Festival Mada: apostas que deram certo

Publicação: 2019-10-22 00:00:00 | Comentários: 0
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O Festival MADA 2019 apostou com força em novas tendências da música brasileira contemporânea. Trouxe como grande atrações artistas e bandas de projeção nacional recente e que pela primeira vez se apresentavam em solo potiguar. E não desapontaram. É o caso da carioca MC Tha, da paulista Luiza Lian, da brasiliense Flora Matos, da baiana Luedji Luna, da banda paulista Teto Preto e do rapper mineiro Djonga – dono de um dos shows que mais contagiou o público. Bandas recorrentes, como BaianaSystem e Natiruts, jogaram com a partida ganha. E Baco Exu do Blues, que retornou ao festival pela segunda vez, também agradou bastante. Dentre as pratas da casa, Potyguara Bardo e BEX foram os destaques, além do Clube Underground do House e Tisk, dois coletivos de música eletrônica que comandaram muito bem o after nos dois dias de evento.

MC Tha: uma entidade sensual que leva o funk para outros ritmos e dimensões
MC Tha: uma entidade sensual que leva o funk para outros ritmos e dimensões

Mais de 15 mil pessoas circularam pelo festival nos dois dias de evento. Segundo a organização, a sexta-feira teve o maior público dos últimos cinco anos. E no sábado, dia geralmente mais procurado, a produção precisou aumentar a área do gramado em alguns metros quadrados.

Sexta-feira
Na sexta-feira, os portão foram abertos com Mad Dogs, seguido por Júnior Groovador e Banda. Mas o negócio só ficou quente mesmo a partir do show da Potyguara Bardo, quando uma plateia calorosa e colorida recebeu a drag em sua segunda passagem pelo Mada. “Simulacre”, o primeiro e único álbum de la Bardo já tem mais de um ano, mas os fãs cantam seus 'under' hits como se fosse a primeira vez. Poty pinta e borda, embalando o povo com um bom coquetel de funk, reggae, house e brega. O fim do show foi uma redenção à diversidade com o hino disco “I will survive” e muitos convidados no palco.

Potyguara Bardo embala os fãs mais uma vez com os under hits de Simulacre
Potyguara Bardo embala os fãs mais uma vez com os under hits de "Simulacre"

Depois a música delicada de Luiza Lian - cujo álbum “Azul Moderno” esteve em todas as listas de melhores de 2018 - encheu o palco de texturas sonoras e imagéticas. As canções que alternam poesia, candomblé, o amor e o feminino, flutuavam entre beats graves, percussões sintéticas, distorções eletrônicas. Ao fundo, projeções abstratas e psicodélicas emolduravam Luiza e complementavam seu transe com a plateia. Foi uma pena “dizer tchau”.

O batuque subiu de velocidade para outro terreiro entrar em cena:  hora de MC Tha iniciar seu “rito de passá” com a plateia. A cantora encarnou uma entidade sensual para passar sua música quente e vigorosa. Tendo o funk como base, Thaís brinca com ritmos paraenses e nordestinos, joga trap, electro e 150 BPM para azeitar a mistura e sintonizar sua música com o século XXI. Adepta da umbanda, a MC tocou uma versão de “Jorge da Capadócia” para celebrar suas raízes.

Na sequência a anarquia clubber da banda Teto Preto tomou conta do palco, assustando alguns desavisados. Uma pena, pois o grupo paulista oferece uma interessante mistura de música e performance – boa parte apoiada no impressionante dançarino Loïc Koutana, um artista que faz o que quiser com o corpo. A cantora Laura Díaz tem a virulência punk necessária para levar a loucura adiante. Misturando beats, sopros e percussão, o Teto joga house e tecno com letras minimalistas e críticas, uma “dance music de protesto”, por assim dizer. Ao fim, o Teto convidou o coletivo local Smoking Haus para animar o palco com um freak show 'club kid' de encher a vista.

Uma das atrações mais aguardados da noite, Baco Exu do Blues deu o que seu público queria. As projeções iniciais do show emocionaram. A primeira parte da apresentação fluiu bem, com seus hits “quase” românticos, como “Flamingos” e “Queima minha pele”. Perdeu o pique depois, com rodas de pogo desnecessárias e convidados sem sintonia com o som.

