Francisco, o papa da transição

Publicação: 2013-03-14 00:00:00
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Vaticano (AE) - Nem Angelo Scola, nem Odilo Scherer. O Vaticano escolheu ontem como papa o argentino Jorge Bergoglio, um nome que não fazia parte de nenhum site de apostas, não era comentado por vaticanistas e sequer era tema de reuniões secretas de cardeais. Mas, segundo a reportagem apurou, foi o nome que conseguiu, durante a eleição, romper o confronto e o impasse criado entre dois grupos que haviam se estabelecido nos últimos dias e que se enfrentavam abertamente. “Metade dos cardeais entrou no conclave sem um nome definitivo a quem dariam seu voto”, disse o vaticanista Marco Politi. “A grande questão era como esse grupo reagiria e agora descobrimos que eles optaram por uma terceira via.”
Desejo que esse caminho de Igreja, que hoje começamos, seja frutuoso para a evangelização dessa tão bela cidade - Francisco
Nos dias que precederam o conclave, houve uma polarização do debate. De um lado, o brasileiro d. Odilo Scherer era o nome da Cúria, mais conservador, apoiado por quem estava no poder. De outro, o italiano Angelo Scola se apresentava como o nome da oposição. O choque frontal entre os grupos, porém, com acusações de vazamento de informações à imprensa e cobranças sobre a gestão do Banco do Vaticano teria criado uma sensação entre os cardeais de que nenhum dos dois grupos conseguiria um consenso.
Novo papa dos católicos foi escolhido no segundo dia do conclave
Tanto Scola como Scherer começaram a votação com força. A certeza de uma vitória de Scola era tanta que, logo após o anúncio do Habemus papam, a Conferência Episcopal Italiana emitiu um comunicado sobre a “notícia da eleição do cardeal Angelo Scola como sucessor de Pedro”.
Fumaça branca anunciando escolha do papa sai no meio da tarde
Ao longo das votações secretas na Capela Sistina, porém, a realidade é que nenhum dos dois conseguia avançar no sentido de garantir os 77 votos necessários para ser eleito papa. Cardeais saíram em busca de alternativas e, apesar de estar fora da idade que se havia declarado como ideal (preferencialmente mais jovem, para evitar um papado muito breve), Bergoglio começou a coletar votos dos outros cardeais que também estavam descontentes com a Cúria, mas não estavam inclinados a apoiar Scola.
Milhares de pessoas compareceram à Praça de São Pedro
Com 76 anos, perfil de pastor e caráter de simplicidade, Bergoglio acabou sendo privilegiado. Muitos, porém, deixaram o Vaticano ontem com a impressão de que este foi o “papa possível” de ser eleito, e não necessariamente o “papa ideal”. Dada a idade avançada de Bergoglio, é possível que seu papado se caracterize como mais um período de transição na Santa Sé - algo que se acreditava ter terminado com a renúncia de Bento XVI.

Francisco, um jesuíta no Vaticano

Ariel Palacios - Agência Estado

Buenos Aires - “Low profile”, “calado”, “sóbrio” e “frugal” são alguns dos adjetivos usados por seus mais fiéis colaboradores. Seus inimigos, no entanto, preferem defini-lo como “calculista”, “frio”, “traiçoeiro” e “autoritário”. Mas, para a maioria dos argentinos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio é simplesmente um mistério. No entanto, em 2005 ele saiu do semi-anonimato para virar um dos homens mais comentados do país, já que o arcebispo portenho passou a ser um dos papáveis da América Latina. Mas, na ocasião o cardeal portenho ficou em segundo lugar, com 40 votos, sendo superado por Joseph Ratzinger, que foi entronizado Bento XVI.

Nos últimos anos, antes de deixar de ser primaz da Argentina, Bergoglio sofreu um duro revés político quando o Parlamento argentino aprovou um projeto de lei do Partido Socialista (mas respaldado pelo governo da peronista Cristina Kirchner) de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Bergoglio, na véspera da votação, deixou de lado seu estilo sóbrio e desferiu um irritado sermão contra o projeto, que foi aprovado com ampla maioria. Muitos integrantes do clero acharam que esta derrota implicaria na perda de pontos como “papável” em um seguinte conclave.

Nesta quarta-feira, ao ser nomeado Francisco, o papa que vai chefiar a Igreja, Bergoglio, além de se tornar o primeiro latino-americano a ocupar o trono de São Pedro, também quebrou a restrição - implícita - de que um jesuíta seja transformado em papa. Desde que foi criada, há quase cinco séculos, a outrora poderosa Companhia de Jesus jamais conseguiu que um representante chegasse a líder da Igreja Católica, principalmente pela oposição de outras congregações que temiam seu crescimento.

Homem afável, mas de poucas - embora certeiras - palavras, o ex-primaz da Argentina sempre fez questão de manter um profundo silêncio sobre sua vida.

Aqueles que o conhecem bem sustentam que só mostra intensa paixão quando fala de Fiodor Dostoievski, seu escritor preferido “É um jesuíta até a medula. Ele fala pouco. Ouve o dobro do que fala. E pensa o triplo do que ouve”, afirmou ao Grupo Estado em 2005 um ex-embaixador argentino em Roma, que completa dizendo que jamais desejaria ter Bergoglio como inimigo. Com ironia, explica: “Quem vive, como Bergoglio, só à base de frango cozido e verduras, só pode ser um cara perigoso.”

