“Garantir a mobilidade, em toda a sua plenitude, é, também, garantir negócios”

Publicação: 2012-08-23 00:00:00
Isaac Lira - repórter

Para Marcelo Queiroz, presidente da Federação do Comércio do RN, a resolução dos problemas de mobilidade de Natal é fundamental para o desenvolvimento da cidade, principalmente por conta da influência negativa dos problemas de trânsito no setor produtivo. “Todos os setores do comércio, serviços e turismo são afetados. O comércio de rua, podemos dizer, que sofre um pouco mais porque fica à mercê das questões de engarrafamento e de estacionamento. Se o cliente fica preso num engarrafamento, ele desiste de ir às compras ou, no mínimo, passa menos tempo consumindo”, aponta. Este será um dos assuntos abordados no próximo seminário Motores do Desenvolvimento. O Projeto Motores do Desenvolvimento do Rio Grande do Norte, realizado pela TRIBUNA DO NORTE, Sistema FECOMERCIO/RN, Sistema FIERN, UFRN e GOVERNO DO ESTADO do RN, com apoio do BNDES e patrocínio da Assembleia Legislativa do Estado do RN, Ale e Seturn, terá como tema TRANSPORTES E MOBILIDADE URBANA. O Seminário, 3ª edição de 2012, será realizado no próximo dia 27 de agosto, segunda feira, no Serhs Natal Grand Hotel, Salão Bossa Nova, 1º piso, na Via Costeira, às 8h.
Marcelo Queiroz, presidente da Federação do Comércio do RN: Temos a consciência de que garantir o estacionamento hoje é obrigação de cada loja, prédio, estabelecimento. Entendemos também que a rua é local para os carros andarem
Este é o quinto ano do projeto Motores do Desenvolvimento e o tema Mobilidade e Transporte o 15º tema trabalhado desde o início, em 2008. Outras temáticas, como indústria, inovação e tecnologia, educação, turismo, já foram abordadas pelo Motores do Desenvolvimento. As inscrições são gratuitas e já estão abertas, porém as vagas são limitadas. Para se inscrever, é necessário ligar para os telefones 4006.6120 ou 4006.6121, durante o horário comercial.

Como as questões e os problemas de mobilidade afetam o cotidiano do comércio potiguar? Problemas como engarrafamentos, falta de estacionamentos, etc, afetam o dia a dia dos estabelecimentos?

Claro que afetam, e muito. Todo o trabalho de promoção que as empresas do comércio e serviços fazem para levar o cliente às suas lojas, o cuidado com o estoque, com o preço, o investimento na capacitação de pessoal para ter um bom atendimento; tudo isso vai por água abaixo se o cliente simplesmente não consegue chegar à loja. Se ele desiste de ir a um local porque falta estacionamento. Da mesma forma, o segmento de turismo sofre. O turista que vem a Natal e perde tempo em engarrafamentos deixa de estar consumindo neste tempo e pensará duas vezes antes de voltar aqui. Por isso sempre nos mostramos muito preocupados, na Fecomércio, com a questão da mobilidade urbana e por isso a definição deste tema dentro do contexto dos Seminários do Motores do Desenvolvimento. Garantir a mobilidade, em toda a sua plenitude, é, também,  garantir negócios.

Quais os setores mais afetados pelos problemas de mobilidade?

Todos os setores do comércio, serviços e turismo são afetados. O comércio de rua, podemos dizer, que sofre um pouco mais porque fica à mercê das questões de engarrafamento e de estacionamento. Este último ponto já não afeta, por exemplo, os shoppings. Mas se o cliente fica preso num engarrafamento, ele desiste de ir às compras ou, no mínimo, passa menos tempo consumindo.

Existem casos de polêmicas de mudanças de trânsito por conta do comércio. Os casos da avenida Bernardo Vieira, à época da viabilização da via exclusiva de ônibus, e da avenida Afonso Pena, à época do Via Livre, são alguns deles. Fale um pouco sobre os dois.

Em ambos os casos, ao nosso ver, faltou um planejamento mais detalhado e faltou também levar em conta a opinião dos comerciantes. Temos a consciência de que garantir o estacionamento hoje é obrigação de cada loja, prédio, estabelecimento. Entendemos também que a rua é local para os carros andarem. Mas esta é uma cultura recente, que surgiu exatamente do inchaço das ruas com o grande número de veículos circulando. Mas houve um tempo em que não havia tantos carros e parar na rua era normal, natural. Muitos estabelecimentos surgiram e cresceram neste contexto. E, pior, o entorno desses estabelecimentos também cresceu e, em muitos casos, não há espaço físico para construir um estacionamento por exemplo. Por isso que os casos precisam ser estudados um a um. Não dá para simplesmente chegar e dizer que nesta e naquela rua não pode mais parar sem que sejam discutidas alternativas e que sejam garantidos prazos para que todos se adéqüem. É preciso lembrar que o comércio, os serviços, o turismo, que sofrem com esta questão, não são apenas empresas que geram lucros para os seus proprietários. Ali estão sendo gerados emprego e renda para a população. Não se preocupar com isto é criar um problema de enormes proporções e com reflexos sociais extremamente nocivos para a sociedade, para a cidade.

