FHC: é preciso despertar confiança na economia e dar clareza a privatizações

Publicação: 2020-08-02 00:00:00
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Aldemar Freire
Editor de Política

Valdir Julião
Repórter


O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso faz, nesta entrevista exclusiva à Tribuna do Norte, uma análise da conjuntura econômica e política do país, da atuação do governo Bolsonaro na pandemia e das implicações, no Brasil, da eleição nesta ano para presidente dos EUA. Para FHC, a desigualdade precisa ser combatida com a mesma prioridade com que a inflação foi nos anos 90, quando ele exercia o cargo de ministro da Fazenda e liderou a implantação do Plano Real.
Créditos: Arquivo TNEm entrevista exclusiva, Fernando Henrique Cardoso fala à TN sobre economia, gestão de Bolsonaro e avalia possíveis candidatosEm entrevista exclusiva, Fernando Henrique Cardoso fala à TN sobre economia, gestão de Bolsonaro e avalia possíveis candidatos

O apoio de Fernando Henrique a um candidato na disputa pela sucessão do atual presidente depende de quem vai consolidar uma liderança após as eleições municipais, com uma visão de “país integrado a um mundo globalizado, sem deixar de  defender os interesses nacionais”.

Se considerarmos o momento da eleição de Tancredo Neves, são 35 anos de redemocratização. Ao longo deste período, o senhor participou dos acontecimentos país. Foi presidente por dois mandatos seguidos, liderou a mudança e estabilização da moeda quando esteve no Ministério da Fazenda. Ao observar este momento atual, considera que avançamos tanto quanto o imaginava quando participava das articulações da redemocratização, da constituinte e de outros episódios nestas três décadas?

As instituições democráticas estão funcionando. Isso é importante. Não há democracia sem liberdade de imprensa. A nossa mídia tem liberdade e sabe usá-la. Critica, fala e não há quem tente segurá-la. Isso é muito positivo. Depois, a sociedade mudou para melhor, apesar de todas as crises. E nós vivemos em uma crise tremenda neste momento. Se olharmos o que era e o que é hoje, o Brasil se urbanizou mais, mas, ao mesmo tempo, tem uma agricultura pujante, um setor financeiro forte. Mas o importante é o bem-estar das pessoas. E tem muita gente na pobreza. Agora, com essa crise, vai aumentar. Mas, ainda assim, acho que conseguimos reduzir algo daquela tragédia que nós vivíamos [nos índices de pobreza do país]. Portanto, o saldo da democracia é positivo e o povo parece que tomou gosto por escolher. Não que eu não possa criticar escolhas feitas, mas são escolhas do povo. Isso é muito bom [ter a livre escolha popular].

Quando esteve no ministério da Fazenda e depois na Presidência, o senhor conduziu o Plano Real, que superou a inflação, algo que o brasileiro estava até habituado, embora sofresse com suas  implicações econômicas e sociais. Qual é o problema hoje que deve ser enfrentado, com a prioridade que a sociedade, lideranças políticas, empresariais, instituições foram convencidas a dar na época  que se enfrentou a inflação com o Plano Real?

Acho que hoje o prioritário é diminuir a desigualdade. Estamos vendo agora, nessa pandemia. Embora no começo o vírus tenha penetrado nas classes altas, hoje está atingindo os mais pobres. A desigualdade não pode ser considerada por nós como algo natural. Temos que reagir contra a desigualdade. Não estou propondo que haja igualdade absoluta, porque isso depende de fatores que transcendem a possibilidade humana, mas dizendo que há níveis de desigualdade que são inaceitáveis, porque levam à pobreza muito elevada. Essa é a preocupação central: Garantir políticas públicas capazes de compensar a situação que existe hoje de muita desigualdade.

E esse problema tem se agravado?

No meu governo e no de Lula, houve uma relativa diminuição da desigualdade. Agora não só por causa do governo, mas também por causa da pandemia, temo que haja um processo de aumento da desigualdade.

O Congresso Nacional começou a discutir a reforma tributária. Avalia que as propostas em discussão estão indo na direção adequada para melhorar o  sistema tributário do país?

