Fogo atinge últimos redutos de onças

Publicação: 2020-09-16 00:00:00
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Vinícius Valfré, 
enviado especial

Tarde de mormaço no Pantanal de Mato Grosso. Pelo Rio São Lourenço, corre a informação, de barco em barco, que uma onça-pintada está cercada pelo fogo na margem de um afluente do curso, a montante. Num cais da localidade de Porto Jofre, em Poconé, a 290 quilômetros de Cuiabá, o "piloteiro" Vandir Garcia, o Cabelo, diz à equipe do Estadão que pode chegar com sua voadeira até o animal em 45 minutos.

Créditos: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDOGrupo de salvamento resgata onça debilitada, que foi vítima dos incêndios no PantanalGrupo de salvamento resgata onça debilitada, que foi vítima dos incêndios no Pantanal

É a maior série de queimadas na região nas últimas duas décadas, informa o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). As labaredas engoliram 2 milhões de hectares, uma área equivalente a dez vezes os territórios dos municípios de São Paulo e Rio juntos, destaca o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Na viagem para localizar a onça, o "piloteiro" demonstra incômodo também com o nível do mormaço. O horizonte no estirão do rio ganha um tom avermelhado e o calor torna-se mais intenso. Focos de incêndio surgem de um lado e de outro. Uma densa fumaça encobre o céu. A fuligem está em toda parte. A visibilidade é limitada. 

Antes de sair do cais na voadeira pilotada por Cabelo, na sexta-feira, o Estadão certificou-se que uma rede formada por moradores, voluntários, biólogos de uma ONG de defesa de animais e donos de pousadas seria informada da localização da onça assim que terminasse uma outra missão de resgate no local. Após alguns minutos de viagem, o barco entra no Rio Corixo Negro, que deságua no São Lourenço, área de presença constante de jacarés e sucuris. O braço é mais raso e um descuido pode prender a embarcação na galharia do leito.
Foram apenas 35 minutos para a equipe avistar a onça estirada num trecho da margem esquerda. É um macho jovem. Tem aproximadamente 2 anos e pesa cerca de 100 quilos, estima Cabelo Um ribeirinho que passou por ali jogou uma piranha para a onça, que não teve forças para se alimentar.

Da voadeira, a reportagem registra o momento em que o animal se levanta, caminha e logo depois interrompe o deslocamento. As patas estão feridas, em carne viva. Lambidas na parte de baixo das patas removem a pele queimada em uma tentativa de amenizar o sofrimento. Possivelmente a onça fez um grande esforço para chegar à beira do rio, área onde poderia se salvar. Antas, capivaras, cobras, veados e aves morrem por asfixia ou queimaduras.

A operação para retirar uma onça-pintada de seu hábitat, mesmo quando debilitada, é complexa e perigosa. O grupo de salvamento é liderado por Eduarda Fernandes Amaral, de 20 anos apenas, natural de Cuiabá.  

Os veterinários logo percebem que o caso da onça do Corixo Negro é crítico. Assustada, magra e sem forças, tem dificuldades para manter-se de pé. O barco do grupo de salvamento e a voadeira do guia são manobrados para forçá-la a se deslocar para um local específico da beira do rio. Dali, um médico veterinário tentaria se desvencilhar dos galhos e acertar uma zarabatana com sedativo.

O animal resiste e se abriga sob raízes em um barranco. As manobras prosseguem ao longo de uma hora. Finalmente, o veterinário Jorge Salomão, de 36 anos, da ONG Ampara Animal, dispara a zarabatana para atingir a corrente sanguínea da onça. Em dez minutos, o felino "dorme", de olhos abertos. A partir daí, começa outra corrida contra o tempo para suspendê-lo e colocá-lo numa jaula, onde serão feitos os primeiros socorros.

Uma base instalada em uma pousada à margem da Transpantaneira, estrada que passa pela região, recebe o animal provisoriamente. É preciso providenciar helicóptero ou caminhão para levar o bicho para tratamento. O último boletim veterinário informava que ela resiste.