Frota de carros do RN tem crescimento de 526,81%

Publicação: 2010-10-10 00:00:00 | Comentários: 6
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Fábio Araújo - Repórter

Com o ritmo atual de crescimento da frota de veículos, o poder público consegue apenas realizar ações paliativas para reduzir o caos no trânsito. A opinião quase unânime dos especialistas no tema encontra base nos dados estatísticos, que mostram um impressionante crescimento no número de carros licenciados no Rio Grande do Norte: nos últimos 18 anos, segundo informações oficiais do Departamento Estadual de Trânsito (Detran), a frota potiguar cresceu 526,81%, passando de 121.557 em 1992 para mais de 760 mil veículos este ano. Ninguém precisa ser engenheiro de tráfego para constatar que a infraestrutura viária e de transporte público não acompanhou este salto.

A nova Bernardo Vieira, cujo projeto separou carros particulares dos ônibus, recebeu muitas críticasEm Natal, a frota quadruplicou no mesmo período, passando de 74.275 veículos em 1992 para 298.995 este ano. Um “pulo” de 302,5%. E no interior, o percentual foi maior ainda: quase 880%. Das 47.282 unidades registradas há 18 anos, a frota cresceu para 462.938 e não dá sinais de redução no ritmo. Os dados finais se referem às 15h36 da última quarta-feira, dia 29, e sua evolução pode ser acompanhada em tempo real no site do Detran-RN. Além dos  pouco menos de 300 mil carros em Natal, Parnamirim tem mais de 55 mil. Somados, São Gonçalo do Amarante, Macaíba, Extremoz e Ceará-Mirim agregam mais 32 mil à frota. Assim, pode-se falar em mais de 380 mil veículos circulando na Grande Natal.

O secretário-adjunto de Trânsito da Secretaria de Mobilidade Urbana de Natal, Haroldo Maia, destaca que todas as cidades de médio e grande porte no Brasil já enfrentam problemas de congestionamento.  “Não existem obras de engenharia  para acompanhar o crescimento da frota. Qualquer intervenção que vise o transporte individual é um paliativo que terá efeitos apenas imediatos. A saída é investir no transporte coletivo e garantir espaço segregado para os ônibus. Com essa quantidade de automóveis, não existe solução porque a quantidade de vias não a comporta”, afirma. Para passar da teoria à prática, a Semob recorreu a uma solução comum nas administrações brasileiras: contratou um plano de mobilidade, já em elaboração, que vai traçar o novo desenho da rede de transporte da capital potiguar.

“Como Natal tem uma superposição muito grande de linhas, o plano vai otimizar o sistema. Natal nunca fez uma licitação para a concessão das linhas de ônibus, que vence no final deste ano. Já encaminhamos a proposta para o gabinete da Prefeita e estamos aguardando um posicionamento”, afirma Haroldo Maia. Outra ação considerada fundamental – a criação de mais corredores exclusivos para ônibus – depende também da conclusão deste plano e da decisão final sobre a licitação das linhas. Assim, a prefeitura tem o discurso, mas ainda não conta com uma lista de obras definidas.

Licitação - De acordo com o secretário-chefe do Gabinete Civil da Prefeitura, Kalazans Bezerra, a decisão já está tomada, mas não há um prazo fixado para a publicação do edital. “A licitação vai sair pela primeira vez na história de  Natal. É um assunto extremamente complexo do ponto de vista jurídico, então estamos tendo todos os cuidados para que o processo não corra perigo de ser anulado. A revisão jurídica deve ser minuciosa. Assim que o trabalho for concluído,  o que deve acontecer muito em breve, o edital será publicado”, promete Kalazans. Ele não sabe se haverá tempo para isso acontecer ainda este ano, mesmo com a informação do secretário-adjunto Haroldo Maia de que a concessão das linhas vencerá em 2010.