O sistema tributário no Brasil é muito complexo, burocratizado, custa caro mantê-lo. Isso requer burocracias públicas e das empresas. Esse é um problema difícil, porque não se trata simplesmente de propor uma boa reforma, trata-se de vencer as resistências daqueles que vão ter de pagar. Os governos sabem quanto necessitam e sempre precisam [arrecadar] mais. E as pessoas não gostam de pagar. Por que se chama imposto? Não é voluntário. Na hora da “onça beber água”, quando se toma uma decisão, os que menos forças têm, acabam sendo os que mais pagam. A reforma é necessária, vamos fazê-la, dar um passo adiante, mas isso vai progressivamente. Não é que se vá de uma vez do ruim para o bom. Vai melhorando no que for capaz.

O atual ministro da Fazenda tem vertente mais liberal. O senhor sempre foi social-democrata. Considera que Paulo Guedes está no caminho certo? É possível implementar esse liberalismo econômico no Brasil?

Acho muito difícil. Na situação atual, quase impossível, porque o ministro bate de frente com a crise. A dívida pública vai crescer muito. As boas intenções [de Paulo Guedes] vão se diluir na realidade brasileira, que obriga governo a tomar responsabilidades que em outros países não são tão necessárias. Acho que aqui o bom senso levaria a um equilíbrio entre a presença governamental e a do mercado. O mercado resolve os seus problemas, que não são, necessariamente, de igualdade, da maioria. Então, o governo tem que cuidar desses outros problemas também. É pouco provável que, com uma agenda abertamente liberal, nas circunstâncias brasileiras, especialmente agora com a pandemia, encontre êxito daqui para frente.

Talvez a discussão conduzida nesses termos – liberal versus estatizante -  esteja superada?

Acho que não existe mais. A oposição não é entre mercado e governo. Nós precisamos de mercado e de governo. Obviamente, o que for possível o mercado, através da competição real tomar conta, é melhor. Mas há setores que não se resolvem via mercado. Então é necessário ter políticas públicas. Também não se pode imaginar que o governo vai ocupar todos os espaços de uma sociedade complexa como a nossa.

O ministro Paulo Guedes chegou a afirmar naquela reunião ministerial, que teve o teor divulgado por decisão do STF, que defende a privatização do Banco do Brasil. O governo tem planos também de privatizar os Correios e a Eletrobras. O governo do senhor foi marcado por um programa de privatização muito forte em alguns setores. Considera que se deve privatizar mais no Brasil?

Não acho que seja a prioridade maior. Claro que o que for possível passar para o setor privado, sendo legítimo, que se passe. Mas o governo precisa ter alguns instrumentos. O Banco do Brasil é um instrumento de crédito e de regularização, por exemplo, da taxa de câmbio. O Brasil precisa disso. Precisa ter instrumentos efetivos na mão do governo para que se possa atuar a favor dos objetivos nacionais. Imaginar que resolve tudo privatizando, vai ficar na imaginação, porque na realidade não vai ser efetivado assim. Eu mesmo quebrei o monopólio de um setor que era símbolo, o do petróleo. Não sou contrário à privatização, mas acho que não se pode ter uma bandeira apenas da privatização. A chave do êxito é a competição. Mas onde há monopólio é mais difícil. Agora o país está discutindo algo muito importante, que é a questão sanitária, esgoto e água. Aí, havendo competição, é bom, porque são mais capitais que vêm, mas vai precisar de regulamentação do governo. Isso não quer dizer que resolve privatizando tudo o que está na mão do estado, resolve criando oportunidades para o setor privado competir também.

Como o senhor vê a atuação do governo Bolsonaro com relação à pandemia de coronavírus?

Eu achei muito irresponsável, porque mudar ministro de Saúde em plena pandemia já é um sinal de dificuldade, de não ter uma estratégia clara no assunto. O próprio presidente dá exemplos que não são condizentes com a situação, ao andar em aglomerações, não usar máscaras, enfim, não usar nenhuma proteção. Tem sido uma condução pouco acertada diante da realidade brasileira e mundial.

A atuação do Supremo Tribunal Federal e mesmo outras instâncias do Judiciário tem provocado algumas discussões e polêmicas. Há quem aponte um certo ativismo, no caso dos inquéritos das "fake news" e dos atos que foram apontados como antidemocráticos. Iniciativas como essas extrapolam as atribuições do Poder Judiciário?