Muitos estabelecimentos comerciais estão incluindo estacionamentos próprios de porte no seu planejamento, por conta da falta de vagas públicas, nas ruas. Como o senhor vê esse movimento? É algo indispensável hoje?

Certamente que sim. Os estabelecimentos que se organizam a partir de agora, que estão fazendo seus projetos, precisam prever o estacionamento. Isto inclusive está na Lei. Como  eu disse, esta é, sim, uma obrigação dos lojistas, dos prédios públicos, dos estabelecimentos em geral. Mas é algo que vai mudar com o tempo. Não se muda isso da noite para o dia. E, nunca é demais lembrar, que sempre vai haver alguém precisando parar em um estacionamento público. As vagas públicas também são necessárias. Um Posto de Saúde, por exemplo, jamais vai ter vagas suficientes em seu estacionamento próprio, para todos os pacientes que circularem por ele. Da mesma forma uma banca de revista, um pequeno comércio. Nestes casos, é preciso apelar para mobilidade. E, outra coisa fundamental que precisamos lembrar é que mobilidade não é só garantir bom fluxo e estacionamento viável  para os veículos particulares. Investir em um transporte público eficiente é a forma mais inteligente de melhorar a mobilidade de uma cidade. O bom sistema público de transportes, garante o ir e vir das pessoas e tira os carros particulares das ruas. Esta visão precisa estar no conjunto das ações primordiais.

Na sua opinião, há viabilidade comercial na cidade hoje para se investir em estacionamentos como negócio?

Esta é uma pergunta difícil. Hoje, da forma como está, há sim. Mas não é este o foco. Estacionamento privado, em uma cidade planejada para ter mobilidade, deve ser algo a ser usado em último caso. Vira quase um supérfluo e deve ter o custo de um supérfluo. Se vai ser bom negócio ou não, cada caso será um caso.

Como o senhor vê a questão dos atrasos das obras de mobilidade, inicialmente programadas para a Copa do Mundo? A sociedade civil tem feito um acompanhamento adequado desse tema?

Posso falar por nós da Fecomércio. Temos feito questão de acompanhar isso de perto. Infelizmente, elas ainda não estão andando como deveriam. Tivemos diversos entraves burocráticos e estruturais e hoje temos a triste certeza de que muito provavelmente nem todas as obras previstas irão sair do papel. Mas seguiremos cobrando, apoiando, acompanhando. Estas obras são fundamentais para a cidade não “travar”.

Outro ponto importante é o custo do transporte urbano. Qualquer alteração na tarifa impacta nas empresas que fornecem vale-transporte para os seus funcionários. Em Natal, o comércio vem tendo problemas com esse custo?

Qualquer custo, sobretudo em um cenário onde já os temos tantos e tão altos, é um problema para as empresas. E no caso específico do vale-transporte, o que se faz na prática é empurrar para as empresas a maior parcela do custo de todo um sistema de transportes. E o pior é que as empresas (e aqui falo de forma mais abrangente, incluindo as de comércio, serviços e turismo)  pagam este custo em duas vertentes. Senão vejamos: Por um lado, o Poder Público tem evitado elevar a tarifa dos transportes em Natal mesmo diante de todos os indícios de que este aumento é necessário. Isso nos tem levado a um cenário nunca antes visto de quebradeira geral no setor. Na outra ponta, o mesmo Poder Público oferece cada vez mais gratuidades, elevando o custo final para aqueles que efetivamente pagam a passagem “cheia”. E quem são os que pagam a passagem “cheia” hoje? Na imensa maioria são os que pagam com vale-transporte, vale este cujo maior custo hoje vai para as empresas empregadoras, já que os colaboradores arcam com apenas 6% do valor dos seus salários. Ou seja, a empresa fica sempre com a maior parcela do gasto. Em resumo, podemos dizer, que quem paga a conta maior do sistema são as empresas formais. Como o setor de comércio, serviços e turismo, responde por aproximadamente metade dos empregos formais, é fácil perceber quem são as empresas que compõem esta maioria atingida.