Galeria Potiguar I: Raimundo Soares, o prefeito que não quis ser governador!

Publicação: 2020-07-01 00:00:00
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Elviro Rebouças
Economista e empresário

Nascido em Caraúbas, em 01 de julho de 1920, vivo fosse o Dr. Raimundo Soares de Souza, filho do Desembargador Silvério Soares e de Eponina Fernandes de Oliveira, matrimoniado com Da. Iolanda Medeiros Soares de Souza, com quem construiu uma prole numerosa, formou-se no Recife, em 1943, sob as famosas arcádias da Faculdade  de  Direito, fixando, a partir daí, residência em Mossoró, já  com fama de brilhante advogado e  orador, passando a ser apreciado quer  no Tribunal do Juri , como Promotor de Justiça, em Jardim do Seridó, Areia Branca e Ceará Mirim. Foi advogado das grandes empresas da época, Cia. Comércio e Navegação, F.Souto, Indústria e Comércio, Mossoró Comercial, Cia. F. Matarazzo, dentre outras, gravitando com invulgar inteligência e capacidade dentre os seus mediadores. Vivo fosse, numa larga mesa com amigos, indistintamente de classe social,  e agora com 100 anos de existência, estaria  com certeza, dedilhando com galhardia o seu inseparável violão, aos sorvos abundantes de um bom scotch,  cantando as melhores músicas da MPB ,ou os calientes do currente calamo italianos, como  O Sole Mio de  Claudio Villa, Caruso de Lucio Dalla,  Nessun Dorma, com Luciano Pavarotti, os tangos inesquecíveis de Astor Piazzolla e Carlos Gardel. Era assim que ele gostava de viver.

Esbanjando simpatia e revestido de larga cultura humanística, adentrou à política partidária, e em 1953 disputou pela oposição e na  UDN à Prefeitura Municipal, sendo vencido pelo saudoso  homem público, Vingt Rosado, de tão nobre espírito de coletividade, irmão e sucessor político de Jerônimo Dix-sept Rosado Maia, que eleito triunfalmente  Governador em 1950, e  sob um pranto, sem divisão de partidos, seis meses depois de empossado, o Rio Grande do Norte perdera em 12 de julho de 1951, no funesto acidade aéreo do rio do Sal, em Sergipe.     
Raimundo Soares perdeu a eleição, mas expôs o seu nome no tabuleiro político do Estado, principalmente como um tribuno vibrante e arrebatador. Em 1958, candidato a Deputado Federal, ganhou a primeira suplência, chegando a assumir à Câmara Federal, onde mesmo temporariamente mostrou talento e entusiasmo pela vida pública, causando boa impressão ao maestro da banda de música da aposição, ninguém menos que o Deputado Carlos de Lacerda. Em 1962, disputando novamente a Prefeitura, contra o médico Duarte Filho, e apoiado por Vingt, logrou êxito, por 267 votos de maioria. Tomou posse em 31.03.1963, empreendendo uma administração inovadora, nos métodos e na visão, exitoso e ficando raízes na lembrança do povo sem radicalidade com adversários. Amigo dos seus filhos Silvério, José Walber, Arlan e Isadora, frequentando sua casa, à Rua Dr. Mário Negócio, em 1966,lançado pela classe estudantil,  fui eleito o vereador mais votado de Mossoró,  aos 20 anos de idade, pela oposição, sendo muitas vezes procurado por ele, na casa dos meus pais, ou através de João Batista Cascudo Rodrigues, Presidente da FUNCITEC , embrião da FURRN, para ir ao seu encontro na própria Prefeitura, para trocar ideias de sua administração, por exemplo quando criou  duas Universidades, a Regional, hoje UERN, e a ESAM, hoje UFERSA, esta última sendo de imediato federalizada, como faculdade isolada,  graças aos ingentes esforços do então Presidente do INDA, ex-Senador  Dix-huit Rosado, com o mérito de ter sido sonhada e projetada pelo seu irmão, engenheiro agrônomo Vingt-un. Nunca me neguei a esse proficiente diálogo, e mantivemos sempre, com idades bem díspares , excelente relacionamento político e pessoal. Logo vi nele um “Tribuno , boêmio e Menestrel”.

Em 1965, o então governador Aluízio Alves, de tanta saudade até hoje para o Estado, depois de realizar uma obra administrativa inolvidável, na Saúde, na Educação, Industrialização, Paulo Afonso , dando energia e força motriz ao Estado, da COSERN, CASOL, TELERN, se tornou no grande líder incontroverso, convidou o Dr. Raimundo para sucedê-lo, apesar de pertencerem a partidos adversários. O candidato, pela legislação eleitoral vigente, só bastava se licenciar da Prefeitura, para ascender à postulação do Governo. Ele aceitou, a convenção partidária marcada, Natal com faixas e cartazes já homenageava o “Sucessor de Aluízio”, seria como uma nomeação. O Rio Grande do Norte vibrou. Revolto em pressões  partida dos  líderes que o haviam indicado à Prefeitura, Raimundo Soares de Souza, amargurado,  se exilou no Rio de Janeiro, de onde postou um telegrama Western a Aluízio, na undécima hora,  renunciando a  candidatura, melhor dizendo, a sua designação para ser o Governador do Rio Grande do Norte, tendo sido substituído , incontinenti , pelo cândido Monsenhor Walfredo Gurgel, que de 1960 a 1965, sempre com o apoio de Aluízio, conseguiu o feito de ser Vice-Governador, presidindo a Assembleia Legislativa, (1960), Senador da República (1962) e Governador do Estado (1965).

Por força do regime discricionário de 1964, o seu mandato foi prorrogado por dois anos , concluindo somente, em 31.01.1969, quando nós oposicionistas, contra Raimundo,  elegemos e empossamos ,pelo sufrágio popular,  Antônio Rodrigues de Carvalho, como novo alcaide.  Saiu da Prefeitura mais pobre do que entrou, sem uma casa para morar. Abandonou à política , e se  transferiu para o Rio, contemplando o estudo dos filhos em cursos superiores, e servindo à  Cia. Federal de Seguros, Confederação Nacional do Comércio  e ALCALIS. Tempos depois voltou, para residir em Natal, vindo a falecer em 30 de outubro de 1996.

Vi-o pela última vez, poucos meses antes de sua partida, na praia de Upanema, em Areia Branca, cidade pela qual  tinha predileção,  na casa de Chico Boquinha. Sabedor que eu estava hospedado, com minha esposa Niná,  no hotel Litorâneo, mandou me chamar, e o encontrei alegre,  tomando whisky ,lucidez perfeita, mas com a saúde física já  muito debilitada , ao lado de seus filhos e outros amigos locais. 

Depois dos discursos de praxe,  perguntei-lhe ,de chofre ,se não havia arrependimento de sua parte por não  ter ilustrado o Governo e o  Estado. O seu sufocante silêncio e a face banhada de lágrimas me foram suficientes como resposta, que na verdade ele não explicitou!