Festival de teatro reúne peças com abordagens políticas

Publicação: 2019-11-27 00:00:00
Ramon Ribeiro
Repórter

Os sete punhos cerrados da arte criada para a edição 2019 do Festival Artes Cênicas Casa da Ribeira (FICA) é tanto um símbolo de resistência quanto uma referência aos sete espetáculos da programação – não por acaso, espetáculos de diferentes abordagens críticas. O evento foi lançado na terça-feira (26) num café da manhã para convidados. Além das peças, a programação do festival conta com bate papos e uma festa. O FICA acontece entre os dias 26 e 29 de dezembro, na própria Casa da Ribeira, e os ingressos já estão à venda.

Créditos: CedidaA Terra é Plana! é novidade do grupo Observatório TeatralA Terra é Plana! é novidade do grupo Observatório Teatral
 “A Terra é Plana!” é novidade do grupo Observatório Teatral

O tema deste ano é “Ano passado morri, mas esse ano não morro”, escrito assim, sem o “eu”, para mostrar que a coisa é coletiva, como frisou o diretor da Casa, o ator e dramaturgo Henrique Fontes. “Tentamos patrocínio pelas leis de incentivo e editais. Não conseguimos. Mas tudo bem, não é por isso que deixaremos de realizar. Falamos com os grupos convidados e todos toparam fazer o festival arriscando à bilheteria”, contou Henrique, que integra a programação com o grupo Carmin, que apresentará “A Invenção do Nordeste”, o espetáculo mais premiado do Brasil em 2019.

O público também poderá assistir “A Ida ao Teatro”, uma comédia de humor ácido do  Facetas, Mutretas e Outras Histórias sobre a ida de um casal ao teatro antes mesmo de sair de casa. O grupo, por sinal, está fazendo aniversário de 20 anos. Outra peça é “Mulheres Invisíveis”, do Estandarte de Teatro. Trata-se de uma história baseada no fato real de feminicídio em que cinco mulheres foram mortas dentro de casa na cidade potiguar de Itajá.

Montada pela primeira vez esse ano, “Provisório” é um dos trabalhos mais recentes da programação. O espetáculo do grupo Interferências de Teatro aborda relações familiares e envelhecimento. Outra novidade é o “A Terra é Plana! E Agora?”, da Observatório Cia Teatral, que depois de estrear meses atrás em Brasília chega pela primeira vez à Natal.

Censura aqui não!
O festival também dá espaço para dois grupos que vivenciaram episódios de agressão e censura em 2019, como a S.E.M. Companhia de Teatro, com “A Mulher Monstro”, e o Clowns de Shakespeare, com “Abrazo”. No caso da S.E.M., o ator potiguar José Neto Barbosa escapou por pouco de ser atingido por uma pedrada na cabeça ao apresentar seu monólogo que mostra uma burguesa intolerante que repete falas reais de comentários da internet e de figuras públicas, como o presidente Bolsonaro. A agressão aconteceu no mês de setembro, numa apresentação no interior de Pernambuco. Em abril, em Curitiba, o grupo viveu a experiência da censura, ao ver a prefeitura cancelar sua apresentação em um dos equipamentos culturais da cidade. Em resposta, o grupo apresentou em praça pública. “Conseguiram quatro seguranças pra gente e apresentamos na rua. Foi o nosso recorde de público: 1400 pessoas”, lembrou Sérgio Gurgel Filho, sonoplasta e iluminador do espetáculos.

Créditos: DivulgaçãoDiretores e grupos participantes do FICA durante o lançamentoDiretores e grupos participantes do FICA durante o lançamento
Diretores e grupos participantes do FICA durante o lançamento

Também impedido de se apresentar foi o grupo Clowns de Shakespeare, que teve cancelado pela Caixa Cultural de Recife sua série de apresentações do elogiado espetáculo “Abrazo”. A justificativa da entidade foi de quebra de contrato, embora o que teria motivado não tenha sido especificado. O grupo está processando a instituição, que além de Recife, cancelou as apresentações que seriam feitas em Curitiba.