Natal é a 2ª capital do nordeste com mais carros

Com 32,5 veículos por habitante, Natal é a segunda capital do Nordeste com mais carros, e fica em 15º lugar em nível nacional. Entre as capitais da região, Aracaju tem a maior relação entre veículos e população (35,5). As cidades maiores, com trânsito mais complicado, ficam atrás percentualmente: Salvador tem apenas 20,5 unidades por morador, Fortaleza, 26,6 e Recife, 29,8. A recordista nacional é justamente Curitiba, considerada referência em transporte público desde a gestão do então prefeito Jaime Lerner. A capital paranaense tem nada menos do  que 65,4 veículos por habitante.

“O governo incentiva o transporte individual, facilitando a compra e reduzindo impostos, com o argumento da geração de empregos. Mas o problema que essa política causa na qualidade de vida das cidades é enorme”, critica o secretário-adjunto de Trânsito da Semob, Haroldo Maia. Ele apresenta alguns índices para provar que a dependência do transporte individual não é sustentável. “O carro ocupa 6,4 vezes mais espaço e polui mais do que o ônibus, consome 4,5 mais, é 8 vezes mais caro e é o que mais se envolve em acidentes”, cita. Segundo ele, o exemplo a ser seguido em Natal é a avenida Bernardo Vieira, apesar das críticas feitas à requalificação por motoristas e comerciantes. “Lá passam 130 mil passageiros de ônibus por dia e eles não reclamam”.

Dados da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP) e do Instituto de Pesquisas Sociais Aplicadas (Ipea) mostram que, em 2006, o Brasil gastou R$ 32 bilhões com acidentes de trânsito, a maioria envolvendo veículos privados. “A tendência mundial é criar políticas de restrição ao uso dos automóveis. O município sozinho não tem condições de arcar com os investimentos em transporte. Deve ser uma responsabilidade dividida entre os três níveis de governo”, defende Maia. Para ele, o segredo para convencer as pessoas a deixarem o carro em casa é a credibilidade do sistema de transporte público. “Em Curitiba, passa um ônibus por minuto”, exemplifica.

O adjunto considerada uma “crueldade” o que se faz com o usuário de ônibus na maioria das cidades brasileiras. “O trabalhador arca com todos o custos de transporte, sem subsídio estadual nem federal. Em Natal, a Taxa de Serviço não é incluída no custo. O Governo Federal deveria subsidiar o óleo diesel e facilitar o crédito para aquisição de ônibus.”

Falta estímulo ao transporte coletivo

Se Natal não tem ainda um plano com ações definidas para estimular o transporte coletivo, no  tocante às obras viárias os próximos anos devem ser fartos em investimento. Isso porque a cidade tem garantidos R$ 439,5 milhões para realizar uma série de intervenções estruturadoras, dentro do PAC da Copa. São 18 obras, das quais 13 sob responsabilidade da Prefeitura e o restante do Governo Estadual. As primeiras licitações já foram lançadas e o município espera começar, ainda este ano, as obras do chamado “Trecho Extenso”, que compreende o corredor estrutural oeste (BR-226), em Igapó; o complexo viário da Urbana, entre o Bairro Nordeste e as Quintas, e a reestruturação geométrica da avenida Capitão-Mor Gouveia (até a rua São José), em Lagoa Nova. O prazo para conclusão de todas as obras é 2013, quando acontece a Copa das Confederações.

“O conjunto de obras vai melhorar muito o trânsito e o transporte”, acredita a secretária-adjunta de Planejamento da Secretaria Municipal de Obras Públicas e Infraestrutura (Semopi), Francine Goldoni. Ela explica que a primeira intervenção a ser iniciada vai acabar com a competição entre o transporte coletivo e o individual, além de melhorar o acesso à zona Norte. “As obras vão implantar ciclovia e corredor de ônibus da ponte de Igapó até a Mor Gouveia, na confluência com a rua São José, passando pelo Km 6 e pela Urbana. Serão construídos um pontilhão elevado e um viaduto”, explica. Investimento total de quase R$ 100 milhões, sendo a maior parte do Governo Federal.