O fenômeno Baco Exu do Blues fez os fãs vibrarem entre o pogo e o romantismo
O fenômeno Baco Exu do Blues fez os fãs vibrarem entre o pogo e o romantismo

O Baiana System veio ao festival pelo terceiro ano consecutivo, desta vez com um disco novo na bagagem. Infelizmente, tocou pouco de “O futuro não demora”, e privilegiou “Duas cidades”. Apesar do bom show de sempre, ficou a sensação de déja vu.

Sábado
Uma das boas surpresas do segundo dia do Mada foi a banda pernambucana Bule, que se apresentou depois dos potiguares Ouen e Zé Caxangá e Seu Conjunto, respectivamente. O som do Bule lembrou as baladas das décadas de 70 e 80 com seu som entre o retrô e o psicodélico, caracterizado pela mistura entre o teclado, guitarras e sintetizadores. As projeções e figurinos da banda, de estética pop new wave em tons de cores pastéis, também ajudaram a transportar o público para as décadas passadas.

Depois veio a apresentação da BEX. Não foi impecável, mas surpreendeu onde deveria. A artista entrou no palco acompanhada somente pelo músico e produtor Walter Nazário (Mahmed) nos sintetizadores e na guitarra para apresentar o “Clocking Days”. Não precisou de mais nada para impôr a mesma atmosfera do álbum de estreia com maestria. O ponto negativo foi a participação do trio Rieg (PB), que soou desconexa com o restante do show. A baixa qualidade do som nos microfones do trio paraibano não ajudou nem um pouco – um pecado da produção do Mada.

Luedji Luna fez chorar e sorrir com carisma, melodia e balanço
Luedji Luna fez chorar e sorrir com carisma, melodia e balanço

Mulher baiana, negra e adepta do candomblé, Luedji Luna assumiu o palco mostrando sentimento e força espiritual pungente. Com nome de rainha (Luedji é o nome da primeira rainha africana da etnia Lunda, no século 17), Luedji aflorou o que há de mais íntimo e bonito nas almas dos presentes. Fez chorar e fez sorrir. Sem dúvidas, um dos grandes shows do Mada.

Por sua vez, o Plutão Já Foi Planeta mostrou sua 'vibe' única com um show que prega a diversidade e exalta o Nordeste e o Rio Grande do Norte. O público cantou junto os sucessos da banda natalense como 'Me Leva' e o mais recente 'Lua em Rita Lee'. A apresentação ainda contou com a participação de Samara Alves, potiguar que participou do The Voice Brasil.

O Natiruts levou ao palco do Mada o seu show 'I Love', uma mistura de seus grandes sucessos com trabalhos do novo álbum, que leva o mesmo nome. A banda brasiliense fez o público dançar e cantar ao som de canções consagradas como 'Andei Só', 'Deixa o Menino Jogar' e 'O Carcará e a Rosa'. O clima romântico do show seguiu com a música 'I Love', faixa-título gravada em  parceria com a banda estadunidense Morgan Heritage. Ainda sobrou tempo para homenagear o rei do reggae, Bob Marley, com “Is This Love”.

Djonga esbajou energia e rimas de ordem para incendiar o público do Mada
Djonga esbajou energia e rimas de ordem para incendiar o público do Mada

Um menino que nasce querendo ser Deus não poderia ter uma apresentação menos ambiciosa. Djonga incendiou o racismo (e os racistas) e se impôs no palco do Mada como um rei - não a toa, foi carregado no braço pelo público e chegou botando o pé na porta com o verso “Abram alas para o rei", de Hat-Trick. O rapper traduziu com o seu estilo brutal as diferenças sociais entre negros e brancos e provocou a sensação de redenção das vítimas do racismo. O resultado foi um público em exaltação do início ao fim. Uma apresentação enorme do rapper com o seu terceiro álbum, “Ladrão”.

(Por Luiz Henrique, Tádzio França, Ramon Ribeiro, Tales Lobo)








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