“Foi algo que botou abaixo todo o planejamento que estávamos fazendo para 2020. Porque perdemos outros contratos, coisas que já tínhamos fechado. Mas nenhum processo político vai nos fazer parar de trabalhar”, comenta o ator Dudu Galvão, do Clowns. “Esse foi pra gente um ano de resiliência. Entregamos o Barracão depois de 10 anos de atividades. Fizemos isso para não quebrar. Em compensação, fomos muito bem recebidos no Tecesol, um espaço que respira teatro. Também circulamos pelo Equador, Colômbia e Peru com o nosso Boi Galado, isso com o apoio do edital Rumos Itau Cultural. Foi um ano em que precisamos muito acreditar no que a gente faz. ”.

Segundo Henrique Fontes, a seleção dos espetáculos desta segunda edição do FICA mostra questões relevantes. “É um recorte importante do teatro feito na cidade. São espetáculos de dramaturgia original e que tocam em pontos, acho eu, que o público está querendo ver no palco”, avalia o diretor da Casa da Ribeira.

Fora os espetáculos, o FICA conta com os bate papos “Censura Nunca Mais”, com grupos que sofreram perseguição e censura no Brasil de 2019, e “Grupos que Continuam”, com companhias teatrais que estão na ativa há mais de 10 anos. E mais a festa “Ano Passado morri, mas esse ano não morro”, comandada pelo coletivo Yayá (discotecagem com Pedro Fiuza e Victor Bezerra), o cantor e ator Dudu Galvão, e a banda Samba Vai.

Um pólo independente no Natal em Natal
A Ribeira não foi contemplada no calendário do Natal em Natal. Pensando nisso, os grupos e mantenedores de espaços culturais com atividades no bairro histórico se uniram numa programação para a área. Além do FICA, que acontece no final de dezembro, o início do mês estará movimentado com vários outros espetáculos. A essa programação, os organizadores chamaram de Natal na Ribeira Independente.

“Além de esquecerem a Ribeira, vimos que faltou contemplar na programação do Natal em Natal as Artes Cênicas. Esse período de dezembro é bom, a cidade recebe turistas. Então pensamos numa programação independente, onde os grupos vão apostar na bilheteria. Será uma espécie de Pré-FICA”, comenta Henrique Fontes. Além da Casa da Ribeira, participam do Natal na Ribeira Independente o espaço A3, Gira Dança, Ateliê e IFRN Rocas.

Créditos: Dani TorresO premiado A Invensão do Nordeste reforça a programaçãoO premiado A Invensão do Nordeste reforça a programação
O premiado “A Invensão do Nordeste” reforça a programação

No dia 1º, às 18h, tem o espetáculo “Canudo se Apaixona”, solo do ator e diretor George Holanda, na Casa da Ribeira. Nos dias 06 e 07, às 18h, no Espaço Gira Dança, acontece o monólogo “Quando eu não mais existir” de Hyago Pinheiro. Também no dia 6, os alunos do curso de Gestão Desportiva e do Lazer do IFRN promovem a ocupação “Passa na Praça”, na Praça Irmã Vitória, nas Rocas, com atrações musicais, dança, recital de poesia, exposição fotográfica e espaço para crianças.

Já nos dias 08 e 09, às 17h e 16h, respectivamente, será apresentada a peça de dança contemporânea “Pelo Pescoço”, com Ana Claudia Viana e direção de Daniel Torres. Nos dias 13 e 14, às 20h, dentro da programação do Pré-FICA, na Casa da Ribeira, acontece a peça: “A Tragédia Mais Insignificante do Mundo”, do Coletivo Teatro das Cabras. E dia 20, às 20h, o Pré-FICA tem seu último evento de aquecimento: a 5ª Edição do Festival de Cenas Curtas, quando quatro cenas curtas de até 20 minutos serão apresentadas num clima descontraído em que permitido comidas e bebidas dentro da sala de teatro da Casa.

Serviço
Natal na Ribeira Independente

Do dia 1º até 20, em vários pontos da Ribeira.

FICA NATAL 2019
Do dia 26 até 29, na Casa da Ribeira

Programação completa e ingressos: www.sympla.com.br/casadaribeira