Para as demais obras, a Semopi está finalizando os preparativos dos processos licitatórios, que devem começar ainda este ano. Estão incluídos a requalificação dos entroncamentos da Capitão-Mor Gouveia com a avenida Salgado Filho e avenida Prudente de Morais, desta com a Raimundo Chaves e com a Lima e Silva, cuja confluência com a Romualdo Galvão também será melhorada. O plano prevê também a reestruturação da Antônio Basílio e Amintas Barros, com pontilhões elevados e um viaduto. Vários pontos da cidade ganharão novas plataformas de embarque e desembarque para usuários de transporte coletivo, além de melhorias nas calçadas e na sinalização.

Pelo Governo do Estado, serão realizadas a implantação ao acesso entre o novo aeroporto de São Gonçalo do Amarante e a BR-406, os entroncamentos da avenida Engenheiro Roberto Freire com a avenida Ayrton Senna, rua Missionário Gunnar Vingren e a Via Costeira, além de mais uma etapa do prolongamento da Prudente de Morais (ligação entre o aeroporto Augusto Severo e a Arena das Dunas).

Novas vias ficam logo saturadas

Mesmo quando há disponibilidade de recursos, outros fatores impedem as prefeituras de realizarem obras em quantidade suficiente para contrabalançar o crescimento acelerado da frota de veículos. Limitações de espaço físico, questões de desapropriação e até problemas ambientais são citados pelo professor Moacir Guilhermino, especialista em transportes do Departamento de Engenharia da UFRN, como entraves à realização das intervenções. “Por mais que se construam vias, elas logo ficam saturadas. A velocidade de crescimento do transporte particular é muito maior do que a oferta de transporte público. É preciso encontrar um equilíbrio”, afirma o professor.

Ele observa que as pessoas se voltam, cada vez mais, para os veículos individuais, inclusive as motos, que estão crescendo de forma “estrondosa”. E há também grande discrepância nas políticas públicas. “Enquanto o governo federal estimula o carro, o que tem feito para incentivar o transporte público? Qual o incentivo dado à redução da tarifa?”, questiona Guilhermino. Como consequência, o especialista aponta que o transporte coletivo torna-se caro e não atende às necessidades do usuário. “É uma luta de gato contra rato, com ações paliativas que não acompanham o aumento da frota. Há dez anos, a BR-101 tinha um fluxo razoável de Parnamirim a Natal, mas hoje é um inferno. E não se tem mais como duplicá-la”, exemplifica.

De acordo com ele, uma vez estabelecidas as cidades com seus assentamentos urbanos, qualquer nova proposta fica difícil de ser implantada.  “O ideal é ter vários modais, privados e públicos. Ônibus, trem, metrô, táxi, com diversidade de oferta que atenda a demanda.

Em 1975 já se pedia para salvar trânsito de Natal

“Trânsito:  a hora de salvar a cidade”. O título da reportagem poderia ter sido feito hoje. Mas é do dia 13 de abril de 1975, quando a TRIBUNA DO NORTE dedicou toda a página 6 do 2º Caderno para abordar a problemática da circulação de veículos na capital potiguar.

O texto, assinado pelo então repórter Edilson Braga – hoje na função de secretário de Redação – manifestava a esperança de que a chegada do engenheiro Luciano Pamplona, diretor-técnico do Detran de Fortaleza, ajudasse a encontrar “uma solução para esse trânsito louco de Natal”.

O especialista receberia o plano de transformar a rua Mário Negócio em mão única, que encontrava dificuldades devido à “precariedade das ruas transversais que servirão para evacuar o tráfego daquela movimentada rua”. A matéria citava também a recente pavimentação da avenida Bernardo Vieira e falava das dificuldades para mudar o itinerário dos ônibus devido à má conservação das vias próximas.

A reportagem dava continuidade a outra, publicada uma semana antes, que mostrava outros aspectos do tema. O trabalho registrava, por exemplo, que de janeiro a novembro de 1974, o trânsito em Natal matara 57 pessoas e deixara 312 feridas, em 1.057 acidentes, 135 a mais do que no ano anterior.  A deficiência da rede semafórica era denunciada – havia 20 equipamentos nas ruas, quando o dobro era necessário.

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Comentários

  • jair_amil

    Quer dizer que cada habitante tem 32, 5 carros? Nossa! Eu muito mal tenho um. Acredito, assim como os demais, q a informação correta é 32,5 carros por cada 100 habitantes. Outra coisa, a BR 226 não fica em Igapó. É a continuação do Km 6, na zona oeste e vai até Macaiba. Infelizmente não podemos mais confiar em jornal como fonte de informação.

