Flagrantes do delírio das ruas

Publicação: 2018-05-29 00:00:00
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Ramon Ribeiro
Repórter

Uma camareira amante dos livros, o movimento da esquina, diálogos entre figuras triviais, os pequenos acontecimentos que escapam aos olhos de quem vive imerso na rotina, não escapam da observação perspicaz da escritora Cellina Muniz. Seus flagrantes do cotidiano costumam ganhar vida em páginas literárias, como é o caso das obras “O Livro de Contos de Alice N.” (Sebo Vermelho, 2012) e “Uns Contos Ordinários” (Ed!Bar, 2014). Agora Cellina fecha a trilogia com “Contos do Mundo Delirante” (O Potiguar/Ed!Bar, 2014). O lançamento acontece nesta terça-feira (29), a partir das 18h, no Bardallos Comida e Arte (Cidade Alta). O evento será em clima festivo e vai contar com discotecagem do DJ Russo, leitura dramática dos poetas Thiago Medeiros e Marina Rabelo, além de sorteio de camisas.

Créditos: Arquivo TNCasos que ninguém vê, como o da camareira leitora, não escapam aos olhos da autora Cellina Muniz, que já escreveu na mesma linha “O Livro de Contos de Alice N.” e “Uns Contos Ordinários”Casos que ninguém vê, como o da camareira leitora, não escapam aos olhos da autora Cellina Muniz, que já escreveu na mesma linha “O Livro de Contos de Alice N.” e “Uns Contos Ordinários”

      Casos que ninguém vê, como o da camareira leitora, não escapam aos olhos da autora Cellina Muniz, que já escreveu na mesma linha “O Livro de Contos de Alice N.” e “Uns Contos Ordinários”

O livro celebra sete anos da autora em Natal – ela nasceu em Fortaleza. Foi nas ruas da capital potiguar que ela encontrou grande parte da inspiração para seus contos. Em alguns momentos o ambiente local aparece em seus textos de forma direta, em outras, nas entrelinhas ou por meio da citação de autores, como Juvenal Antunes.

Mas autores nacionais também aparecem em tom de brincadeira, marcando logo na orelha do livro a linha delirante da obra. Ao invés  de contar com um texto de apresentação de algum escritor amigo, Cellina preferiu brincar com nomes clássicos. Clarice Lispector e Lima Barreto colaboraram com depoimentos bem elogiosos ao seu trabalho. “Se é pra alguém me bajular na orelha, que seja escritor que todos conhecem, os queridinhos do público. Mas é um delírio, claro”, diverte-se a autora. “A Clarice e o Lima são grandes referências minhas. Amo de paixão, tanto pela escrita quanto pela história de vida”.

“Contos do Mundo Delirante” reúne 11 contos, todos inéditos, circunscritos no ambiente urbano, escritos numa linguagem dinâmica e, em certos casos, divertida. Os temas são variados, assim como os personagens. “Gosto de falar de gente excluída, dramas que ninguém fica sabendo, como o das pessoas acumuladoras. Também me refiro a atividades diferentes, como prever o futuro”, diz Cellina.

A autora é figura fácil nos arredores do Beco da Lama. Está sempre pela área conversando, prestigiando os eventos literários e colhendo histórias. “Sem dúvida a rua é uma das minhas principais fontes de narrativas. Viver a vida, olhar o mundo, reter um instante e tê-lo como material que pode vir a render uma outra coisa, tudo isso é importante na literatura”, comenta, sem deixar de ressaltar a importância da imaginação e das pitadas de abstrato, o que explica os delírios de sua obra. “Gosto de escrever sobre o lado surreal por trás do banal. As pessoas estão tão mergulhadas no dia-a-dia que não percebem o abstrato do cotidiano”.

Professora do Departamento de Letras da UFRN, onde, além das aulas, desenvolve pesquisas sobre o humor na imprensa potiguar, Cellina também revela um lado cômico em seus contos, que pode ser visto na narrativa “Catrevagens e Cotovias”, que encerra o livro novo. No conto, o personagem parte para a azaração em aplicativos de paquera, mas as situações que ele se mete não são das melhores. “Neste livro novo me permitir debruçar mais sobre o humor. É um tema que pesquiso tanto que acabou indo parar nos contos”.

Maledicência na esquina
No mês de agosto Cellina vai completar oito anos de residência em Natal. Para ela, a cidade tanto lhe fascina como lhe decepciona. E não lhe é difícil aponta os aspectos que chamam sua atenção nesse sentido. “De negativo, umas das coisas que notei aqui é a maledicência. É bem aquela história de Câmara Cascudo, de se pagar 200 para que a outra pessoa não ganhe 20”, argumenta. “Mas em contraponto, na classe artística, percebo um esforço de colaboração. As pessoas estão se ajudando para que as coisas aconteçam, independente da falta de políticas públicas na área da cultura”.

Apesar dos problemas, Cellina segue por ai, gastando sola, atravessando a maledicência alheia e contando com o apoio dos amigos para fazer a literatura ganhar cada vez mais as ruas deste mundo delirante.

Serviços
Lançamento do livro “Contos do Mundo Delirante”, de Cellina Muniz

Dia 29 de maio, às 18h. Bardallos Comida e Arte (rua Gonçalves Ledo, 678, Cidade Alta). Preço do livro: R$ 30.



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