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Cena Urbana - Vicente Serejo
Fisiologia do acólito
Publicado: 00:01:00 - 23/06/2022 Atualizado: 23:55:08 - 22/06/2022
Vicente Serejo
serejo@terra.com.br

Divulgação


Nos tempos velhos, hoje tão mortos, era comum que os vigários das pequenas paróquias contassem com a ajuda de um sacristão. Nas mais humildes capelas, diga-se, era a boa alma de um devoto, e isto bastava. Ajudava o padre na celebração da missa e no zelo da igreja. Nas freguesias maiores, um sacristão e uma carola. Com os anos, a Santa Madre formou os Ministros da Eucaristia, bem preparados na sempre nobre e elevada função de semear a palavra de Cristo. 

O tempo rói e corrói, como se sabe, o sentido antigo das palavras e das coisas, e chega a fecundá-las de novos sentidos. Hoje, a menos que se queira esconder o sol com a mitra, parece que o acólito, na retórica política, ganhou uma nova tintura e agora pejorativa. Ainda pior, com o jeito de puxa-saco ou xeleléu, para repetir a expressão da oralidade do falar nordestino. Aliás, alguns vocabulários chegam a admitir ser a expressão um regionalismo do Rio Grande do Norte.  

Instigado por olhos mais perscrutadores do que a percepção do cronista, um velho e bom observador da cena urbana passou um e-mail sugerindo que agora o acólito deixou as sacristias e passou a viver nas instituições culturais. Instituições que viraram igrejinhas bem nutridas pela força de seus mandatários eternos. Nada enriquecem. No mais das vezes, empobrecem a vida intelectual com sua falsa cultura mantida sob o pálio do poder mesmo em cargos de confiança, 

O pecado do informante, e em que pese seu bom humor, foi não descrevê-lo para uma classificação mais nítida do fenótipo. Cobrei. Será verdade que o novo acólito tem uma genética própria, dotado de especificidades para a arte dos maneirismos? Sinceramente, não sei. Mas, há de se admitir que a partir do sentido pejorativo que a linguagem política adota, o novo acólito é um ser sem rigidez no tronco cerebral e constituído, muito mansamente, de tecidos moles.

É como se o xeleléu, caído em desuso diante da função formalmente engrandecida dos Ministros da Eucaristia, tenha mantido a vocação do agrado.  Encontraram um lugar entre os próceres que não se prestam ao serviço do puxa-saquismo. Assessoram, controlando as bases e os seus donatários, afinal, na geografia política, ainda vivemos um regime de capitanias que se não são mais tão descaradamente hereditárias, ainda há na sua fisiologia um pouco desse vício. 

O poder, rico como é o reino da política, ou pobre e generoso com a glória, como só a intelectualidade sabe ser, é o habitat natural. São criadouros gordos da ração do elogio que acabam como o meio ideal para as colônias. Neles floresce, sob o perfume da falsa cultura, o tráfico de influência. Daí as medalhas, os berloques e aplausos que sacodem o damasco grená de suas tão lustrosas cortinas. Só às vezes a falsa glória pede desculpas. E foge, envergonhada.  

NÃO - Anotem: Dom Edilson Nobre veio celebrar a missa do seu pai e, convidado, pregou na igreja de São Pedro. Segundo uma cabeça coroada tem poucas chances de suceder a Dom Jaime.

RAIZ - Dom Edilson Nobre é o candidato de Dom Jaime, mas, se depender das mitras locais, Dom Pepeu, hoje vigário geral do Recife e ex-bispo de Feira de Santana, será o novo arcebispo. 

LIÇÃO - Para quem tentou atrapalhar o Mossoró Junino: até agora a cidade já foi visitada por 615 mil pessoas. O que instituição pública nenhuma conseguiria proporcionar à sua economia. 

TROCO - De um Verde, contra o apoio ao ex-prefeito Carlos Eduardo Alves, sempre distante da classe política quando está poder: “Alguma vez esse senhor dialogou com a classe política?”.

PREÇO - Por falar em Carlos Eduardo, é caro o preço por ter confessado arrependimento pelo apoio a Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. O eleitor flagrou o seu puxa-encolhe ideológico. 

ALIÁS - A retórica doméstica do ex-prefeito vem sendo considerada desastrosa, depois de um novo pronunciamento lançado em Fortaleza. Um pedetista cearense saiu da reunião alarmado.

ROCK - Nas bancas, a edição especial de ‘Rock’, dedicada aos quarenta anos do rock no Brasil. Com a seleção dos oitenta discos mais representativos dessas quatro décadas de festa e pauleira.  

TESE - De Nino, filósofo melancólico do Beco da Lama, sentindo o cheiro de pólvora no bafo do falso atirador a elogiar-se: “Só merece elogio por criticar quem não tem medo de elogiar”.  

RISOS - A governadora Fátima Bezerra e o presidente do PC do B, Antenor Roberto, cobrem com risos o veto do partido, pelo PT, como se não fosse um fato grave. Pode não ser. Se o amor próprio dos comunistas sofrer da fraqueza que abate a firmeza da carne e a têmpera do espírito.

DATA - A editora Ateliê festejou o Bloomsday, com o lançamento da mais bela e definitiva edição do ‘Finnegans Wake’, de James Joyce, numa tradução Donald Shüler. Aqui, nesta aldeia de Felipe Camarão, quem conhece James Joyce é o escritor Francisco Ivan. O resto vem depois.  

TOLICE - O presidente Jair Bolsonaro, do alto de sua teologia de carregação, disse que Jesus Cristo não comprou uma pistola por não existir à venda no seu tempo. Como se para Cristo a palavra não bastasse. Tanto pior: fosse tão inconfiável quanto a dele e a das criaturas humanas.  

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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