Fim de festa: carnaval para os jogadores será de treino e jogos decisivos

Publicação: 2018-02-11 00:00:00 | Comentários: 0
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Ícaro Carvalho
Repórter

As festas de ano novo passam e chega o carnaval, a época em que o Brasil todo volta as suas atenções para a maior festa de rua que acontece nas cinco regiões do país regada a muita cerveja, churrasco e mela-mela. Só que diversas classes de trabalhadores acabam tendo restrições quanto ao carnaval: são o caso dos médicos, garçons, jornalistas (por quê não?), taxistas, ambulantes, oficiais de segurança e tantas outras categorias. Entre as não citadas, uma em muitas ocasiões é pouco notada: o jogador de futebol.

Mudança de cultura no mundo do futebol tem afastado cada vez mais os jogadores de festas como o carnaval. Hoje, o calendário e a preparação física são impeditivos
Mudança de cultura no mundo do futebol tem afastado cada vez mais os jogadores de festas como o carnaval. Hoje, o calendário e a preparação física são impeditivos (Ilustração: Rodrigo Brum)

É mais do que cultural no país do futebol que jogos dos campeonatos estaduais/regionais aconteçam no sábado de carnaval, devido ao calendário quase sempre atrapalhado, contratos televisivos e o ritmo das competições. 

No Rio Grande do Norte não vai ser diferente. Com o Campeonato Potiguar em plena ebulição, faltando duas rodadas para o fim do primeiro turno e com pelo menos três clubes no páreo pelo caneco, todos os clubes do RN ativos neste momento farão pelo menos um jogo no período da folia.
Dos clubes potiguares, o ABC é o caso mais complicado. Além de ter jogado neste sábado contra o Vitória pela Copa do Nordeste, a equipe ainda encara o Força e Luz na quarta-feira de cinzas, num jogo que pode definir o rumo da equipe no campeonato estadual.

O fisiologista do alvinegro, Marcelo Henrique, há 15 anos trabalhando no Maria Lamas Farache, conta que lidar com a situação do carnaval não muda em nada o planejamento de treinos da equipe, que não pode se dar ao luxo de liberar os seus jogadores para a folia ante jogos tão decisivos.

“Para gente não modifica nada com essas situações em função do calendário. O calendário nos dá dois jogos e acontece dentro e do intervalo desse carnaval. A gente segue uma rotina normal de treinamento como se não existisse esse evento. Segue uma rotina normal de treino, para atender os dois jogos e não para atender o carnaval. No sábado a gente joga à tarde e esse pessoal que jogou, na segunda-feira já treina. Eles teriam teoricamente um dia de descanso”, comenta.

O médico do ABC, Roberto Vital, conta que os jogadores de futebol são “profissionais diferenciados” e que isso os impede de curtir a folia como os demais brasileiros, uma vez que tem jogos no calendário e o cuidado com o corpo é crucial para o desempenho dentro de campo.

“Álcool e atleta profissional não combinam. Se você está numa folga, um churrasco, uma brincadeira, uma vez perdida, tudo bem, porque a performance do atleta cai se ele beber demais, a bebida desidrata, o pessoal não se alimenta direito. E aí extrapolar, vai pular muito, você tem um desgaste, mas nos outros dias vai recuperar as energias, mas o atleta profissional, a profissão dele, o ganha pão dele, está nas pernas dele, no físico dele. Se ele não se cuidar, como ele vai render? É o campo e o extra-campo”, conclui.

Marcelo Henrique conta ainda que a profissão de jogador de futebol é um ofício atípico, com as cobranças da massa que grita os seus nomes nas arquibancadas e a pressão por resultados por parte da diretoria. Isso por si só ,  “O atleta de futebol sabe que eles são pessoas que têm uma rotina um pouco diferente das pessoas que não são atletas, para que eles possam responder da mesma forma a nível de treino e nível de jogo e ter uma longevidade em relação a sua profissão”.

