Futebol sem arte, na base da força, domina emoção popular em tempo de política decisiva

Publicação: 2010-06-20 00:00:00
Distante e até indiferente do disse-me-disse da política, a nação brasileira está confiante, torcendo nervosamente, ansiando por explodir, hoje, com o bom resultado da seleção brasileira de futebol contra a Costa do Marfim, classificando-se para as “oitavas de final”.

“Futebol resultado” ou “futebol arte”? Diz Vulgo da Silva cheio de razão que, em jogo de decisão, vale o resultado e complementa com rima sem arte que, em jogo valendo o campeonato, “bolas até para o mato”. Enfim, a nação brasileira está torcendo pelo “futebol da saudade”, o futebol que sempre encantou com Ronaldinho Gaúcho, Gerson, Garrincha, Pelé, Ronaldo Fenômeno, Leônidas, Tostão e tantos outros craques, que construíram a trajetória bem sucedida do futebol brasileiro, até a disputa pelo hexa campeonato, hoje, na África.

A seleção brasileira tem outro fator pró “futebol resultado”, não tem nenhum jogador ídolo. A maioria dos seus jogadores, integrantes da Seleção, joga em times da Europa que pagam em dólar contra o ainda engatinhando real. A torcida queria craques que jogam no Rio e em São Paulo, as praças de futebol mais valorizadas no Brasil. O técnico Dunga preferiu convocar jogadores que jogam na Europa.

Politicamente sem atração

Mas, esta semana os políticos entram em campo com mais força, realizando as convenções faz de conta – na maioria – para oficializar as candidaturas conhecidas. No plano nacional, José Serra foi lançado e oficializado pelo PSDB, Dilma Rousseff foi oficializada pelo PT-PMDB-PDT e Marina Silva pelo PV. Solenidades, discursos, festas, enfim. Mas sem participação popular.

No plano local, a oficialização ainda vai acontecer. A chapa Carlos Eduardo/Álvaro Dias está completa. A chapa Rosalba Ciarlini/Robinson Faria também. A chapa de Iberê está prometida para até sábado ser completada com o candidato a vice. As convenções vão competir com os bares de calçadas, movimentados pela Copa Mundial de Futebol. Uma vantagem para os convencionais: a Seleção Nacional não jogará sábado próximo.

Depois do campeonato

Politicamente, as convenções valem como atos oficiais, burocráticos, no passado realizadas com grande participação popular. Hoje, o PTB vai fazer a sua convenção meramente cartorial, para oficializar sua dissidência, sem candidato próprio ao Governo do Estado com Henrique Eduardo apoiando um candidato e Garibaldi Filho apoiando outro.

O PDT vai ocupar a Cidade da Esperança. Sua convenção será no ginásio de esportes ainda de pé, mas ameaçado de ser demolido pela prefeita do PV. Se não houver mudança de decisão, os demais partidos não farão grandes movimentações populares, tendo como justificativa a realização dos jogos da Copa, na África, mas a televisão traz o torcedor para o “estádio” que cada um escolhe para assistir, desde a sala de sua casa, até para o bar preferido.

A Campanha para governador, senadores, deputados federais e estaduais começa para valer depois da Copa de Futebol na África.

Estória da história

Na campanha eleitoral para minha eleição, evitei assumir o compromisso de construir o estádio de futebol que Natal merecia. O velho Estádio Juvenal Lamartine estava superado no todo. Não havia outra maneira de ajudar no desenvolvimento do nosso futebol. O América voltara para a FNF. Tudo bem. As rendas melhoraram. Mas não o suficiente. A torcida do campo era multiplicadamente maior do que a que assistia aos jogos.

Decidi pelo local. O terreno doado à Federação de Futebol pelo ex-governador Dinarte Mariz. Faltava o projeto. Fui informado de o arquiteto conterrâneo, Moacir Gomes, desenvolvera um ante-projeto. Mas não fora além.

Fui procurá-lo na residência dele. Moacir me recebeu com ceticismo. A Prefeitura construir? Nem o Governo do Estado sozinho teria condições... De qualquer maneira, pedi para ver o ante-projeto.

Creio que por uma questão de delicadeza pessoal e atenção para comigo, Moacir concordou em mostrar o ante-projeto e fazer uma exposição minuciosa, demorada, sobre o que estava projetando, mas interrompera por várias razões. Estava trabalhando, também, outros projetos com execução garantida. O estádio era apenas um sonho...

 – Quanto custa o projeto? Perguntei.

– Nenhum centavo. Se for para construir, concluo o projeto, faço a doação à Prefeitura com apenas um compromisso: quero acompanhar a construção – respondeu Moacir Gomes.

– Então, conclua o projeto. Vou construir o estádio – fui claro e decidido. Pedi apenas reserva. Eu mesmo queria anunciar.

De volta à Prefeitura, adotei todas as providências. Terreno escolhido. Projeto em final de elaboração. E financeiramente, iria buscar o dinheiro, tostão por tostão, através de:

1)Dotação própria da Prefeitura;

2)Bingos;

3)Governos Federal e Estadual;

4)Venda de cadeiras cativas;

5)Na fase final, loteamento do terreno do Juvenal Lamartine, conforme compromisso de João Machado, presidente da Federação.

Todas essas providências, etapa a etapa, precisavam ser vencidas para ganhar credibilidade. Criei uma fundação – FENAT – para a qual convoquei desportistas acima de qualquer partido, nomeando Ernane Silveira, vice-prefeito, para presidi-la. 

Comecei a obra ante a descrença generalizada. O arquiteto Moacir Gomes praticamente largou o próprio escritório, transportando-se para o canteiro de obras para acompanhar os trabalhos.

– Um estádio para a onça jogar – manchete de um jornal da cidade quando descobriu o início da construção “num matagal inexpugnável até pelo difícil acesso”.

Um dia, o coronel comandante do Batalhão de Engenharia do Exército, Eliano Moreira, apareceu no canteiro de obras. Conversamos. Ele queria colaborar com a construção. Estava recebendo poderosas máquinas que poderíamos colocar na terraplanagem do terreno. Não tinha dotação para o combustível. Estava resolvida uma etapa cara e importante. Entusiasmo geral. Foi feita de uma só vez, em dez dias, incluindo aí o sábado e o domingo. Por falta de recurso financeiro, estava programada a execução etapa a etapa.

O estádio começava a tomar forma, suas formas além do chão. Os alicerces estavam concluídos. Ninguém sabe, exceto os engenheiros e os arquitetos, mas há um outro estádio enterrado, sustentado com alicerces, além do estádio que todos nós conhecemos. A ajuda do batalhão de Engenharia do Exército provocou uma situação curiosa, no mínimo. Quando do inquérito para apurar os gastos com o Estádio, só um item estava em aberto, sem uma “explicação”.  O gasto com o óleo Diesel numa quantidade que achavam sem lógica.

 – Perguntem ao coronel Eliano Moreira. Ele foi quem emprestou as máquinas. A Prefeitura entrou apenas com o óleo combustível...

O pano desceu rápido.