Fuga arrependida

Publicação: 2021-02-21 00:00:00
« Marcelo Alves Dias de Souza  »
Procurador Regional da República •  Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL •  Mestre em Direito pela PUC/SP

Acredito que é de Jorge Luis Borges (1899-1986) a seguinte frase: “um livro que não merece ser relido não merecia ter sido lido”. E se a dita cuja não é dele, fica sendo. É mais que uma honra ter uma frase minha atribuída ao autor de “Ficciones” (1944) e “O Aleph” (1949).

Bom, há livros que li, reli e lerei novamente. “Civilização” (1969), de Kenneth Clark (1903-1983), “A era da incerteza” (1977), de John Kenneth Galbraith (1908-2006), “O nome da rosa” (1980), de Umberto Eco (1932-2016), “Amor a Roma” (1982), de Afonso Arinos de Melo Franco (1905-1990) e “O século dos intelectuais” (1997), de Michel Winock (1937-), são alguns títulos que me vêm logo à cabeça. Eles formam a minha “Biblioteca de Babel”, aquela biblioteca “ilimitada e periódica”, na qual, “se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direção, comprovaria ao fim dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, reiterada, seria uma ordem: a Ordem)”, para usar das palavras do grande argentino, duvidosamente citado no início deste riscado. Essas obras contêm mil e uma realidades, ainda escondidas e à minha espera para decifrá-las.

Mas há também livros que simplesmente não consegui ler. E olhem que eram maravilhas da literatura. De dois deles eu me recordo muito bem. “O jogo das contas de vidro” (1943), de Hermann Hesse (1877-1962), que é considerado o testamento literário do escritor germano-suíço. Trata-se de uma visão de um futuro, uma distopia – ou, melhor, uma antiutopia –, na qual nossa civilização, sobretudo nossas artes e nossa ciência, será preservada a partir de um jogo lúdico por ele imaginado. Abandonei essa “viagem” no comecinho. E algo parecido se deu com “Auto-de-fé” (1935), de Elias Canetti (1905-1994), a estória do professor Peter Kien, filólogo e sinólogo, homem excêntrico e solitário, que, expulso da sua imensa biblioteca, da sua “caverna”, é levado a conhecer o mundo exterior, topando com as suas inúmeras personagens, reais ou fictícias. É um livro enorme. Culto. Não consegui ler. Parei.

“O jogo das contas de vidro” e “Auto-de-fé”, curiosamente, são ditos “livros para escritores”. E se o primeiro requer um bom conhecimento de música (não é o meu caso), “Auto-de-fé” é um “livro sobre livros”, o que é uma das minhas paixões. Deveria, portanto, adorá-lo. Uma explicação para tê-los abandonado é que talvez eu não estivesse preparado, à época, para essas leituras. Mas também já li que isso é um fenômeno comum. Simplesmente, mesmo em se tratando de vencedores do Nobel de Literatura, o livro não bate. E temos de aceitar isso.

De toda sorte, sinto-me em dívida para com Hesse e Canetti. Rebelei-me contra eles. Fugi dos seus mundos.

Quanto a Hesse, preocupo-me menos. É um “querido”, como se diz hoje em dia. Li-o em outras versões. E, pelo que aprendi com Otto Maria Carpeaux (1900-1978), em “A história concisa da literatura alemã” (Faro Editorial, 2013), a própria vida de Hesse foi marcada por rebeliões e fugas: contra a educação religiosa de seus pais; contra os secos estudos clássicos; contra a educação físico-militar e a sua disciplina; contra a moral burguesa e o casamento; contra o militarismo e imperialismo da Alemanha. Então, se me rebelei e fugi do seu “Jogo”, ele vai entender. Assim acredito.

Mas não estou certo disso quanto a Elias Canetti. É verdade que Canetti, embora nascido no que é hoje a Bulgária, viveu em vários outros países. Mas acredito que foram fugas forçadas por conflitos e guerras. Ele graduou-se em química – que é profissão séria! Era um teórico da linguagem e da sociedade. Um filósofo e um memorialista do seu tempo. E o seu anti-herói, o professor Peter Kien, claro, odiou quando foi “fugido” da sua biblioteca. Visto isso, arrependo-me da minha rebeldia. Devo voltar ao “Auto-de-fé”. Logo. E talvez escrever algo sobre ele aqui.

E, agorinha mesmo, acho que vou “fugir” esse Auto da biblioteca do meu pai, uma Babel que é para mim, nesse sentido, sempre infinita.