de atletas e, além do mais, somos uma equipe conhecida mundialmente, através do Livro dos Recordes, como o clube que mais vezes ganhou uma mesma competição. Então, em termos de marketing, tudo isso facilita e despertará o interesse de quem chegar aqui.

 Se Suassuna fosse um grande investidor, numa condição dessas, com a dívida que o clube possui, você investiria no ABC?
[Silêncio...]  Se deixassem fazer o que a gente vem tentando corrigir no ABC hoje, investiria sim, sem o menor problema! Bira Rocha é muito sábio, e mostra que conhece o que fala quando diz: hoje em dia, quem possui imóvel parado, sofre de uma pobreza funcional. Ele tem um imóvel, mas não pode transformar em dinheiro porque não interessa a ninguém. Então esse proprietário só vai ter prejuízo pagando os impostos gerados sobre aquele bem imóvel.  O ABC hoje precisa se desfazer de pelo menos 2.2 hectares para sanar todas as suas dívidas e, o clube, dispõe de 9 hectares naquela área. Ainda vamos ficar com muita terra, mas que pretendemos transformar em unidades produtivas através de parcerias, para acabar com esse prejuízo com os impostos. São projetos para viabilização de um shopping, de algumas lojas e, aí, não se vende mais nada, pois o espaço será reutilizado de uma forma produtiva.

 O que Fernando Suassuna poderia cobrar da torcida alvinegra em 2020?
Eu não posso cobrar nada, até porque reconheço que não viemos de uma campanha muito boa em 2019. Neste caso não estaria cobrando, mas desejando que a torcida entenda o atual momento e compareça ao estádio, se junte ao clube para que possamos superar esse momento de dificuldade de forma mais branda. Isso tem de ser feito independente se o presidente será Fernando Suassuna ou outro, porque também não posso garantir que continuarei no cargo nas condições que estão! Não vou e nem teria condições de aguentar esse fardo sozinho, também não tenho vaidade de ser ou continuar presidente. O que possuo, é o compromisso de deixar o ABC, pelo menos, com um norte para ser seguido.

Você pensou em renunciar em algum momento?
Eu? Nunca! Mas não posso esconder que a mágoa por certas coisas que ocorreram é grande. O fardo é pesado e venho sofrendo injustiças e calúnias, coisas que jamais passei em minha vida. Ainda não consegui me prostituir no futebol e, por isso, acredito que devo sair do ramo mais cedo do que penso. Não pretendo deixar o ABC da forma que está, a não ser que inviabilizem esse projeto, aí não terei mais o que fazer no clube.



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