Francisco Augusto: Acesso a armas não vai garantir segurança

Publicação: 2019-03-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Entrevista com: Francisco Augusto -  Cientista social, pesquisador em segurança pública e sistema prisional

Na sua opinião, o que causa a morte desses jovens?
O acesso a armas de fogo é no Brasil um tema bastante polêmico. Com a implementação do Estatuto do Desarmamento, buscou-se construir uma cultura de pacificação social em virtude dos elevados índices de homicídios e soluções de conflitos que muitas vezes eram simples, mas pela facilidade de acesso a armas de fogo, tornavam-se muitas vezes fatais. Até quinze ou vinte anos atrás, era comum que as pessoas possuíssem arma de fogo em casa ou nos estabelecimentos comerciais com a ideia de que a arma garantiria a segurança da família ou da empresa. Mas precisamos aceitar que a criminalidade sofreu nos últimos anos uma profunda transformação. É importante considerar que o acesso a armas de fogo, geralmente contrabandeadas ou roubadas de pessoas que as possuíam de maneira legal, fez com que os grupos criminosos e aqueles que atuam por conta própria tenham um potencial de letalidade maior. Neste contexto, a circulação de armas de fogo impõe a ilusão de que armando as pessoas, elas terão condições de garantir a própria segurança. E é neste ponto que erramos.

Francisco Augusto, cientista social, pesquisador em segurança pública e sistema prisional

Qual a consequência dessa situação de tantas mortes de crianças e jovens?
O Estado transfere ao cidadão a responsabilidade de lutar pela sua própria segurança, o mercado de venda de armas cresce e lucra de maneira absurda e os criminosos permanecem tendo acesso a armas cada vez mais potentes e destrutivas. Neste cenário de circulação de armas, apesar do esforço do Estatuto do Desarmamento, nós nos deparamos com uma quantidade elevada de pessoas vítimas deste instrumento que tem demonstrado muito mais ser ofensivo do que protetor.  Os países que facilitam o acesso a armas de fogo estão cada vez mais dificultando este acesso em virtude das estatísticas e das tragédias que ocorrem em escolas, igrejas, nas ruas, estádios de futebol, festas, etc. É preciso percebermos que a facilitação do acesso a armas não vai garantir um estado de segurança, pois os criminosos armados estão muito mais preparados para utilizar a arma em uma ação criminosa do que um cidadão normal. É preciso exigir do Estado sua responsabilidade de garantir a segurança pública, seja educando as pessoas para a paz, até o investimento massivo nas polícias que atuam solucionando conflitos nas ruas. Os jovens são os que mais morrem por que são eles os que mais acreditam na ideia de que a posse da arma oferece segurança. No combate com criminosos, a probabilidade de ser ele a vítima fatal é bem maior.

Os jovens são, em sua maioria, de periferias, pelo que observamos. Esse é um retrato social preocupante?
Os jovens moradores da periferia são a população mais vulnerável ao crime promovido tanto pelos grupos criminosos como pelo próprio Estado. As estatísticas retratam um cenário que é preocupante e merece ser enfrentado com urgência. O jovem morador da periferia é, de modo geral, facilmente seduzido pelo crime em virtude de não possuir as referências necessárias para uma vida correta e saudável. A vida criminosa é bastante sedutora, pois oferece retorno material a curto prazo, é marcada pela ostentação e em certo ponto valorizada por uma cultura que considera “normal” ser criminoso. Por outro lado, é preciso que o Estado seja capaz de seduzir o jovem antes que ele seja seduzido pela criminalidade. É preciso presença do Estado nas comunidades carentes, funcionamento de espaços públicos de convivência saudável como praças, quadras de esporte, centros culturais, teatros, bibliotecas, etc. Onde não há Estado, a criminalidade é capaz de recrutar exércitos de jovens. Neste contexto de uma cidadania de segunda categoria, jovens da periferia morrem em grande quantidade, pois são eles recrutados pelo crime e aqueles que resistem a este contexto, são obrigados a conviver cotidianamente com o confronto entre um Estado incapaz de oferecer condições estruturais e simbólicas para as comunidades carentes e um Estado que legitima as suas polícias a ocuparem estes espaços com violência e abatam os inimigos.

O que o Estado e demais poderes devem fazer, em sua opinião, para reprimir esse aumento?
Garantir e ampliar o alcance do Estatuto do Desarmamento. Tirar do papel o Estatuto da Juventude. Políticas sociais pensadas nas condições de jovens pobres que desejam trabalhar, estudar e ter uma vida saudável. Aumentar o controle sobre os crimes cometidos pela Polícia Militar (a maioria dos casos são tratados como autos de resistência).









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