Filho de imigrantes italianos (seu pai era ferroviário e sua mãe, dona de casa), o cardeal nasceu no dia 17 de dezembro de 1936 no bairro de classe média de Flores, em Buenos Aires. Desde criança, foi torcedor fanático do time de San Lorenzo, fundado por um padre no início do século. Mas nunca pôde aspirar a jogar futebol além da praça do bairro. Seu físico, quando adolescente, era franzino. Aos 20 anos, passou por uma grave operação para a retirada de um de seus pulmões.

Após se formar como técnico químico e encerrar o namoro com uma vizinha, Bergoglio entrou para a Companhia de Jesus, ordem caracterizada por sua obediência e disciplina ascética que historiadores preferem definir como militar.

Ordenado sacerdote aos 33 anos, aos 36 já era o comandante dos jesuítas na Argentina. Nos anos que se seguiram - as décadas de 1970 e 1980 -, paira uma nuvem nebulosa sobre a vida de Bergoglio. O jornalista investigativo argentino Horacio Verbitsky sustenta que ele colaborou ativamente com a última ditadura (1976-83), delatando os jovens sacerdotes, que foram sequestrados pelos militares.

Nos anos 80, Bergoglio migrou ao setor mais conservador da Companhia de Jesus e passou por um obscuro ostracismo na Alemanha. Ao voltar à Argentina, foi posto em cargos de baixa importância. Esse período só terminou quando, em 1992, o poderoso cardeal Antonio Quarracino o convocou para ser seu bispo auxiliar em Buenos Aires. “É um jesuíta sereno e preciso. Ele tem uma capacidade e uma velocidade mental fora do comum”, comentou.

O salto internacional de Bergoglio ocorreu em 2001, quando ocupou o posto de relator-geral do Sínodo dos Bispos em Roma. Bergoglio é idolatrado pelo clero jovem e, até poucos anos atrás, só se deslocava pela cidade em metrô ou ônibus. Seus admiradores afirmam que o fazia “para estar perto do povo”. Os críticos sustentam que era “puro populismo”.

Os parlamentares da esquerda, que se confrontaram com frequência com Bergoglio por questões como a legalização do aborto, o definem como “o pior dos inimigos, porque é um inimigo muito inteligente”. No entanto, o cardeal também os desconcerta ao realizar furiosos ataques contra o neoliberalismo.

Esta é a segunda vez que a Argentina conta com um papável. O anterior foi o arcebispo de Mar del Plata, cardeal Eduardo Pironio, morto em 1996, que nos dois conclaves de 1978 despontava como o principal papável sul-americano.

Catedral de Buenos Aires recebe centenas de fiéis

Buenos Aires (AE) - Jorge Mario Bergoglio é considerado um homem sumamente humilde pelos fiéis da Igreja Católica na Argentina. Reunidos na Catedral de Buenos Aires, enquanto choravam de emoção, centenas de fiéis exaltavam as qualidades do novo papa. “Era um homem igual à gente. Sempre humilde e nunca se colocou em uma posição distante do povo”, disse Aurora Valentin, que passava pela Praça de Maio quando soube da notícia e decidiu entrar na Catedral. A imprensa também faz plantão em frente à catedral. “É argentino, o Papa é argentino”, gritava um grupo.

O ex-porta-voz da Igreja Gustavo Boquín também ressaltava a humildade de Bergoglio, contando que ele usava transporte público, como metrô e ônibus, e caminhava pelos bairros para visitar as paróquias. “É um homem de austeridade e dedicação à vida pastoral”, disse Boquín. Ele contou que a rotina de Bergoglio começa às 4h30 da manhã e termina às 21h. Também informou que ele gosta de ler escritores argentinos como Jorge Luis Borges e Leopoldo Marechal e o russo Fiodor Dostoiesvski. O novo papa é fã de ópera e torcedor do time de futebol San Lorenzo de Almagro, o mesmo do ator argentino Viggo Mortensen.
Em 2005, Bergoglio foi um dos mais votados no conclave convocado após a morte do papa João Paulo II, mas terminou sendo superado pelo cardeal Joseph Ratzinger
Bergoglio tem a simpatia popular e da oposição argentina. Ele chegou a ser apontado pelo ex-presidente Néstor Kirchner como “o verdadeiro representante da oposição”. A relação entre ambos foi muito áspera e a Casa Rosada reclamou publicamente da falta de consideração por parte da Igreja Católica do esforço do governo Kirchner para tirar a Argentina da crise de 2001.
Quando Nestor Kirchner morreu, em outubro de 2010, Bergoglio rezou uma missa em sua homenagem e disse que o país deveria rezar por ele e se abster de todo tipo de posição antagônica diante da morte de um homem ungido pelo povo para conduzi-lo.

Bergoglio e os Kirchners trocaram farpas em várias ocasiões por causa dos níveis de pobreza, durante a conflito da Casa Rosada com o setor agropecuário e o clima de confronto alimentado pela administração pública federal.

Com Cristina, a relação foi suavizada por um tempo. Mas a tensão voltou quando o então cardeal se opôs publicamente às leis defendidas por seu governo para permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo e o reconhecimento dos direitos de travestis de mudar seus documentos de nascimento.

