"Funpec viabilizou integração da universidade e sociedade"

Publicação: 2018-10-21 00:00:00 | Comentários: 0
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Luiz Henrique Gomes
Repórter

A Fundação Norte-Rio-Grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec) completou 40 anos de existência na última sexta-feira, 19. Fundada em outubro de 1978 pelo reitor Domingos Gomes, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como uma entidade privada e sem direitos lucrativos, a Fundação teve como finalidade a promoção às pesquisas científicas, com o papel de ser o intermédio entre o pesquisador e a sociedade. Nesses 40 anos, a Funpec participou de diversas pesquisas para empresas como Petrobras e órgãos como Ministério Público e contribuiu para o desenvolvimento desses órgãos.

Diretor da Fundação Norte-Rio-grandense de Pesquisa e Cultura (FUnpec), André Laurindo Maitelli
Diretor da Fundação Norte-Rio-grandense de Pesquisa e Cultura (Funpec), André Laurindo Maitelli

Durante a história, a Fundação passou por algumas mudanças, sempre com o propósito de se manter contemporânea às feitas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Com a expansão de programas de pós-graduação, a partir dos anos 2000, a Funpec expandiu as áreas de atuação. Hoje, conta com mais de 200 projetos, espalhadas nas áreas de agricultura, cultura, educação, meio ambiente, saúde e tecnologia. Os recursos geridos superam R$ 500 milhões.

Os recursos para a manutenção da Funpec são provenientes desses projetos. Uma quantia do orçamento de cada projeto é destinada para a gestão, que é a responsabilidade da fundação. Para evitar fraudes com o uso do dinheiro público, as auditorias dos projetos são realizadas pela Controladoria-Geral da União e demais órgãos de transparência.

O atual diretor da instituição, o professor de engenharia de computação André Laurindo Maitelli, está ligado a Funpec há 20 anos, quando começou a desenvolver pesquisas intercambiadas pela instituição. À TRIBUNA DO NORTE, Maitelli falou sobre a realidade atual da Funpec e a sua importância para a sociedade. Leia a entrevista:

Nesses 40 anos de Funpec, o senhor acha que a Funpec cumpriu bem o papel de integrar a sociedade e a universidade? E como cumpriu esse papel?
Sem dúvida, esse papel é cumprido. A Funpec começou a sua história há 40 anos e começou, obviamente, com poucos projetos. Durante um período, foi expandindo e aí a gente pode dizer que a Funpec contribuiu para várias áreas. Eu poderia citar aqui a área de petróleo, que foi desenvolvidas pesquisas de desenvolvimento e inovação, principalmente a partir dos anos 2000. Vários prédios foram construídos na universidade em função dessas pesquisas. Elas foram, de certa forma, viabilizadas pela Fundação. Os resultados dessas pesquisas foram transferidos, para a própria Petrobras, a empresa que contratou o projeto. Hoje, eles usam sistemas e metodologias desenvolvidas para melhorar a sua produção e se tornar uma empresa mais eficiente.

Com o surgimento da Funpec até hoje, quais foram as principais mudanças conceituais?
A maior mudança foi em meados da década de 90. Até então, os funcionários da Fundação eram funcionários da universidade. A partir desse período, através de uma lei, teve uma lei que proibiu isso. Nesse momento, a Fundação teve que realinhar. Todas as pessoas que eram da universidade saíram, e a Fundação passou a contratar funcionários para desenvolver atividades dos projetos. Esses projetos requerem todo cuidado na sua execução, então você tem que ter o setor dos recursos humanos; tem que ter um setor de prestação de contas bem montado; um setor que controle a execução dos projetos.

Com as mudanças sofridas pela universidade, como expansão e mudança no perfil dos alunos, a Funpec foi afetada de alguma forma?
A gente acaba sendo afetado, tendo que respeitar as mudanças. Recentemente, recebemos uma determinação do Ministério do Trabalho para incluir uma conta de negros e negras como estagiários. Atendemos também a conta dos jovens aprendizes, de deficientes. Isso acontece dos últimos dez anos para cá.

Para os próximos anos, qual é a linha a ser seguida pela Funpec?
A minha chegada na direção foi muito em função da minha experiência como coordenador de projeto executado pela Funpec, há mais de 15 anos. Eu recebi a Fundação bem organizada pela gestão anterior. A gente está dando continuidade visando a modernização da instituição. Precisamos melhorar a nossa eficiência, modernizando nossos sistemas de tecnologia da informação. Já trabalhamos com desenvolvimento de aplicativos, que possa facilitar a interação entre o coordenador e os técnicos da Funpec. A gente vai trabalhar agora na redução de papel, melhorando a tramitação eletrônica de documentos.

No período mais grave de crise econômica, isso chegou a afetar a Funpec?
No passado, sim. Nessa crise recente, não. A gente conseguiu captar, através dos pesquisadores da universidade, projetos volumosos, que nos deram uma certa garantia. As gestões também tem um cuidado de não deixar o orçamento muito apertado, sempre com uma boa folga para que você possa superar uma crise. Essa preocupação é constante porque imagina você não ter recursos suficientes para não pagar a folha dos funcionários? A gente tem que contar que pode ter uma época que não tenha projetos.

