Francisco, o humilde Papa pecador

Publicação: 2019-04-17 00:00:00 | Comentários: 0
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Ney Lopes
Jornalista, ex-deputado federal e advogado

A semana santa é o momento propício para os cristãos refletirem e agradecerem a Deus, a benção do Pontífice de Roma, o Papa Francisco, a frente da Igreja Católica. Hoje, ateus, muçulmanos e gentes de outras religiões reconhecem a sua coragem e destemor, diante de desafios da humanidade.

O traço de personalidade mais característico de Francisco é aquele pedido que fez, em 2013, quando visitou o Rio de Janeiro e repete com frequência: “sou um pecador. Rezem por mim”. É impossível uma lição de humildade maior que essa atitude papal.

Francisco sucedeu, em 13 de março de 2013, o Papa Bento 16, o primeiro a abdicar o trono de Pedro, em quase 600 anos. Assumiu uma Igreja em crise, perdendo fiéis e popularidade em todos os cantos do mundo. Internamente, escândalos financeiros e de pedofilia.A escolha de Francisco surpreendeu o mundo.  Pela primeira vez, a Igreja Católica tinha um chefe latino-americano. Pela primeira vez, um jesuíta. E, pela primeira vez, alguém adotava o nome Francisco – sugestão dada ao cardeal Jorge Bergoglio pelo cardeal emérito de São Paulo, d. Claudio Hummes.

Desde o primeiro momento, Francisco mostrou perfil carismático e mobilizou a opinião pública com posições corajosas e ponderadas. Jamais se exalta. Mas também não se omite, nem recua. Antecipando-se a Conferência do Clima 2015, em Paris, assumiu posição firme em defesa da ecologia, ao publicar a Encíclica “Laudato si”, que teve como temática central a ecologia.

Ao visitar o Parlamento Europeu, em Estrasburgo, o Papa argentino recordou o compromisso ecológico da humanidade e a promoção de fontes alternativas de energia. Exortou que “não se pode tolerar que milhões de pessoas no mundo morram de fome, enquanto toneladas de produtos alimentares” são jogadas fora. Não apenas a ecologia, mas outras questões mundiais preocuparam Francisco, tais como, defesa dos refugiados da crise imigratória e intermediação das tumultuadas relações entre os Estados Unidos e Cuba, dentre outras.

Ao pedir orações por ser pecador, o Papa revigora a firmeza de sua fé para enfrentar temas fundamentais, quase proibidos no colégio cardinalício, tais como: abertura dos arquivos secretos do seu antecessor Pio XII, que liderou a Igreja Católica durante a Segunda Guerra Mundial, o que ocorrerá no dia 2 de março de 2020. E os escândalos de abuso sexual de clérigos, que ameaçam o seu legado e lançam a hierarquia católica em uma crise de credibilidade, jamais vista no passado.

No caso de Pio XII, a Igreja é acusada de não ter adotado posição firme contra o nazismo. Ao anunciar o seu propósito Francisco declarou: “A Igreja não teme a história. Pio XII foi o líder do catolicismo durante uma das épocas mais tristes e sombrias do século XX”.

A grandeza humana do Pontífice argentino caracterizou-se ao pedir perdão em 2018 aos bispos chilenos, por ter defendido publicamente o bispo Juan Barros, das acusações de encobrimento de práticas de pedofilia. Admitiu que cometeu “graves equívocos na avaliação da situação”. Gesto de extrema humildade!

O fato deu causa a uma histórica reunião sobre pedofilia, realizada recentemente no Vaticano, classificada como "ato de forte responsabilidade pastoral, diante de um desafio urgente".

A missão do Papa Bergoglio resume-se em realizar na Igreja uma reforma de gestão, preservados os dogmas e princípios cristãos. E vem conseguindo esse objetivo, embora enfrente lutas internas na cúpula da Igreja. As orações que sempre pede aos fiéis surtem efeito nas decisões do Colegiado cardinalício. Segundo dados conhecidos, a influência de Francisco é majoritária. De todos os 216 cardeais vivos – de 83 países diferentes –, apenas 118 têm direito a voto num eventual conclave. Os purpurados com mais de 80 anos não são mais eleitores. Considerando apenas os votantes, 49 foram nomeados no atual pontificado – outros 49 no pontificado de Bento 16; e o restante por João Paulo 2º.

Nas reflexões da Semana Santa de 2019 sobre o mistério da morte de Jesus e sua ressurreição, o pecador Francisco reafirma sua humildade ao orar: “Quem sou eu diante do meu Senhor? Quem sou eu, diante de Jesus que entra em festa em Jerusalém?”. Aleluia!







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