Homenagem a Bento XVI

Vaticano (AE) - Foi uma surpresa geral. Os fiéis que lotavam a Praça São Pedro, entre os quais centenas de padres e freiras, precisaram de alguns minutos para entender o nome do papa eleito, antes de aplaudi-lo. “Eu vos anuncio uma grande alegria: temos papa, o digníssimo senhor Jorge Mario, cardeal Bergoglio, que escolheu o nome de Francisco”, comunicou o protodiácono Jean-Louis Tauran, cardeal francês, do balcão central da Basílica de São Pedro. Argentino, Francisco entra para a história da Igreja Católica como o primeiro papa latino-americano. Havia quase 1,3 mil anos que o escolhido era do continente europeu.
Sob um frio de 8 graus, milhares de pessoas esperaram mais de uma hora pelo anúncio do nome de Jorge Bergoblio, o papa Francisco
O mundo conheceu o nome cardeal a ocupar o trono de Pedro às 20h12 (16h12 em Brasília), uma hora e sete minutos após a fumaça branca ter saído da chaminé da Capela Sistina, onde o Colégio Cardinalício fez uma votação na terça-feira e quatro nesta quarta-feira. Mais de 50 mil pessoas acompanharam o anúncio na Praça São Pedro, apesar da chuva que caiu ao longo de todo o dia e de uma temperatura em torno dos 8°C.

Em sua primeira mensagem aos fiéis, após aparecer na sacada da basílica, Francisco agradeceu aos fiéis e afirmou que gostaria de fazer uma oração a Bento XVI, a quem chamou de “nosso bispo emérito”. Nesta quinta-feira, Francisco visitará Bento XVI, em Castel Gandolfo. A seguir, a íntegra de mensagem:

“Irmãos e Irmãs, boa noite. Vocês sabem que o dever do conclave era de dar um bispo a Roma. Parece que meus irmãos cardeais foram buscá-lo quase no fim do mundo. Mas, estamos aqui. Agradeço-vos pela acolhida - à comunidade diocesana, ao seu bispo. Obrigado. Antes de tudo, gostaria de fazer uma oração pelo nosso papa emérito, Bento XVI. Rezemos todos juntos por ele, para que Deus o abençoe e Nossa Senhora o proteja.” (Oração do Pai Nosso, da Ave Maria e do Glória ao Pai.)

“E agora comecemos esse caminho bispo e povo, bispo e povo. Esse é o caminho da Igreja de Roma, que é aquela que precede na caridade a todas as outras Igrejas. Um caminho de fraternidade, de amor, de confiança entre nós. Rezemos sempre por nós, um pelo outro, rezemos por todo o mundo, para que exista uma grande fraternidade. Desejo que esse caminho de Igreja, que hoje começamos e ajudará a mim e ao meu cardeal vigário aqui presente, seja frutuoso para a evangelização dessa tão bela cidade. E agora gostaria de dar uma bênção, mas antes vos peço um favor. Antes de o bispo abençoar o povo vos peço que vocês rezem ao Senhor para que me abençoe. A oração do povo pedindo a bênção pelo seu bispo. Façamos em silêncio essa oração de vocês por mim”.

Brasil espera visita do pontífice

Brasília (AE) - A escolha do argentino Jorge Mario Bergoglio para papa demonstra o reconhecimento da Igreja à América Latina, disse nesta quarta-feira o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho. O governo brasileiro aguarda a vinda do pontífice para a Jornada Mundial da Juventude, que ocorrerá de 23 a 28 de julho no Rio de Janeiro. “A presidenta Dilma manifestou nossa satisfação pela escolha do papa Francisco, e nós temos de nos alegrar muito como latino-americanos. Este é o primeiro aspecto para nós, da maior importância: o fato histórico de termos pela primeira vez um papa do nosso continente, que é o continente hoje com o maior contingente de católicos no mundo”, disse Carvalho. “O continente começa a ter, finalmente, reconhecimento e uma influência nos destinos da Igreja Católica.”

Em nota, a presidente Dilma Rousseff disse que “o Brasil acompanhou com atenção o conclave e a escolha do primeiro papa latino-americano”, congratulando Francisco. “É com expectativa que os fiéis aguardam a vinda do papa Francisco I ao Rio de Janeiro para a Jornada Mundial da Juventude, em julho. Essa visita, em um período tão curto após a escolha do novo pontífice, fortalece as tradições religiosas brasileiras e reforça os laços que ligam o Brasil ao Vaticano.”

De acordo com Carvalho, a presidente Dilma Rousseff deverá enviar uma carta reiterando o convite para que o novo pontífice esteja presente ao evento. Na agenda oficial, estão previstos pelo menos dois encontros da presidente com o novo papa durante a jornada: o primeiro encontro ocorreria no Palácio Laranjeiras, onde haveria uma reunião privativa; e, o segundo, na missa principal, em Guaratiba.

“O Brasil é um país laico, um estado laico, mas isso não quer dizer que é um Estado ateu, respeita todas as religiões, todas as opiniões democraticamente, então não nos cabe fazer considerações. Para nós, o mais importante são as convergências que podemos ter entre um projeto de país e a Igreja Católica ou as igrejas em geral”, disse Carvalho.