  • vandasbmesquita

    Como agora virou moda culpar-se Lula por tudo de ruim que acontece, eu vou aqui deixar meu mais indignados protestos contra esse governo do sr. Lula que proporcionou que o \"pobre\" comprasse também seu carrinho financiado. Sr. Lula para que pobre quer carro? deixa isso para a classe média ou alta, como era o caso do antigo governo tucano. Veja só segundo pesquisas até comendo melhor o pobre está no governo do Sr. Lula, pode? daqui a pouco aparecerão muitos pobres obesos, privilégio só dos ricos protegidos pelo sr. FHC e sua tucana. Se você é rico e quer que se retire todos os carros populares das ruas votem em SERRA para presidente, ah! se você é daqueles que não suporta ver pobre comendo queijo e presunto igual a você, vote no SERRA para presidente ele promete que você seja o único privilegiado.

  • pablocampolargo

    É muito carro na rua porque o transporte coletivo é muito ruim em Natal e na região metropolitana. Mas no campus da UFRN o CIRCULAR CAMPUS que faz a INTEGRAÇÃO com as outras linhas consegue ser ainda pior. Todos os dias é a mesma espera e as pessoas chegando atrasadas. Ônibus velhos, lotados, poucos horários e ainda alguns motoristas mal humorados. Por que? Porque as pessoas que gerenciam o transporte coletivo não andam de ônibus: andam de carro novo, com motorista educado, suspensão nova, som, ar condicionado.

  • marceloh.sa

    Os políticos e técnicos da administração municipal se escondem atrás desses numeros pra sua encobrir sua incompetência. Algumas medidas simples muitas vezes produzem melhorias significativas no trânsito. Exemplo disso é o cruzamento da Salgado Filho com a Bernardo Vieira. Os ônibus que saem da BERNARDO e acessam a SALGADO FILHO tem enorme dificuldade de fazer essa manobra, devido à falta de espaço e ao tamanho dos veículos. A desapropriação dos imóveis daquela esquina daria o espaço suficiente pra essa manobra sem causar tantos transtornos ao trânsito.

  • deuto_lima

    Falta uma revisão geral nas ruas e avenidas da cidade. Um exemplo claro eu percebi nessa semana que passou, é apenas um exemplo real: Av. Purdente Morais, precisamente em frente a Delegacia de Candelária, o ônibus em que eu estava, linha 35, o motorista ficou esperando um tempão para fazer um simples retorno no local, pois a fila de carro era grande do sinal sentindo prudente morais para cidade satelite, onde cruza a av da integração. Bem na minha opinião de simples cidadão, era apenas diminuir bem o canteiro no retorno, que o ônibus teria feito o retorno sem muita demora, como ocorreu, cheguei a comentar com o Sr. Mortorista e o Sr. Cobrador e eles concordaram que realmente seria uma solução bem simples. Acho que um bom começo seria pelas empresas de ônibus, acredito que o que for bom para facilitar a melhora do fluxo do transporte coletivo de Natal, vai ser melhor para toda população. Seliento também que fiz uma reclamação no 156 desde o dia 01 de outubro para o conserto da boteira do sinal 021A o único sinal de pedestre na av. prudente morais em candelária e até o momento não foi solucionado, número da ocorrência 29960 e saliento que já liguei cobrando no dia 08/10 e ainda continua sem funcionar. deuto_lima@yahoo.com.br ... apenas querendo um pouco de funcionamento melhor para nossa cidade.

  • damiao

    Fábio Araújo, Gostaria de parabenizá-lo pela reportagem, achei excelente a idéia de comparar as condições do transito de Natal de hoje com a de 1974 e da tua conclusão de que o transito é um problema insolucionável se for priorizado o transporte individual, em detrimento do transporte público. Mas acho que há um equívoco no sexto parágrafo quando você afirma que Natal conta \"com 32,5 veículos por habitante\". Gostaria que você confirmasse essa informação.