E o que vocês fazem para evitar essa escassez de projetos?
Essa é uma outra frente que a gente tem que atuar: a captação de projetos externos. Em geral, os projetos são viabilizados pelos professores da universidade, que conseguem através dos seus contatos os projetos. Agora, a gente está trabalhando na captação externa dos projetos, ou seja, vamos em campo procurar oportunidades e colocar a universidade em parceria com as empresas. Há algum tempo já se tem esse pensamento. Neste ano, contratamos uma pessoa exclusiva com essa intenção [de captar projetos]. É importante ressaltar que a universidade tem vários pesquisadores competentes e, muitas vezes, existe uma necessidade do mercado de utilizar competência de uma determinada área, mas um não conhece o outro e a oportunidade não é aproveitada. Por isso, é importante que haja essa ligação. É a Funpec que pretende expandir essas ligações.

De que maneira?
Hoje, ferramentas de tecnologia da informação podem ajudar. Muitos dados estão na internet, como, por exemplo, na plataforma Lattes. Todo pesquisador faz o cadastro da sua produção científica, sua experiência. Já foi proposto aqui reunir essas informações do Lattes em um aplicativo que reúna os dados e quem quiser saber e existe algum pesquisador sobre determinado assunto na universidade ou um dado setor é só procurar nesse aplicativo. Aí ele já entra em contato com o pesquisador, vê o que ele publicou, a experiência. Isso é um plano que está em parceria com uma empresa, estamos tentando chegar em um acordo.

O histórico da Funpec é estar aumentando o número de projetos ou vocês oscilam muito?
Houve um período que o número de projetos aumentou, nos últimos 15 anos, mas voltou a diminuir de uns três a quatro anos para cá. Mas o que acontece é que o volume reduzido de projetos aumentou o orçamento. Nós temos menos projetos hoje, mas um volume de recurso maior em média por projeto. A gente tem projeto hoje de, por exemplo, R$ 165 milhões. É um projeto que vai nos dar visibilidade, contratado pelo Ministério da Saúde para contribuir na redução de infectados pela sífilis. Envolve compra de equipamentos para hospitais do Brasil inteiro, montagem de salas para videoconferência, propaganda. É um projeto grande com participação do departamento de Engenharia de Biomedicina.

Isso faz parte de um planejamento ou acabou acontecendo espontaneamente?
Se eu disser que foi planejado, estarei mentindo. Surgiu naturalmente. Na verdade, eu acho que tudo é uma consequência. A universidade amadurece, vai mostrando os resultados e novos grupos de pesquisa vão surgindo. Esse grupo de Engenharia Biomédica é recente, tem menos de dez anos na universidade. É um grupo que foi beneficiado pelo Reuni, que possibilitou a contratação de muita gente, aumentou o número de doutores, de pesquisadores.  Tudo isso possibilitou o surgimento natural dessas pesquisas na universidade. Por outro lado, a própria Fundação tem uma importância nisso porque faz um trabalho sério e respeitado, assim você consegue convencer os órgãos a trazerem os projetos para a UFRN, não para outra universidade. É uma consequência.

Vocês temem a descontinuidade de projetos com órgãos públicos a depender da administração que esteja a frente, politicamente? Não somente no âmbito Federal, mas no Estado, Município...
Eu acho que tem coisas que nós não temos controle. Eu diria que a Fundação hoje está preparada para enfrentar um período de dificuldades. Eu espero que isso não ocorra, mas é claro que é difícil fazer uma previsão. Tem determinadas ações que hoje são determinados pelo Ministério Público, por outros órgãos. Mas eu acredito que as perspectivas são boas a curto prazo porque a área de petróleo está expandido, a Petrobras voltou a investir de forma mais intensa nos projetos. Outras empresas multinacionais estão investindo, como a Shell. A gente tem boas perspectivas.

Para terminar, qual a maior contribuição que o senhor acha que a Funpec deu para a sociedade?
É difícil de falar porque eu não vivi todos os 40 anos da instituição. Eu vivi metade. Eu vejo que se não existisse a Funpec, talvez a universidade não fosse nem a metade do que é hoje, em termos de suas áreas de atuação, seu respeito. As contribuições são inúmeras: para construção de prédios, consolidação de cursos de pós-graduação, consolidação de grupos de pesquisa. Quando eu falo em um prédio, eu estou falando de um laboratório que vai servir para apoiar outros não necessariamente da área financiada inicialmente. A Funpec viabilizou a integração da universidade e da sociedade através do desenvolvimento de pesquisas aplicadas, que trazem resultados de médio e longo prazos. Tudo isso tem efeito não somente imediato, mas para o futuro. Particularmente, eu posso falar de um projeto que coordenei com a Petrobras que foi um software desenvolvido, hoje utilizado para supervisionar os postos de petróleo no Brasil todo. A Petrobras deixou de comprar isso de fora, então certamente o custo da pesquisa foi muito menor que o benefício econômico que a empresa teve.


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