Letícia Letrux fala sobre sensibilidades, leveza e humor de Aos Prantos

Publicação: 2020-03-26 00:00:00
Isaac Lira
Especial para o VIVER

Letícia Novaes tem 38 anos e chora muito. Não apenas por tristeza. Também de alegria, de medo, de gozo, de espanto. Todos os tons do choro estão poeticamente registrados em “Letrux Aos Prantos”, segundo álbum solo lançado pela cantora, compositora, poeta e atriz carioca. Letrux é uma das atrações já confirmadas na edição 2020 do Festival Mada.

Créditos: Ana AlexandrinoLetrux aborda amor e dor em todas as formas, com nuances de delicadeza e humor: “A sensibilidade não é algo frágil. Nunca conheci nenhuma pessoa muito forte que não fosse frágil e essa é a grande beleza.”Letrux aborda amor e dor em todas as formas, com nuances de delicadeza e humor: “A sensibilidade não é algo frágil. Nunca conheci nenhuma pessoa muito forte que não fosse frágil e essa é a grande beleza.”


Sucessor do “Letrux em Noite de Climão”, aclamado pela crítica e com audições nos serviços de streaming que ultrapassam a casa dos milhões, “Aos Prantos” é um disco denso, intenso. Desavisados poderiam concluir, pelo título, que se trata de um trabalho monotemático e dedicado à fossa. Mas há canções divertidas, dançantes, com ecos de dance music, balada etc.

As letras passam pelos pequenos e inesquecíveis detalhes de um amor (“achei tudo tão caro, mas comprei um chocolatinho para você”), as turbulências de um país em convulsão desde antes do coronavírus (“acordei bem mas o país não colabora e nem você”), desencontros amorosos (“ao passo que o mundo é podre e você escolheu sumir”) e a força da coincidências (“eu queria estar lá na hora em que a Shakira disse que nasceu dia 2 de fevereiro e o marido disse: "eu também!"”).

Nesta entrevista, Letícia fala sobre o novo álbum, sensibilidades, misticismos, psicanálise, redes sociais e os percalços da próxima turnê, cujo início foi adiado por conta da pandemia do novo coronavírus. Confira a entrevista ao VIVER:

O "Aos Prantos" tem referência a choro em quase todas as músicas (acho que apenas "Contanto até que" não tem) enquanto que no "Climão" a única música que fala em chorar é "5 years old", coincidentemente (?) a última do disco. Quem escuta os dois em seguida, pode até imaginar que "5 year old" é a introdução do "Aos Prantos" e o "Aos Prantos" a ressaca do "Climão". Como você vê as continuidades e as diferenças entre os dois?  

Como artista criadora, sempre penso no futuro, sou grata ao Climão, foi um trabalho muito importante, mas não pensei nele ao criar o novo disco. Meio que deixei ele de lado, importante até. Naturalmente, fui deixando minha intuição fluir. E os últimos anos foram duros, difíceis. Com muitas conquistas mas cenários complicados. Então fui criando o "Aos Prantos" com essa realidade e deu no que deu.


Você tem enfatizado, ao falar do Aos Prantos, que esse é um disco de alguém que entre o deboche, e o cinismo, e ser sensível, escolheu ser sensível ("me abalo, me abalo muito e não entendo quem mente que nem sente"). Você percebe, de forma geral, uma opção por um tipo de deboche, que é cínico, que tenta impedir de sentir? Como aguentar ser sensível, sem fugir para o cinismo, em tempos tão duros?

Acho muito possível ser sensível e ser engraçada, eu aguento os tempos com muita graça, não sou melancólica, nem nada. Sou até mais dada ao copo meio cheio do que vazio. Mas não sou superficial, sou intensa, profunda, gosto das investigações anímicas. Percebi muitas pessoas num estado autoajuda debochado que me intriga um pouco. Que educação tiveram? Que futuro pretendem ter? Temo. A sensibilidade não é algo frágil, pelo contrário, nunca conheci nenhuma pessoa muito forte que não fosse frágil e essa é a grande beleza.

Você tem dito em entrevistas que uma das mudanças entre a Letícia do Climão e a Letícia do Aos Prantos é a volta para a análise. Na letra de "Fora da Foda", tem o verso "Sonhei com as pessoas, levei para a análise". Conte qual a sua relação com a psicanálise, há quanto tempo faz, como chegou até lá, etc.

Estou no terceiro processo. Tive o primeiro com 17 anos, quando minha prima morreu inesperadamente de meningite, depois tive um segundo processo muito importante, aos 28. E agora com 38 resolvi voltar. É a primeira vez que faço com um homem, tem sido fértil, curioso, dolorido. Não acho que análise cura, nem nada. Mas existe um lugar para se investigar os motivos do ser, das ações, das neuras, enfim. E tendo esse lugar, fica mais possível, talvez, aprimorar-se. Estou longe de um ideal de perfeição, ao contrário do que algumas pessoas dizem em shows, mídias sociais. Não gosto muito de "fada sem defeitos, perfeita" mas entendo o carinho e respeito. Mas é bom se analisar, a vida é muito estranha e misteriosa pra gente só viver, sem se questionar.