Não acho que chega a esse ponto, não [de extrapolar a atribuição do Poder Judiciário]. Acho que estávamos acostumados a um Judiciário pouco eficaz para resolver questões do mundo contemporâneo. O Judiciário agora é desafiado por muitas questões nas quais vai ter que entrar. Neste assunto fico com Montesquieu: “O equilíbrio dos Poderes é fundamental”. E há um certo equilíbrio entre os Poderes. Na medida em que o Executivo às vezes tenta ultrapassar o limite, o Judiciário não deixa. Também se o Judiciário começar a ultrapassar os limites, cabe ao Senado controlar. Mas não acho que tenha havido realmente essa ultrapassagem ilegítima de limites. 

O senhor declarou em algumas oportunidades que o impeachment não é uma alternativa a ser considerada. Continua com essa impressão?

Quando tem impeachment? Quando o presidente incorre em alguma coisa contra a lei e a Constituição, reiteradamente, e ele perde a maioria no Congresso Nacional. E quando o povo exige uma mudança, começa a se manifestar. Com a pandemia, o povo está em casa, com medo da doença. Eu posso não concordar com o governo, mas não acho que seja o caso de impeachment. Espero que não venha a ser de impeachment, porque deixaria marcas. Veja os impeachments que fizemos. Eu participei, porque era senador, do impeachment no tempo do presidente Collor. Depois, no impeachment da presidenta Dilma, já não era mais senador, mas sempre participava da política. Lembro que no impeachment do Collor, Ulysses Guimarães, eu e outros mais, resistimos muito à ideia, não porque quiséssemos ou não tirar o governo, mas porque tínhamos medo das consequências. Mas chega o momento que não tem solução, o presidente incorre em tantos erros que acaba não tendo solução. Esse é o risco do presidente não se dar conta, hoje, de perder a maioria do Congresso. É grave, mesmo quando se pensa que os partidos não têm poder. Os partidos não têm força no Brasil. Na verdade no Congresso eles têm poder. Quando os governos se chocam de frente com o Congresso, quem perde são os governos.

Isso pode acabar criando uma situação insustentável?

Não é bom. Mas às vezes é inevitável, quando incorre em situações que não tem mais saída e quando o povo exige. Não acho que chegamos a esse ponto e não é o desejável. Eu não votei no presidente Bolsonaro e voltarei contra na próxima ocasião. Mas o ideal é que seja no voto.

Não votou nem no 2º turno?

Não votei. Anulei o voto no segundo pela primeira vez na vida.

Mas em 2022 não vai ficar em cima do muro...

Não foi ficar em cima do muro. É dizer que não estou de acordo nem com um lado, nem com o outro. Como tem segundo turno, há necessidade de escolher ou dizer que não está com nenhum dos dois.

Para 2022, já tem uma posição?

Não. É cedo. Vamos ter agora eleições municipais. Eleição municipal é muito importante, sobretudo, porque os eleitos apoiam, no futuro, o candidato a deputado. Essa é a posição política mais geral, não tem vinculação direta com a votação para presidente da República e, realmente, para o povo, eleição presidencial só começa depois de eleição municipal. Os políticos se afligem desde já e os jornalistas também, começando por fazer algumas especulações. Mas acho que é cedo. É preciso esperar um pouco a passagem do tempo das eleições municipais e aí então se coloca a questão presidencial. Eleição não é só a questão de ter uma razão em abstrato, é ser sempre capaz de tocar o sentimento das pessoas, além de ter razão, vamos ver quem vai ser capaz [de falar ao sentimento das pessoas] nas próximas eleições.

O senhor foi muito marcado por uma gestão direcionada para ajuste fiscal. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) foi daquele período. Agora estamos vendo o déficit público pode superar R$ 500 bilhões, em função da pandemia. Isso vai ter implicações preocupantes?

Preocupa muito, porque se perder o olho fiscal, tudo vai para trás. Não digo que vai voltar a inflação, mas sempre pode haver esse perigo. E o governo também fica inativo. Isso não pode. Então é mais importante ainda saber qualificar o que tem e o que não tem nos gastos. O gasto público pode continuar a existir mesmo que haja menos recursos, mas é preciso concentrar no que é essencial. O essencial não é pagar a burocracia, que é obrigado pela lei, mas saber onde é que coloca os recursos. Por isso, vai ser importante que o governo defina com mais clareza o projeto de privatização, porque haverá menos recursos para o estado fazer. Vai precisar trazer mais confiança na economia. O governo tem a ver com estabilidade, não ser só bom gestor do dinheiro público, mas também despertar confiança na economia.