Questionado se o Palácio do Planalto espera estreitar as relações com o Vaticano, Carvalho respondeu: “O Planalto espera manter o padrão de relações que nós temos, que é extraordinário. Temos comparecido, sempre que convidados, a todas cerimônias no Vaticano, nos honramos com nossos representantes em Roma, com nossos cardeais”.

O governo brasileiro foi criticado por ter demorado a se pronunciar sobre a renúncia de Bento XVI - uma demora que foi encarada como uma resposta a confrontos passados entre a presidente e a Igreja. Durante a campanha eleitoral de 2010, Dilma foi questionada por setores conservadores sobre suas posições relacionadas ao aborto.

Um assessor palaciano destacou que a nota endereçada ao novo papa possui um tom mais efusivo que a anterior, encaminhada a Bento XVI. Para o ministro Gilberto Carvalho, o fato de um brasileiro não ter sido eleito papa não deve causar frustração. “Não é um campeonato (de futebol). Claro que a nossa alegria seria muito grande, se fosse um papa brasileiro. Certamente ser argentino vai provocar muitas brincadeiras entre o povo brasileiro, mas eu quero dizer que o povo argentino é um povo para nós cada vez mais próximo, amigo, fraterno. As nossas diferenças no futebol vamos resolver no campo específico.”

Rosalba e Carlos Eduardo falam sobre escolha do papa

A governadora do Rio Grande do Norte, Rosalba Ciarlini, disse ontem que ficou muito feliz com a escolha do novo Papa, especialmente por ser latino-americano. “A escolha do Papa Francisco foi uma grata surpresa”, disse Rosalba, através de sua assessoria. A governadora também ressaltou a importância da simplicidade do novo comandante da Igreja Católica. “Tenho certeza que ele fará um grande pontificado”.

Já o prefeito de Natal, Carlos Eduardo saudou, através de nota à imprensa, o novo Papa e destacou a escolha do nome “Francisco, numa homenagem àquele que elegeu a pregação da paz, da humildade e a integração entre todos os seres vivos como opção de vida”.

Carlos Eduardo deseja que o Papa “lidere a Igreja Católica com amor e sabedoria, inspirando a paz entre os cidadãos do mundo e levando uma palavra de fé e o exemplo da caridade durante seu pontificado”.

Estados unidos - Obama felicita novo papa
Washigton (AE) - O presidente Obama felicitou  ontem o papa Francisco. “Em nome do povo norte-americano, eu e Michelle felicitamos calorosamente Sua Santidade o Papa Francisco”, diz Obama na nota. “Como defensor dos pobres e dos mais vulneráveis, ele transmite a mensagem do amor e da compaixão que inspira o mundo há mais de dois mil anos”, prossegue o presidente norte-americano. “Como primeiro papa das Américas, a escolha também ressalta a força e a vitalidade de uma região que cada vez mais molda o nosso mundo.”

Argentina - Igreja se omitiu na ditadura
Cidade do Vaticano (AE) - O legado do novo papa Jorge Bergoglio como cardeal inclui seus esforços para reparar a reputação de uma igreja que perdeu muitos seguidores por não desafiar abertamente a ditadura argentina entre 1976 e 1983. Na época, seu próprio histórico como líder da Companhia de Jesus na Argentina também foi manchado. Muitos argentinos ainda se ressentem da falha reconhecida pela Igreja Católica, que não enfrentou um regime ditatorial que estava sequestrando e matando milhares de pessoas.

Brasil - demora agustia cúria de São Paulo
São Paulo (AE) - O intervalo de cerca de uma hora entre a fumaça branca e o anúncio do nome pareceu durar muito mais na sede da Cúria Metropolitana de São Paulo. Apesar de publicamente a Igreja não se posicionar favorável a um nome, a torcida por d. Odilo Scherer se traduzia nos olhares atentos para a TV, mãos inquietas e um “ahhhhh” decepcionado e risonho quando veio a notícia de que o papa era um cardeal argentino. Assim que a fumaça apareceu, os padres e bispos que estavam  na Cúria começaram a se dividir diante das TVs.

São Paulo - Igreja fala em agradável surpresa
São Paulo (AE) - Na coletiva de imprensa, logo após o anúncio, foi lida uma carta em que a Arquidiocese expressava “alegria” em ter o novo papa para conduzir a Igreja “por águas agitadas do atual contexto social”. Nas falas, a surpresa. “Não conheço o novo papa. Não saberia dizer qual relação ele tem com os cardeais brasileiros” disse o bispo Edmar Peron. “De fato todos fomos pegos por uma grandíssima surpresa.” Eles não arriscaram em detalhar seu perfil, mas indicaram que a escolha do nome, Francisco, é um sinal de atenção às questões sociais.

Vaticano cobra presença de Dilma
A diplomacia do Vaticano está empenhada em conseguir que os principais países católicos enviem seu mais alto escalão para a primeira missa do papa Francisco, em uma espécie de chancela internacional ao novo pontífice, que será celebrada no dia 19 de março. O Brasil é uma das prioridades, ao lado da Argentina. Diplomatas latino-americanos em Roma confirmaram que a chancelaria do Vaticano reuniu-se com diplomatas de diversos países querendo saber o tamanho e a qualificação das delegações que seus governos planejavam enviar para a missa.

