Ficção e memórias entre coroneis do sertão

Publicação: 2018-03-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Ramon Ribeiro
Repórter

Depois de uma destacada trajetória na imprensa nacional, com passagens por Jornal do Brasil, Folha de S. Paulo, Veja e O Globo, além da carreira no marketing político, comandando campanhas de governador e prefeito em diversos estados do Brasil – e de presidente, em países da América Latina –, o natalense Antônio Melo despertou para uma nova profissão: escritor. E histórias pra contar não lhe faltam. Aos 70 anos, ele estreia na literatura com o romance de ficção “A Vingança”. Publicado pela Z Editora, o livro será lançado na quinta-feira (8), no Midway Mall, a partir das 18h.

Antônio Melo diz usar a ficção para expor a realidade de todos os dias: é minha visão do que vi no jornalismo e marketing político
Antônio Melo diz usar a ficção para expor a realidade de todos os dias: ''é minha visão do que vi no jornalismo e marketing político''

Em “A Vingança”, Antônio coloca sua bagagem de repórter que viveu o período áureo da reportagem brasileira à serviço da ficção, compondo uma história de política, paixão e pistolagem no sertão nordestino das oligarquias familiares. Segundo o autor, a obra tenta retratar, mesmo sendo uma ficção, a realidade de todos os dias, não só do Nordeste, mas de todo o território brasileiro.

“A história passa pelas agruras do Nordeste, principalmente pela política do Rio Grande do Norte, Ceará e Paraíba. Passa pela relação não muito ortodoxa dos empresários com a política, prostituição, pistolagem e religiosidade”, comenta Antônio em entrevista ao VIVER. Depois de longa jornada fora do Estado, ele está de volta à Natal já tem três anos. “O livro é um pouco da minha observação romanceada de tudo que vi no jornalismo e no marketing político”.

No centro da trama está Dinha, mulher que nasceu Geralda e que se transforma em Rosycleide ao longo das páginas. Em seu entornou, mais de uma dezena de personagens aparecem. Alguns inteiramente do campo da ficção, outros inspirados em figuras reais da sociedade potiguar – possivelmente identificados pelos leitores mais atentos, como o coronel Feitosa, inspirado no famoso coronel Bento, pai do delegado Maurílio Pinto.

“Dinha é alguém que nunca existiu, mas sua história é comum em muitos confins desse país”, diz  o autor, que destaca outros personagens fortes no livro, Zóio de Pitomba e Edu, dois pistoleiros filhos de Dinha, e Ferrão, que atuou na Guerrilha do Araguaia e aparece na trama com papel decisivo.

Livro A Vingança
“A Vingança”, romance que marca a estreia literária do jornalista e marqueteiro político Antônio Melo, 70

Dentre os nomes reais citados, estão Beth Cuscuz, que comandava um prostíbulo em Teresina no Piauí, e Maria Boa, a mais famosa cafetina de Natal, além dos amigos jornalistas do escritor, Vicente Serejo, Ricardo Rosado, Osair Vasconcelos e Djair Dantas (in memorian). Há também fatos notórios citados na obra, como o fatídico roubo de 94 milhões de cruzeiros destinados ao enfrentamento da seca no RN. “Pego esse fato real e levou para outro cenário”, conta Antônio.

Em “A Vingança” o leitor não verá longas descrições de cenários. A narrativa é conduzida à base de diálogos. “No livro sou muito fiel à forma de como as pessoas daquela região e época falavam. Como não aprofundo nas descrições, essa característica é importante para situar o leitor no ambiente em que se passa a história”, explica.

Experiente no trato conciso das palavras, Antônio diz que levou 11 meses para escrever o livro. “A ideia era escrever um conto de três laudas, no máximo. Acabou rendendo 324 páginas”, revela o autor. “O que me tomou mais tempo foi a pesquisa. Estudei sobre pistolagem, li teses sobre o Sindicato do Crime no Ceará. Também pesquisei sobre a biografia de Maria Boa e de outra figuras que aparecem na história”.

Para um próximo livro Antônio pensa em escrever uma trama que se passa nos bastidores da transição da Ditadura Militar para o Regime Democrático. “Ando lendo muito sobre João Figueiredo. Me interessa a luta nos intestinos da Ditadura às vésperas da abertura política”, diz o escritor. Experiência sobre o período não lhe falta. Quando era repórter do Jornal do Brasil, pediu transferência para cobrir a a reta final da Ditadura Militar em Brasília. Depois de tanto anos percorrendo os corredores da vida oficial da brasileira, bem podia vir também um livro de memórias. Mas o escritor potiguar descarta. Seu terreno agora é a ficção.

Serviço
Lançamento do livro “A Vingança”, de Antônio Melo

Dia 8 de março, às 18h

Espaço Fernando Chiriboga (Midway Mall, no piso G5)

Entrada gratuita
Colaborou: Cinthia Lopes
Editora

Trecho: Na toca das raposas
“Nas estradas aqueles homens meio esfarrapados, alguns com enxadas, outros com vassouras, parte conduzindo pedras calcárias com as mãos compunham o espetáculo das “frentes de trabalho”, obra com a qual o governo “combatia” os efeitos da seca no Nordeste, há séculos. E põe séculos nisso. Primeiro com o Instituto Federal de Obras Contra as Secas, depois com o Dnocs — Departamento Nacional de Obras contra as Secas. Como se a seca, um fenômeno climático, fosse algo a ser combatido com burocracia. Depois vieram Sudene, o Banco do Nordeste. Mas a estiagem continuava sendo combatida da mesma forma, com o mesmo tipo de “enfrentamento” politiqueiro, de roubalheira, de exploração. Era a velha indústria da seca resistindo, ficando cada vez mais forte...”


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