Com relação a assunto relacionado à inflação, com viu o anúncio que haverá cédula de R$ 200,00?

Era melhor que não houvesse. Por mais que queira disfarçar, é um sinal muito preocupante.

É sinal de que a inflação pode voltar?

Acho que ainda não. Não vejo sinais de inflação, porque é algo que só volta quando o consumo começa a crescer e nesse momento as pessoas não estão consumindo.

Estamos talvez caminhando para a maior recessão da história do país, por causa da pandemia. No governo Dilma, houve uma das maiores do período republicano. Embora não seja economista, mas sociólogo, se bem que foi ministro da Fazenda, o que aponta como alternativas para estimular o país a sair dessa crise tão grave?

Eu fui professor em faculdades de Economia aqui e no Chile. Não sou economista profissional, mas tenho alguma noção da economia. Independente disso, mais importante não é ter essa noção de economia, mas sim de país, do que a nação vai precisar. Essa é a maior crise pela qual passamos. Não me lembro de outra semelhante. O país precisa recuperar a economia, a crença em si mesmo para ter investimentos e emprego. Claro que agora estamos todos concentrados na saúde. Espero que termine [essa pandemia]. Precisa recobrar a confiança no investidor para que possa repor dinheiro na economia. Não vejo, neste momento risco de inflação. O importante é o governo ter uma política clara e saber quais são seus objetivos para atrair de novo o sentimento de crescimento. Precisa ter cuidado com os gastos, porque se exagerar, como frequentemente exagera, desencoraja quem pode colocar dinheiro para o crescimento da economia. O principal mesmo é a capacidade de ver mais claro no horizonte o que é possível para a economia crescer. O que temos de vantagem? Agricultura brasileira  eficiente. Temos um sistema financeiro que não depende de capital externo. Agora a dívida é interna. Os bancos públicos e privados brasileiros têm recursos. Então, nós temos uma boa economia agrícola e financeira. Quais são os problemas? O setor de produção industrial que depende de ciência e tecnologia e de encadeamento das redes produtivas mundiais. O governo tem de ter política clara a esse respeito. Temos recursos por causa da agricultura e das finanças para sairmos de uma maneira correta dessa crise, olhando com atenção para o encadeamento da produção industrial.

O senhor disse há algum tempo que faltam lideranças ao país. Desde então surgiram algumas que possam ajudar a sair dessa crise?

Liderança política é bem diferente da liderança acadêmica ou setorial na economia. Na academia, se você sabe alguma coisa, sai correndo e põe seu nome. Quando se está na vida política, faz o contrário. É preciso que sua ideia seja sentida como do outro, como se fosse dele e de outro. É preciso que as pessoas acreditem. É importante que haja liderança com essa capacidade. Não se inventam lideranças, mas em certos momentos, elas aparecem. Existem aí [algumas] disponíveis? Existem. Se pegar os governadores, geralmente os candidatos são dos grandes estados, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro. Mas não é necessário que seja assim. Certamente, o governador de São Paulo [João Doria] tem um certo conhecimento da vida política nacional. Temos, no Rio Grande do Sul, um governador [Eduardo Leite] que é jovem e muito bom. Estou falando deles, porque são do PSDB, o que não quer dizer que não possa haver de outros partidos. Não sou sectário. Acho que, no momento no Brasil, nós queremos ideias que tenham capacidade de influenciar. Tem jovens que estão se propondo, como Luciano Huck. Não é experimentado. Ele conhece o povo, não conhece a máquina pública. E não podemos deixar de lado que Bolsonaro vai ter poder e, queira ou não queira, capacidade de influenciar. Por enquanto, parece ser os líderes que estão surgindo. Quem  vai sobreviver às eleições municipais? Aqueles que forem capazes de expressar sentimento que bata no coração e na cabeça das pessoas depois das eleições municipais. Pessoalmente, estou disposto a apoiar, independente do partido, desde que seja uma pessoa que veja que o Brasil tem que se inserir neste mundo, mas com seus interesses próprios, e aqui precisamos olhar para o povo, para a população, muito mais  do que para as instituições, que parecem estar melhor.