Paraná
Toledo (AE) - Mesmo com o anúncio do nome do argentino Jorge Bergoglio, os familiares do arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, reunidos em Toledo/PR, procuraram não demonstrar frustração com o resultado e disseram “estar aliviados" com a escolha. O professor universitário, Flávio Scherer, irmão de dom Odilo, foi quem falou com os jornalistas brasileiros e estrangeiros durante uma entrevista coletiva na tarde desta quarta-feira, após o anúncio do novo papa. “Eu até me sinto aliviado por não
terem escolhido o meu irmão”, disse Flávio.

Um papa entre dois mundos

O jornalista John Allen Jr.,  um dos mais experientes vaticanistas da atualidade, considerava o cardeal Jorge Mario Bergoglio, um dos fortes candidatos ao Trono de São Pedro, apesar de não aparecer nas listas de favoritos elaboradas desde que Bento XVI anunciou a renúncia, no início de fevereiro. Abaixo, a análise que ele postou no site norte-americano National Catholic Reporter, na véspera da abertura do conclave. Allen também colabora com o canal de televisão CNN e com a National Public Radio norte-americana. É autor de vários livros sobre a Igreja Católica, incluindo duas biografias de Bento XVI, uma delas escrita quando Joseph Ratzinger ainda era cardeal:

Enquanto não há pesquisas de opinião para estabelecer quem tem mais musculatura como candidato ao papado, o conclave de 2013 tem pelo menos uma medida objetiva a mais que o de 2005: o desempenho anterior. Muitos dos cardeais vistos como candidatos agora estavam também disponíveis da última vez, e alguém que teve força há oito anos poderia ser um competidor novamente. Por essa medida isolada, o cardeal Jorge Mario Bergoglio, de Buenos Aires (Argentina), merece alguma atenção.
Depois que a poeira da eleição de Bento XVI assentou, vários repórteres identificaram o jesuíta argentino como o principal desafiante do então cardeal Joseph Ratzinger. Um eleitor disse, depois, que o conclave teve “um quê de corrida de cavalos” entre Ratzinger e Bergoglio, e um diário anônimo do conclave que circulava entre a mídia italiana em setembro de 2005 indicava que Bergoglio chegou a receber 40 votos na terceira votação, a que ocorreu imediatamente antes daquela em que Ratzinger cruzou a linha dos dois terços e se tornou papa. Embora seja difícil dizer o quanto se pode levar isso a sério, o consenso geral é de que Bergoglio foi realmente um candidato de peso no último conclave. Ele chamou a atenção dos ortodoxos do Colégio de Cardeais como um homem que conseguiu segurar os avanços das correntes liberais entre os jesuítas, enquanto para os moderados era um símbolo do compromisso da Igreja com o mundo em desenvolvimento.

Conclave de 2005

Bergoglio marcou muitos pontos como um intelectual dedicado, que estudou teologia na Alemanha. Seu papel de liderança durante a crise econômica argentina deu polimento à sua reputação de ser a voz da ponderação e fez dele um potente símbolo do que os custos da globalização podem representar para o mundo pobre. A proverbial simplicidade pessoal também exerceu inegável atração – é um príncipe da Igreja que escolheu viver em um apartamento simples em vez de habitar um palácio episcopal, que abriu mão da limusine com motorista e prefere usar o transporte público, e que cozinha suas próprias refeições.
Outra medida da seriedade de Bergoglio como candidato é a campanha negativa feita em torno dele há oito anos. Três dias antes da abertura do conclave de 2005, um advogado argentino da área de direitos humanos entrou com uma ação em que Bergoglio era apontado como cúmplice no sequestro de dois padres jesuítas, em 1976, sob o regime militar que então vigorava no país. Bergoglio negou terminantemente a acusação. Houve também uma campanha por e-mail, que parece ter sido orquestrada pelos confrades jesuítas que conheciam Bergoglio dos tempos em que ele foi provincial da ordem na Argentina. Segundo a campanha, “ele jamais sorria”.

Dito isso tudo, o fato é que Bergoglio definitivamente esteve sempre no radar. É claro que está oito anos mais velho agora, e que, aos 76, já está fora da faixa etária que muitos cardeais consideram ideal. Além disso, o fato de não ter conseguido transpor a barreira do número de votos necessário da última vez pode convencer alguns cardeais de que não vale a pena voltar a tentar. Ainda assim, muitas das razões que levaram membros do colégio a tomá-lo como sério candidato oito anos atrás ainda estão de pé.

Nascido em Buenos Aires, em 1936, Bergoglio é filho de um ferroviário que emigrou de Turim, na Itália, para a Argentina, onde teve cinco filhos. O plano original do cardeal era ser químico, mas, em vez disso, ele ingressou em 1958 na Companhia de Jesus para começar os estudos preparatórios para a ordenação sacerdotal. Passou boa parte do início da carreira lecionando Literatura, Psicologia e Filosofia, e muito cedo era visto como uma estrela em ascensão. De 1973 a 1979 foi provincial dos jesuítas na Argentina.

Depois disso, em 1980, tornou-se o reitor do seminário no qual havia se formado. Eram os anos do regime militar na Argentina, quando muitos sacerdotes, incluindo líderes jesuítas, gravitavam em torno do movimento progressista da Teologia da Libertação. Como provincial jesuíta, Bergoglio insistiu em um mergulho mais profundo na tradição espiritual de Santo Inácio de Loyola, ordenando que os jesuítas continuassem seu trabalho nas paróquias e atuassem como vigários em vez de se meterem em “comunidades de base” e ativismo político.

