Folclore eclesiástico do RN

Publicação: 2019-08-13 00:00:00 | Comentários: 0
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Valério Mesquita
Escritor

Estes causos me foram contados pelo acadêmico padre João Medeiros Filho. Além do seu gosto pela teologia, literatura, história, legislação do ensino e Sagrada Escritura, nosso confrade e amigo é um “blagueur” clássico, herança de seu pai. Estudou nos seminários de Caicó, Mossoró e Natal. Disso resulta um grande conhecimento da vida clerical de nosso Rio Grande do Norte.

01) Padre Vicente de Paula Vasconcelos foi pároco de Lajes. Homem dedicado ao pastoreio e à educação. Além da paróquia de Lajes, foi responsável pela freguesia de São Rafael. Adversário intransigente da futura Barragem Armando Ribeiro que iria cobrir sua paróquia, vendo a derrubada da igreja matriz rafaelense, começou a entrar em depressão e tomar algumas doses mais generosas de Cinzano. Isso chegou aos ouvidos de dom Nivaldo. Este com seu amor de pai foi ouvir seu colega. Chegando à casa paroquial, padre Vicente estava sonolento e com voz arrastada. O arcebispo viu uma caixa de cinzano e perguntou ao padre: “Vicente de quem são estas garrafas”? O espírito etílico inspirou o velho sacerdote: “Dom Nivaldo, essa bebida é do sacristão”. Este, por trás da porta, também parceiro do vigário, apressou-se em levar a caixa para a sua casa, enquanto o bispo e o padre almoçavam. Quando, dom Nivaldo partiu, padre Vicente disse ao sacristão: “Cadê meu cinzano”. Seu acólito de anos, respondeu incontinenti: “E padre mente a bispo? A bebida é minha”!

02) Padre Bianor Emílio Aranha, grande orador sacro, sacerdote erudito, homem de boa prosa e grandes amizades, era amante de um carteado. Deixou esse costume a alguns de seus sobrinhos. Foi vigário de Caicó e Jucurutu. Por vezes, quando a sorte não lhe visitava no jogo, mandava chamar o sacristão, de nome Chico Justinho. Ordenava-lhe: “Vá ao cofre das almas, veja quanto tem e me traga como empréstimo”. Este era ressarcido com celebração de missas. Certa feita, o sacristão estava com apuros de dívidas. Procedeu como nos apertos do vigário. Certo dia, o sacerdote ordenou-lhe o de sempre. O sacristão respondeu: “Padre Bianor, lá não tem mais nada. Rapei tudo”. “E como você paga às almas”? “Cada um paga como pode. O senhor celebra missa. Por cada tostão eu toco uma badalada no sino”. O termo entrou no vocabulário jucurutuense do século passado. Badalada era sinal de velhaquice.

03) Cônego Deoclides de Brito Diniz, foi pároco de Acari, Cerro Corá, Serra Negra do Norte e Jucurutu. No auge da implantação das escolas radiofônicas e do sindicalismo rural, liderada pelo nosso cardeal Eugênio Sales, padre Deó, como era conhecido, no seu zelo pastoral e amor incondicional à Igreja, tratou de explicar a seus paroquianos jucurutuenses, num domingo de feira, as novas ideias pastorais. No vai-e-vem de pessoas, alguém gritou do meio do povo: “Esse padre é comunista”!O autor da frase era um pacato e pequeno fazendeiro, exemplar pai de família e esposo. O argumento contundente do vigário Deó para continuar a propagar a doutrina social da Igreja foi certeiro: “Chamar um sacerdote de Deus de comunista é o mesmo que chamar um homem bem casado, como o senhor, de corno velho manso”!

04) Padre Luiz Gonzaga Ferreira da Cunha Mota, prefeito e vigário de Mossoró, marcou as famílias, sendo consultado nas angústias. Sua calçada era muito bem frequentada nas horas vespertinas. Certa feita, uma senhora de destaque mossoroense foi ter como ele para um aconselhamento e orientação. O problema da mãe de família aflita era o fato de sua filha recém-casada não engravidar. Disse ao velho sacerdote: “Padre Mota, minha filha já fez um bocado de promessas, já rezou a Santa Luzia, Santo Antônio, São Manuel, já fez novenas de tudo o que é jeito e não engravida”. O velho sacerdote alcaide respondeu, coçando sua barriga: “Filha, para ela engravidar basta um padre nosso. Procure fulano”.

05) Cônego José Celestino Galvão era um sacerdote zeloso, alma pura, educador de escol, pioneiro na radiofonia caicoense. No entanto, era muito “agoniado”, como se diz no Seridó. Certa feita, numa primeira sexta-feira do mês, fila enorme de penitentes. O sacerdote já estava cansado de ouvir tantos pecados. Eis quando, uma jovem pergunta-lhe: “Padre, é pecado dormir com o namorado”? O confessor não muito atento à pergunta, responde: “não”. A penitente ficou mais tranquila e continuou sua confissão. No final desta para ter certeza de sua conduta, desfere a última pergunta: “Padre, quero saber mesmo se é pecado dormir com o namorado”. O confessor emite a sentença: “Minha filha, saiba que pecado se comete acordado(a). Ninguém peca, dormindo”.

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