Gente do Seridó

Publicação: 2017-09-10 00:00:00 | Comentários: 0
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Woden Madruga
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Gente do Seridó
Começando setembro me chega carta de Fernando Antônio Bezerra, dando conta de fatos, histórias e de gente do Acari. O missivista, cabra novo ainda, é sobrinho neto do grande e saudoso doutor Paulo de Balá que, por muito tempo, honrou esta coluna com suas cartas famosas. Fernando Antônio, advogado, genealogista, também é dado a arte de escrever. Recentemente lançou seu primeiro livro Do Seridó que a gente ama, reunindo artigos e crônicas que falam das coisas e da gente dos sertões seridoenses.  O livro é prefaciado pelo mestre Paulo de Balá e tem orelhas assinadas por Tácito Costa, jornalista e entendedor de literatura.

Vamos conferir, então, o que conta a carta de Fernando Antônio:
“Jornalista Woden Madruga:
Para que você não fique, de tudo, sem notícias do Seridó que a gente ama, vez por outra vou lhe enviar algumas anotações que junto em minhas andanças. Nem de longe se comparam a riqueza que Paulo Balá, meu tio-avô, conseguiu juntar, mas, com arremedo e com sua paciência, vamos tentar.

Da festa de agosto, no chão sagrado da Padroeira d’Guia do Acari de nossas raízes, as notícias são as melhores possíveis. A festa foi grande, maior que a do ano anterior. Tem quem diga que no aperreio da seca e da crise o povo se comoveu mais para reza. Já digo diferente: se com a reza o tempo já está difícil, imagine sem! Mas, o fato é que de 05 a 15 de agosto, a festa foi celebrada com destacado prestígio. Não é para menos. A tradição antecede a 1835 quando foi criada oficialmente a Paróquia de Nossa Senhora da Guia. A primeira Capela se tem notícia, como feita, em 1737 pelo Sargento-Mor Manuel Esteves de Andrade.

Durante os festejos, como terra de letras e fé, há um dia para lançamento de livros, especialmente dos autores locais e regionais. Neste ano de 17 um dos lançamentos foi de Dalila Santa Rosa Galvão que, em boa síntese, contou a história de João Batista de Fontes Galvão através do livro “Quando papai chegar”. João era comunista, inclusive, participou do levante de 1935 em Natal. Foi perseguido, torturado, foragido. Nascido em Mossoró, sendo sobrinho de Romualdo Galvão, chegou a Acari pelo matrimônio com Maria Amália da Nóbrega Santa Rosa (1905-1999). A família sofreu um bocado e a autora, de modo particular, conta a esperança vivida pelo retorno do pai, o que um dia se confirmou. Enfim, entre idas e vindas, partidas e chegadas, João Galvão faleceu em Natal, capital de todos os potiguares, em novembro de 1975.

Apesar de ser uma história familiar, o relato de Dalila traz ao contexto fatos interessantes da vida potiguar e evidencia – como homenagem – um acariense ilustre, um dos maiores de todos os tempos, chamado Jayme da Nóbrega Santa Rosa (1903-1998), tio da autora. A memória potiguar, aliás, deveria cuidar melhor de personalidades como Dr. Jayme. Ele era Doutor em Química, pioneiro em vários estudos, daqueles que enxergam muito além do que a média inteligência. É da turma de 1925 da Escola de Química do Rio de Janeiro.

Dr. Jayme era filho de Cipriano Bezerra Galvão Santa Rosa (1857-1947) e Marianna Iluminata Bezerra Galvão Santa Rosa (1877-1917). Casou com Aurelina Alves de Lima, mineira, em maio de 1938. Não deixou descendência direta. Foi proprietário da indústria de cosméticos “Mirabel”, fundador da importante Revista de Química Industrial e da Revista Alimentar; autor de livros e trabalhos de pesquisa, dentre os quais, “Acari: Fundação, História, Desenvolvimento, Rio de Janeiro” e “Óleo de favela: nova riqueza da região das secas”, onde, ainda na era de 50, já defendia o biocombustível. Participou, também, da fundação de instituições de ciência e pesquisa.

Foi católico dos mais convictos, devoto e membro da ordem de São Miguel Arcanjo e Santa Edwiges. Visitava Acari com regularidade onde matinha a mais bonita casa da Rua da Matriz, herança recebida do Coronel Santa Rosa e bem transmitida para frente, todos do mesmo sangue.

Outros vultos e personalidades, já lembradas por você, e outros mais que precisam de evidência merecem ser destacados. “Façamos o elogio dos homens ilustres, que são nossos antecipados, em sua linhagem” (do Eclesiastes, 44).

Por derradeiro, um abraço agradecido pela atenção.

Fernando Antônio Bezerra”


Na gaveta dos papeis desarrumados encontro uma carta de Meira Pires. Está datada de 11 de dezembro de 1980, escrita em Natal:

Meu querido Woden:
O Diário Oficial de hoje publicou o Decreto 8033, de 08 do corrente, condecorando com a Medalha do Mérito Alberto Maranhão as seguintes personalidades:

Ex-Governador Sylvio Piza Pedroza, Dr. Roberto Daniel Martins Pereira, Diretor Executivo da Funarte, Escritor Manoel Rodrigues de Melo, Professor Dr. Jarbas Bezerra, ex-Secretário de Educação e Cultura e Jornalista José Epifânio da Silva (Jota Epifânio). Como vê, todos amigos nossos. Acho que mais uma vez, fui feliz na escolha.

Agora, é marcar a data da entrega. Acredito que seja no Salão Nobre do Palácio, às 18 horas. Às 22, será realizado um show no Teatro. A data, no entanto, ainda não está marcada. Isso, eu estou combinando com Parreiras.

Vou iniciar os serviços de colocação dos azulejos nos camarins como forma de resolver o problema de infiltração d’água, que acaba com a pintura. É mais uma colaboração que consegui da Funarte.

Logo no começo do ano, irei a São Paulo para um novo check-up a fim de verificar como andam as coronárias. Continuo caminhando e tomando 17 comprimidos por dia, fazendo dieta, etc. Estou indo, vou indo.

Ainda não apareceu ninguém com coragem de realizar qualquer negócio com o terreno do TENAT. Em Natal, coragem é privilégio de poucos. Habituei-me a topar toda e qualquer parada, embora, atualmente, esteja de fogo baixo, pois já passei dos 35 e, também dos 45 anos... Em vista disso, escrevi o meu epitáfio e entreguei a Didi. Depois do Aqui Jaz..., vem o seguinte:

“Espero viver com coragem de ter coragem. E sem medo do medo.”

No mais, é continuar aguardando sua visita. Com um abraço forte do velho amigo certo de sempre,

Meira Pires”


Nota de WM: Meira morreria quase dois anos depois – em 18 de novembro de 1982, aos 54 anos. Um grande amigo. Grande figura!

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