Embora os jesuítas sejam, em geral, desencorajados de receber honrarias eclesiásticas, especialmente fora de seus países, Bergoglio foi nomeado bispo auxiliar de Buenos Aires em 1992, e depois sucedeu o adoentado cardeal Antonio Quarracino, em 1998. João Paulo II fez Bergoglio cardeal em 2001, designando-lhe a igreja romana que leva o nome do lendário jesuíta São Roberto Belarmino.

Ao longo dos anos, Bergoglio se aproximou tanto do movimento Comunhão e Liberação, fundado pelo padre italiano Luigi Giussani, que às vezes discursava no grande encontro anual do grupo, em Rimini, na Itália. Ele também chegou a divulgar os livros de Giussani em feiras literárias na Argentina. Isso acabou gerando consternação entre os jesuítas, uma vez que os ciellini, como são chamados os adeptos do movimento, já eram vistos com os principais opositores do colega jesuíta de Bergoglio em Milão, o cardeal Carlo Maria Martini. Por outro lado, isso tudo é parte do apelo de Bergoglio, um homem que pessoalmente se divide entre os jesuítas e os ciellini e, em maior escala, entre os reformistas e os ortodoxos da Igreja.

Opositor do aborto

Bergoglio apoiou o ethos de justiça social do catolicismo latino-americano, inclusive com robusta defesa dos pobres. “Vivemos na parte mais desigual do mundo, que tem crescido muito, mas que pouco tem feito para reduzir a miséria”, afirmou ele durante um encontro do episcopado latino-americano em 2007. “A injusta distribuição de renda persiste, criando uma situação de pecado social que clama aos céus e que limita as possibilidades de uma vida plena para muitos de nossos irmãos.” Ao mesmo tempo, ele tende mais a se empenhar pelo crescimento em graça pessoal do que por reformas estruturais.

Bergoglio é visto como um ortodoxo inflexível em matéria de moral sexual e como convicto opositor do aborto, da união homossexual e da contracepção. Em 2010 ele afirmou que a adoção de crianças por gays é uma forma de discriminação contra as crianças, o que lhe valeu uma reprimenda pública por parte da presidente argentina Cristina Kirchner. Ao mesmo tempo, ele demonstra sempre profunda compaixão pelas vítimas da aids; em 2001, por exemplo, visitou um sanatório para lavar e beijar os pés de 12 pacientes soropositivos.

Bergoglio também marcou pontos por sua apaixonada reposta ao atentado a bomba ocorrido em 1994 no prédio de sete andares que abrigava a Associação Mutual Israelita Argentina, em Buenos Aires. Foi um dos maiores ataques a alvos judeus já registrados na América Latina e, em 2005, o rabino Joseph Ehrenkranz, do Centro para a Compreensão Judaico-Cristã, ligado à Universidade do Sagrado Coração em Fairfield, no estado norte-americano de Connecticut, louvou a liderança de Bergoglio para superar a dor do episódio. “Ele estava muito preocupado com o que havia ocorrido”, disse Ehrenkranz. “Tinha vivido a experiência.”

Apesar disso, depois do conclave de 2005 alguns cardeais admitiram inocentemente duvidar de que Bergoglio realmente tivesse a forja e a força necessárias para liderar a Igreja universal. Mais que isso, para muitos dos não latino-americanos Bergoglio era um número desconhecido. Uns poucos relembraram de sua liderança no Sínodo de 2001, quando ele substituiu Edward Egan, de Nova York, como relator do encontro porque o cardeal norte-americano teve de voltar às pressas para casa para ajudar as vítimas dos atentados terroristas de 11 de setembro. Naquela ocasião, Bergoglio deixou uma impressão basicamente positiva, mas pouco marcante.

Bergoglio pode ser fundamentalmente conservador em muitas questões, mas não é um defensor dos privilégios do clero ou um homem insensível às realidades pastorais. Em setembro de 2012, ele disparou um ataque contra os padres que se negavam a batizar crianças nascidas fora do casamento, classificando a recusa como uma forma de “neoclericalismo rigoroso e hipócrita”.

Os desafios de Francisco

Rafael Plaisant Roldão  - Deutsche Welle

Berlim  -  Se a primeira grande viagem do novo Papa for mesmo ao Rio de Janeiro, ele estará ali, durante a Jornada Mundial da Juventude, diante de um exemplo concreto de seus desafios futuros. O estado é o primeiro do Brasil onde os católicos já não são mais a maioria, clara tendência num mundo cada vez mais secularizado e um reflexo da que talvez seja a maior crise da história da Igreja. O novo sucessor de São Pedro herdará 1,2 bilhão de fiéis e um sem-número de problemas. Terá que ter mão de ferro para lidar com as questões internas, mas, ao mesmo tempo, ser carismático, capaz de falar a língua do povo, estar ao lado dos pobres e, sobretudo, esforçar-se para devolver ao Vaticano a influência e o prestígio de outrora.
Jornada Mundial da Juventude, no Rio, deve ser o primeiro compromisso internacional do novo papa
A queda no número de fiéis não é exclusividade do Rio, onde, entre 1940 e 2010, a proporção de católicos despencou de 91% para 46%. Na América Latina, que concentra 41% dos católicos do mundo, a quantidade de adeptos também está em queda, assim como na Europa. O Velho Continente está cada vez mais secular, fenômeno que, aliado à crescente migração de muçulmanos do Norte da África, ajuda a tirar espaço do catolicismo.