Histórias e estórias
A figura do jogador de futebol quase sempre ganhou contornos folclóricos e histórias que povoam e aumentam a idolatria dos torcedores pelos grandes craques dos clubes. E mesmo que em determinadas situações alguns jogadores adquiram o status de apoteose, não se pode esquecer de que eles são pessoas e sujeitos com desejos, sentimentos e vontades.

Longevo no futebol potiguar há pelo menos 46 anos, o médico do América Futebol Clube, Matterlink Rêgo, conta que já vivenciou várias histórias no período de folia com os jogadores americanos. A que ele mais se recorda é a do ex-atacante Pedrada, em 1975. O médico saiu de casa acompanhado de sua esposa, e ao passar pelo antigo clube ASSEM, encontrou o jogador completamente embriagado em cima do seu carro e lhe tomou o relógio.

No retorno das atividades, na quarta-feira de cinzas, Pedrada disse que o carnaval havia sido tranquilo. Matterlink questionou: “e o relógio?” - “Eu estive nuns blocos, alguém deve ter pego” - “E o que você vai fazer?” - “Vou comprar outro” - “Pois compre esse aqui”, disse o médico tirando o relógio do bolso e pegando o jogador de calça curta.

Para Matterlink Rêgo, hoje o jogador de futebol está de certa forma mais consciente dos perigos  de não se cuidar nos momentos de folga e descontração, visto que a vigilância e a cobrança da torcida estão cada vez maiores com as redes sociais. Ele conta que essa consciência se alia ao fato de que a incidência de jogadores evangélicos é bem maior do que antigamente.

“A gente orienta muito eles [os jogadores], para não se exceder, ter cuidado, até porque teremos jogo decisivo contra o Globo [pela [última rodada do primeiro turno do campeonato estadual].

Mas como segurar o ímpeto e a vontade dos jogadores, cada vez mais seduzidos pela fama e caindo nas graças da torcida? Uma atitude nos início dos anos 2000 tomava conta dos carnavais em alguns clubes do futebol potiguar. Isso porque o preparador físico e técnico de futebol, Pedrinho Albuquerque, ficou conhecido no Rio Grande do Norte por implantar o “Jogo das Virgens”, no qual jogadores e comissão técnica trocavam as chuteiras, camisas e calções por sapatos, vestidos e roupas femininas. 

“O nosso intuito maior era motivar a galera, O momento que a gente estava vivenciando não tinha esse negócio de carnaval. Aqui é trabalho. Então tinha de arranjar uma maneira de fazer essa motivação”, conta. 

Um caso bem lembrado pelo próprio Pedrinho foi em 2013, quando assumiu o comando do Alecrim, que lutava contra o rebaixamento, e instaurou o “Jogo das Periquitas”, o que segundo ele, ajudou a criar um ambiente mais agradável e com o trabalho feito por ele e comissão técnica, conseguiram livrar a queda.

“É uma maneira total de descontração. Muitas vezes o cara trabalha com o colega, mas não tem proximidade, aquela afinidade. E quando você coloca num momento como esse de descontração, a grande maioria começa a acontecer essa aproximação, o objetivo maior é também isso. Isso é de vital importância. Naquela época do Alecrim, nós conseguimosvencer  com o trabalho e através da descontração”, relembra.

O médico do ABC, Roberto Vital, relembra com carinho as situações propostas pelo próprio Albuquerque no clube da Rota do Sol e diz que aquilo ali, de certa forma, quebrava um pouco o gelo entre os jogadores e tirava o peso dos treinamentos no carnaval. Sobre alguma história do quilate da de Matterlink Rêgo, Vital diz não lembrar de nenhuma “causo” nesse sentido. “De lembrar de voltar e jogar no carnaval especificamente não. Eu conheço situações de atletas que fugiram da concentração, no sábado a gente concentrado, veio no domingo os caras trouxeram ele na mala, deram banho em “tudinho” e o cara foi o melhor em campo. Não é uma realidade absoluta”, conta sem “dar nome aos bois”.

Em meio ao carnaval e uma folia que não perde a tradição a cada ano que passa, os jogadores de futebol do Rio Grande do Norte terão encarar a festa com a chuteira nos pés e guardando as energias para os jogos decisivos do campeonato estadual.

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