Fotos revelam cotidiano de militares

Publicação: 2010-08-15 00:00:00 | Comentários: 1
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Frederico e Maranhão manuseam álbum de fotografias do radiotécnico Sternberg,  que serviu nas forças aéreas americanas em Natal
Isaac Lira -
Repórter

Um álbum de fotos amareladas, relegado por anos ao esquecimento, traz informações novas sobre a passagem de militares norte-americanos pelo Rio Grande do Norte durante a Segunda Guerra Mundial. A Fundação Rampa conseguiu a partir de um antiquário dos Estados Unidos fotografias do álbum pessoal de um radiotécnico, chamado Sternberg, que serviu nas forças aéreas da Marinha dos Estados Unidos em Natal, de 1942 a 1944. Com as fotografias só agora conhecidas do público potiguar, é possível ter uma ideia mais clara do cotidiano desses soldados durante a “estadia” na capital potiguar.

O acervo, incorporado às já conhecidas fotografias coletadas e guardadas pela Fundação Rampa, ficará, em breve, disponível no site “www.fundacaorampa.com.br”. São cerca de 70 fotografias que compõem uma história extraoficial da passagem dos soldados por Natal. Enquanto as fotos já divulgadas têm a figura do fotógrafo oficial como definidor da imagem, os registros de Sternberg são típicos de um jovem entre 17 e 19 anos empolgado com a vida longe de casa, em um “país exótico”. A predileção do soldado fixa-se nos animais exóticos e amantes conquistadas à força do prestígio em terras potiguares. Brincadeiras e momentos de descontração entre os representantes da tropa também estão no acervo.

O historiador Frederico Nicolau, responsável pela parte de pesquisas da Fundação Rampa, destaca a documentação de evidências ainda não disponíveis em imagens, como a presença de aviões britânicos em território potiguar e a utilização de um hangar francês como pista de pouso para as aeronaves norte-americanas. Como se sabe, Parnamirim se tornou o “trampolim da vitória”, a maior e mais importante base militar norte-americana fora dos Estados Unidos à época. Ao chegar em Natal, os militares encontraram uma região com pouco mais de 40 mil pessoas. Somente o contingente de militares era de seis mil pessoas.

Isso significa um impacto significativo na vida da cidade. A base área em Parnamirim ainda não existia e foi construída pelos norte-americanos em apenas três anos, tal o volume de investimentos que aportou na região. O dólar, muito mais valorizado que o cruzeiro, dava grande poder de compra aos gringos. Até o término da base áerea, os norte-americanos utilizaram as instalações da Air France, que dividia as atenções, enquanto local de pouso, com a Lati, galpão italiano.   Eram os dois locais utilizados pela aviação em Parnamirim na época, principalmente pelo correio aéreo. Um hangar italiano hoje é utilizado pela Base Aérea enquanto que o francês tem preservado somente as fundações.

Um momento importante também registrado é a chegada de militares alemães a Parnamirim, na primeira operação de grande sucesso da missão no Rio Grande do Norte. Os militares ianques tinham como objetivo patrulhar a costa brasileira em busca de submarinos alemães. A primeira captura aconteceu no dia seis de janeiro de 1943, quando o submarino U-164 foi abatido por aeronaves dos Estados Unidos. Os sobreviventes foram capturados para interrogatórios e enviados para a base em Natal. “Temos com esses fotos acesso a provas documentais de fatos conhecidos somente por relatos”, encerra o secretário da Fundação Rampa, Augusto Maranhão.

Acervo sem sede

Apesar de ter um dos maiores acervos sobre Segunda Guerra Mundial no RN, a Fundação Rampa não tem sede, colocando o seu acervo a disposição do público somente pela internet. Se a sede não existe, tampouco há apoio governamental. O trabalho desenvolvido pela Fundação é levado pelo empenho e abnegação de seus colaboradores, entre eles Augusto Maranhão e Frederico Nicolau.

Um dos locais que reclamam o acervo para exposição é o Museu da Rampa, existente até agora  unicamente no papel. Vizinho ao que hoje é o Canto do Mangue e o Mercado do Peixe, o Museu da Rampa era um aeroporto utilizado entre a década de 30 e 40 por aeronaves em todo o mundo. As viagens intercontinentais tinham a Rampa como parada obrigatória. O nome vem da rampa por onde subiam os hidroaviões europeus. Eles pousavam no Potengi e subiam a Rampa.

Embora o Governo do Estado tenha anunciado a licitação do Museu da Rampa para os próximos 60 dias, no valor de R$ 6,2 milhões, segundo a Secretaria Estadual de Turismo, o atraso na obra já acumula vários anos. O imbróglio frutificou por conta da burocracia. O terreno era da Aeronáutica, depois passou para a Marinha e há pouco tempo ficou sob cuidados do Governo do Estado. A demora causou avarias no prédio e, segundo membros da Fundação, várias alas terão de ser reconstruídas.

A falta de interesse causa um fenômeno conhecido: a história da Rampa tem mais informações disponíveis nos Estados Unidos do que no Brasil, segundo Frederico Nicolau. O historiador, por exemplo, foi informado da riqueza dos acontecimentos em Natal na terra do tio Sam. “Lá conheci a história e resolvi me mudar para Natal a fim de pesquisar sobre isso”, diz Nicolau. O Museu será uma oportunidade de colocar em evidência achados como esse das 70 fotos do soldado Sternberg. 

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Comentários

  • jh2ap

    pretendo fazer meu trabalho final da graduaçao do curso de historia sobre o cotidiano dos natalenses durante a Segunda Guerra e a influencia deixada pelos norte-americanos durante o periodo que se estalaram na cidade do Natal. É muito bom saber que posso pesquisar sobre o assunto e contar com pessoas que se dedicam e valorizam fatos que marcaram epoca e a historia do Rio Grande do Norte. Obrigado.