O problema já chamara a atenção de Bento 16, que criou um departamento (dicastério) exclusivo para a nova evangelização e convocou para ele um sínodo de bispos. Ao novo Papa, caberá canalizar as propostas apresentadas, entre elas o estabelecimento de uma catequese adequada e a aplicação de novas linguagens para atrair fiéis, sobretudo os mais jovens.
“O grande desafio para a Igreja talvez não venha de fora. Na América Latina, por exemplo, o maior desafio é como a fé é celebrada, como ela é vivida, comunicada e evangelizada”, admitiu recentemente Guzman Carriquiry, secretário-geral da Pontifícia Comissão para a América Latina.

Ao mesmo tempo em que, internamente, terá que reformar a Cúria, tornar o Estado vaticano mais eficiente e limpar a sujeira exposta pelo Vatileaks, o novo Pontífice precisará lidar com questões externas delicadas. Entre elas, o diálogo com outras religiões, o papel da mulher na Igreja, a postura oficial sobre a bioética, além, naturalmente, do aborto, do casamento gay e dos escândalos de pedofilia.

Tudo isso demandará unidade – um desafio numa Igreja que se viu minada nos últimos anos por rixas políticas internas. “São Pedro nos ensinou que cada um de nós precisa trabalhar para construir a unidade da Igreja”, disse na terça-feira o cardeal decano, Angelo Sodano, antes do início do conclave. “Todos nós estamos convocados a cooperar com os pastores, em especial com o sucessor de São Pedro, para obter a união na Igreja Católica.”

As reuniões que antecederam o conclave foram a portas fechadas, mas, a julgar pelo que foi filtrado pela imprensa italiana, no centro das preocupações dos cardeais está a pedofilia. Durante décadas, como disse o próprio Bento 16, a Igreja praticou um “silêncio cúmplice”, mas agora está tendo que lidar com escândalos em série. O novo Bispo de Roma precisará não só lidar com questões legais, mas também superar as alas mais conservadoras dentro da Santa Sé, que defendem a adoção de uma linha dura e não admitem publicamente a má-conduta dos padres. “Todos cometemos erros. Às vezes não compreendemos completamente a gravidade de certas situações”, reconheceu na semana passada o cardeal norte-americano Theodore Edgar McCarrick, de 82 anos.

Papel da mulher

A pedofilia é o escândalo de maior repercussão, mas poucas questões dividem tanto a Igreja – ou a deixam tão vulnerável a críticas – como a postura sobre o aborto e a camisinha. Em sua primeira viagem à África, onde há mais de 22 milhões de contaminados com o vírus HIV, Bento 16 causou indignação ao dizer que distribuir preservativos “agrava o problema”. Depois, teve que modificar sua postura e dizer que preservativos eram aceitáveis “em certos casos”.

Ao novo papa caberá também contornar a questão do casamento gay sem perder mais fiéis. Na contramão dos países europeus e alguns estados norte-americanos, que estão legalizando a união entre pessoas do mesmo sexo, Bento 16 declarou que o casamento homossexual destrói “a essência da criatura humana”.

O novo Pontífice terá ainda que rever o papel da mulher. Um sacerdócio feminino parece, pelo menos a médio prazo, totalmente fora de questão, mas muitas exigem uma maior participação nas tarefas da paróquia, da mesma forma que alguns laicos. Em pauta também terá que estar o diálogo com outras religiões. Bento 16 estendeu algumas pontes, mas o Vaticano ainda terá que aprender como melhorar as relações com o islã sem gerar preocupações no Ocidente e com os judeus. Essas relações estão ainda mais complicadas depois da decisão de pôr a caminho da santificação o papa Pio 12, criticado por seu papel durante o Holocausto.

Mais do que um passado impecável, o novo Papa terá que ter habilidade para se equilibrar entre as demandas externas e internas que o cargo impõe. E precisará ser rápido e eficiente para lidar com todos os desafios que Bento 16 não sentiu forças para enfrentar, optando, assim, por renunciar.

O caminho do evangelho e da humildade

Gabriela Freire - Repórter

“Graças a Deus temos papa”. A frase do arcebispo de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, no primeiro contato com a imprensa após o anúncio do novo papa, representa o sentimento da igreja católica diante da escolha do pontífice. Junto com a surpresa que envolveu a eleição de um cardeal latino-americano, jesuíta e que usará o nome Francisco pela primeira vez, a alegria por ter um papa. “É uma surpresa. Há uma visível mudança na igreja a partir do perfil desse novo papa”, disse Dom Jaime.
Manoel Ferreira, Ednilson  Marques e Wober Ronald usam os sinos da Catedral Metropolitana de Natal para anunciar que a Igreja Católicia tem um novo papa
A partir da análise do primeiro discurso e dos primeiros gestos do cardeal Jorge Mario Bergoglio, 76, transmitidos para todo o mundo, o arcebispo de Natal reforça o que já vinha dizendo nos dias que antecederam a escolha. “A igreja não será mais a mesma com a saída de Bento XVI do ponto de vista de ação e relação com o mundo”. Para ele a escolha do nome ‘Francisco’ e o pedido de oração feito ao povo para que possa conduzir bem a igreja católica passa uma mensagem profunda sobre como será a sua atuação. “A igreja se volta para a sua essência, para o evangelho e humildade. Valores que a igreja está precisando nesse momento. Esse gesto mostra que ele é um homem muito sábio, suplicando benção diante da multidão”, avalia Dom Jaime.