Percebo que há um tema que se repete em algumas músicas, e que atravessa os dois discos, que são os desencontros que acompanham os encontros. Em "Ninguém perguntou por você", é como se a idealização impedisse de ver o outro (tanto que você pergunta no Ao Vivo "quem está aí?"). Em "Cuidado Paixão", um diz "tchau" e o outro escuta "te amo". Em "Dorme com essa", a persona que fala delirou, achou que viu o outro, mas não era. Qual a importância desse tema para você?  

Ah, sou muito afetada por encontros e desencontros, meus ou os casos que ouço, leio. Fico fascinada com gente romântica, acho impressionante. Eu também sou dada ao romantismo. Minhas amigas e eu temos uma teoria que sempre que se apaixona por alguém, uma das pessoas vai ter uma viagem importante pra fazer. Passar meses fora, é surreal como já contabilizei isso. E comigo também! Curioso. E a partir dessa viagem se constrói uma narrativa do "ou vai ou racha". Levo esse meu maravilhamento para as músicas também.

Na sua última live no Instagram você falou que ainda estava definindo quais músicas do "Climão" vão entrar na turnê do "Aos Prantos", mas que com certeza "Que Estrago" e "Flerte Revival" devem entrar. Já definiu alguma outra? E, ao contrário, já sabe quais do "Climão" não entram com certeza? Como vocês decidem, olham mais o tema da música ou a sonoridade?


Acho que não cabe mais tocar "5 Years Old", por exemplo, sinto que ela cumpriu sua história, por agora. Por mais que ela pareça ser um início de Aos Prantos, como você disse, ela já fez seu giro, sabe? A definição é intuitiva. Pode ser que em algum show eu olhe pra banda e fale "Ih gente, me deu uma vontade de lembrar de Além de Cavalos". Vamos ver com os ensaios.

No seu último show em Natal, no Por do Som, rolou um cover de Madonna, "Human Nature". Vai ter cover na turnê do Aos Prantos - no show que veremos no festival MADA, em outubro?

Talvez haja uma releitura sim, me divirto fazendo isso. Mas ainda não definimos, tudo está em suspensão por agora...

Há poucas semanas uma dessas ondas de rede social lhe pegou e você foi "cancelada", quando disse que ouvia Bach quando criança. Você saiu do twitter de vez? As redes estão tóxicas e lhe deixam aos prantos?


Saí do twitter porque percebi que nenhum amigo ou amiga tem twitter. Sério. Minha rede de afetos não está ali. Então eu entrava, via uma timeline de alguns artistas que sigo mas não sou próxima, e não batia interesse, sabe? Paralelo a isso, é um lugar onde o ódio é diário, pessoas protegidas com apelidos estranhos e fotos de gato ou cachorro destilam ódio de maneira muito violenta. Acho que só dou conta de uma rede social mesmo, o Instagram, melhora meu tempo, minha vibração.

Reiki, passe, cartas, astrologia. Você ficou mais mística com o tempo. Que misticismos fazem a sua cabeça hoje e como você se cura?

Sou uma pessoa curada pela Cura magnificada, que envolve a cura do carma. Recomendo com força. Sou reikiana também. Umbandista. E gosto de ler o tarô mitológico. Estou sempre aberta à cura, julgo importante.

Em "Aos Prantos" há duas participações especiais, com Lovefoxx (ex-Cansei) e Liniker. Como surgiram essas parcerias?


Lovefoxxx foi amor à primeira vista quando nos conhecemos ao vivo, na volta delas no Popload. CSS mudou minha vida, e como quem não quer nada, perguntei se ela topava, e ela topou, pra minha alegria e charme da música. Liniker é uma força da natureza que pude chegar mais perto com o projeto Acorda Amor. Quando fizemos o blues, pensei nela na hora, ela arrasou, ficou um primor.

O que você tem ouvido ultimamente e que possa ter influenciado este trabalho?

Lhasa de Sela e Michelle Gurevich

A turnê de Aos Prantos foi adiada por conta do avanço do Coronavírus. Vocês marcaram um mês de retorno? Pretende fazer algo em plataforma virtual enquanto não retorna aos palcos?


Não sabemos ainda, está tudo muito no início, ninguém sabe exatamente quando é possível voltar, infelizmente. Farei algo em breve mas não um show, pois não é possível, nós não ensaiamos e estamos cada um em sua casa. Talvez eu leia poemas em alguma live. Vamos ver. Ainda estou em suspensão.

(Colaborou com a entrevista: Cinthia Lopes, editora)