O senhor não citou os ex-ministros Mandetta e Sérgio Moro...

Podem ser. O Mandetta conheço pouco. O Moro, também. Mas podem. É preciso que se pronunciem agora. É muito fácil ter visibilidade quando está no poder. Quando está fora, é o problema.

Alguns apontam que o lavajatismo precisa ser corrigido. Vê isso também?

Não. Agora está na moda criticar o lavajatismo. Tudo bem, os excessos podem ter existido, mas acho que a Lava Jato cumpriu um papel muito importante. Não gosto de ver gente na cadeia, muito menos quando conheço alguns. Mas colocar na cadeia gente rica e poderosa não é fácil. A Lava Jato fez isso. Deu o sentido de que a moralidade pública é muito importante, que havia o excesso de roubalheira para falar no português claro. Mesmo que neste momento esteja em baixa, com uma espécie de visão negativa do lavajatismo, espero que o sentimento que levou a Lava Jato a existir, continue vigente para evitar que voltemos a uma situação de corrupção generalizada.

Esse processos judiciais e investigações recentes que citou lideranças do PSDB em denúncias na Justiça [o senador José Serra e Geraldo Alckmin foram denunciados], enfraquece o partido?

Certamente que dificulta e enfraquece o partido. Não há dúvida. Isso aconteceu com PSDB, MDB, PT e com outros partidos. E, o mais grave, com partidos que se proclamavam mais isentos de corrupção. Esses foram alcançados também. Enfraquece, o que não quer dizer que não seja possível que líderes apareçam nesses partidos e que tentem, enfim, recolocar as coisas.

Quando respondeu sobre potenciais lideranças nacionais, não citou nomes de esquerda. Há dificuldades que inviabilizam que sejam alternativas políticas nacionais nomes como o ex-presidente Lula, o governador do Maranhão Flávio Dino, o ex-ministro Ciro Gomes?

Flávio Dino é um nome de respeito. É uma pessoa que pode vir a ter um papel e espero que tenha. O Ciro Gomes não sei se é de esquerda ou direita. Salta muito, ziguezagueia muito de posições. Mas ele tem presença, é inteligente, sabe falar. No Brasil, quem fala, tem vantagem. No caso do PT... O Lula, que é o grande símbolo do PT, está proibido de ser candidato. O candidato virtual, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad é das minhas relações pessoais, prezo, uma pessoa correta, mas não creio que tenha capacidade de liderar o Brasil. Pode ser que tenha capacidade, mas não tem conhecimento do Brasil para isso. E o PT ficou muito marcado pelos malfeitos, o que não quer dizer que não tenha uma máquina, que não possa manter alguma representação. Mas acho difícil que alguém do PT volte a exercer o poder a partir da próxima eleição.

Há possibilidade de superar essa polarização que tivemos nesses últimos anos para o país ter uma discussão pública mais madura sobre os caminhos a tomar?

Eu espero. Não sei se vai acontecer, mas se depender de mim, faço um esforço máximo para manter uma atitude razoável. Nesse momento a razoabilidade é esmagada pela polarização. Então é difícil dizer se vai prevalecer ou não. Mas quem sabe se será possível? Política depende de pessoas, não são só ideias. Precisa ter alguém que simbolize isso. Se algum desses mencionados conseguir simbolizar um caminho que seja democrático e progressista, acho que é melhor. Entendemos como democrático o respeito à Constituição, às leis e às eleições que regem a democracia em geral. Entendemos como progressismo perceber que a economia é de mercado, mas o povo existe. Então, temos que prestar atenção na situação de vida das pessoas.

Fala-se muito na presença de militares no governo Bolsonaro mais do que no regime militar. Como vê essa questão?

Eu vejo com preocupação por causa das Forças Armadas. Não creio que existam nelas o sentimento, como já houve no passado, de exercer o poder. Com esse sentimento ou sem, a presença de muitos militares no governo vai fazer com que a população pense que são os militares que estão mandando. Com isso, se houver desmandos, vão ser atribuídos aos militares. É uma preocupação para quem acredita que as Forças Armadas têm um papel de estado, institucional, e não político de governos. Não vejo com bons olhos a multiplicação [de militares no governo]. Eu não acho que seja por pressão dos militares, mas sim por incapacidade do governo de atrair civis.

O instituto da reeleição, que começou com o senhor, deu certo no país? Ou deve ser revisto?