Dom Jaime não conhece pessoalmente o cardeal argentino, mas faz questão de destacar características que o qualificam positivamente. “Ele tem um histórico interessante. Como um curso de humanidade feito no Chile na década de 1960, quando o país era referência de renovação da igreja. Sem contar que ele teve uma expressiva votação no conclave anterior, que elegeu Bento XVI”, destaca. Dom Jaime não considera a idade do pontífice, 76 anos, um dos critérios mais importantes.

A escolha de um representante latino-americano é uma das facetas que merece reflexão. Em um momento de decadência da igreja, e de outras áreas como economia, na Europa, a igreja se volta para um “novo celeiro de vocações”, como classifica Dom Jaime. O arcebispo destaca que a América Latina possui um bom número de fiéis proporcionando vivacidade à igreja. “As ações pastorais e vários outros elementos podem ter contribuído”, disse. 

As análises são feitas com base no contexto e avaliação pessoal do bispo norte-riograndense, uma vez que o que é discutido no conclave é secreto. “O povo de Deus confia na igreja, possui grande reverência e acolhe com esperança o papa. Estamos felizes e agradecidos ao Senhor pela escolha de um novo papa. A Sé continua na pessoa do novo papa”, declarou. A partir de agora, recomenda Dom Jaime, os católicos “devem ficar atentos aos sinais e correspondê-los com nossas atitudes.

A rotina da comunidade católica em Natal permanece a mesma após a eleição do novo papa. A única alteração, destaca Dom Jaime, é a citação do nome do papa Francisco no início de todas as missas já a partir de hoje. “Apenas o nome do bispo era citado no período que estivemos sem papa”, explica.

Sinos da catedral anunciam novo Papa

Manoel, Ednilson e Wober moram em Natal e trabalham como sacristão na Catedral Metropolitana de Natal há 3, 7 e um ano. Têm como função principal zelar pelo patrimônio da arquidiocese. A rotina puxada foi alterada na tarde de ontem após o anúncio da escola do novo papa. Ficou com eles três a responsabilidade de fazer o anúncio para a comunidade que corria entre um compromisso e outro na Cidade Alta. Por 10 minutos eles tocaram os três sinos localizados na frente da sede da arquidiocese.

O soar ritmado dos três sinos quebrou a rotina da Cidade Alta e chamou a atenção. “As pessoas pararam para olhar, muitas compreendiam a mensagem e outras paravam para perguntar”, disse o Manoel Ferreira da Fonseca, o Neto, 27. O toque que sinalizava a alegria da igreja católica pela escolha de um novo papa é comum em todo o mundo e aqui em Natal foi combinado entre a equipe de sacristãos e o pároco local. “Ele disse que assim que saísse a fumaça branca tínhamos que tocar”, comenta. Neto acompanhava a transmissão do conclave pela rádio. A transmissão direto de Roma foi interrompida por gritos e aplausos e anunciada oficialmente. “Sai correndo e me encontrei com os outros”, disse. A alegria e humildade ao fazer o anúncio é refletida na declaração de Ednilson Dias Marques, 34, há sete como sacristão. “A emoção foi pequena diante da sentida ao acolher o novo pontífice”. O novato na função, Wober Ronald, 19, pouco falou, mas se mostrava feliz com a quebra na rotina.

Os sinos da Catedral Metropolitana soam duas vezes ao dia. Sempre 30 minutos antes de cada missa e por nada mais que um minuto. Os outros casos são em festividades da igreja católica, como a Páscoa que se se aproxima. A eleição do novo papa reativou o terceiro sino da igreja de forma extraordinária, já que o equipamento está desativado para manutenção. “Foi uma ocasião especial”, define Ednilson.

Heitor destaca emoção dos católicos

A alegria pela definição de um novo papa também foi destacada pelo arcebispo emérito da arquidiocese de Natal, Dom Heitor de Araújo Sales. Ele acompanhou o anúncio como a maior parte do mundo, com apreensão e esperança, e celebrou ao identificar a fumaça branca saindo da chaminé instalada no teto da Capela Cistina, em Roma. “A grande alegria é que temos um papa. Podemos ter preferência por esse ou aquele nome, mas é o Espírito Santo que governa a igreja e achar bom que é um nome da América Latina ou não é secundário ao ato de fé de receber um novo pontífice para dirigir a igreja”, declarou.
D. Jaime, na entrevista convocada logo após anúncio do nome de Bergoglio: surpresa e alegria pela escolha de um papa latino-americano
Para Dom Heitor mais importante que a origem do papa foi a emoção transmitida durante a sua apresentação ao mundo. “A gente estava vendo essa emoção nele, não devemos ignorar isso”, pondera. Dom Heitor afirma  que já ouviu falar do cardeal como uma pessoa que tem muita facilidade de relacionamentos. Sobre o novo papa, é sucinto. “Receber uma missão dessa é muito difícil. Devemos agradecer a Deus que temos um papa. Isso me alegra”, finaliza.

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