Há muita gente que critica a reeleição. Eu sempre fui favorável. Na verdade, mais influenciado com o que acontece em outros países, como os Estados Unidos, ou nos países parlamentaristas, pois dá possibilidade ao povo dizer: “Fique, eu quero”. Não é o governante, mas o povo que decide. Quatro anos passam muito depressa, é claro. Quem quer ser o próximo presidente é melhor quatro anos, tem mais chance.  Os partidos que estão fora do governo preferem também. Mas pensando no país, eu acho mais razoável. Se alguém funcionar bem, que fique mais tempo. Ou então, teria o mandato de seis anos, mas se o eleito não der certo, é muito tempo para aguentar seis anos.

E a relação do presidente com o Congresso? Parece que já esteve pior. Agora está mais amena, mas há quem aposte que não dura muito tempo assim. Essa relação precisa se consolidar?

Acho que sim. É muito difícil governar um país diverso. O Brasil é um país grande e muito desigual. Isso nos leva à necessidade de entender melhor o Congresso, o atual presidente veio do Congresso. Mas parece que ele não tem muita vinculação com o Congresso. Vou fazer uma comparação grosseira, é como se fosse cavalo e cavaleiro. Quando o cavalo percebe que quem está montado nele é mau cavaleiro, derruba o cavaleiro. O Congresso é assim. O tempo todo fica vendo se o presidente é ou não capaz de dar orientação. Não orientação ao Congresso, mas ao país. Se o presidente é capaz de expressar o sentimento nacional, o Congresso queira ou não, acaba seguindo. Quando o presidente não tem essa capacidade, o Congresso procura aumentar o seu poder, aí as coisas se complicam. Votei pelo parlamentarismo lá atrás. Essa é a questão do “ovo e da galinha”. Não tem partidos, porque tem um governo muito forte. Ou para ter um governo forte, teria que ter partidos. Isso, no passado. Hoje, com internet por intermédio da qual as pessoas ficam opinando diretamente, pautando os partidos, não creio que seja possível pensar parlamentarismo no Brasil. Mesmo assim, é preciso que o Executivo entenda que tem limites. Deve respeitar as decisões do Congresso, saber lidar com o Parlamento. Isso é saber lidar com o país. Se souber, o povo vendo e pressionando os deputados, acaba votando no caminho que ele desejar.

A reforma política está ficando um pouco para trás. Ainda deve ser prioridade?

Ela é prioridade. Mas o que se entende por reforma política?Penso que o mais importante é aproximar mais o eleitor do eleito. Portanto, é o voto distrital, mais do que qualquer outra coisa, porque o voto distrital pode permitir maior proximidade entre o eleitor e o eleito. Portanto, que o eleito respeite mais a vontade do eleitor. Mas nunca discutimos o voto distrital. Quando nós discutíamos no passado, a ideia era que o voto distrital seria elitista, uma maneira da elite controlar. Pode ter sido no passado, mas hoje, com as grandes cidades e massas urbanas, acho que é difícil. Os distritos são divididos geograficamente. Talvez tentar uma reforma no voto, na maneira de “distrilizar”, é mais importante do que o resto.

Qual a perspectiva do senhor para as eleições dos Estados Unidos e a implicação para o Brasil?

O presidente Trump tem um estilo que não gosto, muito personalista e transforma tudo quase em casos como se fossem pessoais. Faz gestos inadequados. Prefiro que ganhe o Biden. Qual vai ser a diferença de política dos EUA? Não sei, porque a política internacional americana é a emergência da China e os dois país vão continuar a competir. Com relação ao Brasil, tem efeitos, porque na medida em que o presidente Trump parece ser a imagem que guia o nosso presidente, se perder lá, atrapalha essa visão do presidente daqui. E Biden parece ser uma pessoa mais plural e de aceitar mais a diversidade. Agora, se falar francamente, não é uma relação automática. Algo acontece lá, necessariamente, não acontece aqui. É claro que há uma tendência no mundo com uma espécie de volta ao nacionalismo isolacionista, que se contradiz com as estruturas econômicas que estão cada vez mais integradas. O Biden talvez represente uma volta à visão mais integracionista do que isolacionista, que o Trump representa. Isso tem efeito sobre nós também. Pessoalmente, prefiro o Biden.