Gentes divergentes

Publicação: 2020-11-24 00:00:00
Valério Mesquita
Escritor

O ex-governador José Varela terminava o seu mandato e voltava à querida Macau. Convicto do dever cumprido, citava habitualmente: “Volto de mãos limpas e consciência tranqüila! Aquela máxima do azinhavre do vil metal, não me maculou”. João Nicanor, eterno vereador, velho seguidor político, procurava tomar conselhos e buscar “uma brecha” para melhorar de vida. Digamos: de forma rápida. O ex-governador, sensato, aconselhou: “Nicanor, se você não se destacar pelo talento, vença pelo esforço! Quero dizer: seja honesto e trabalhe”. Nicanor, de volta pra casa, matutava: “Doutor Varela tá ficando “véio”. Se trabalho valesse, jumento tinha os cascos de ouro e era ministro da viação e obras!”.

02) Anos 60. O mundo girava e com ele o modismo. O cinema francês estava no auge, até em Assu. Os jovens vestiam-se nos padrões “nouvelle vague” em festas e nas praças. No cinema, as mocinhas suspiravam ao fitar os olhos de Alain Delon e os rapazes não dormiam sem antes paquerar o corpo de Brigitte Bardot. Boutiques e magazines exibiam lançamentos assemelhados ao de Paris. As festas juninas em Assu reuniam os filhos distantes em eventos pontuais. Na procissão era “obrigatório” usar roupa nova. O então vereador Domício, gaiato e gozador, empacotou-se e saiu rumo à praça Getúlio Vargas vestindo um terno xadrez que mais parecia um lagarto. Um amigo, aproximando-se, indagou: “Domício, que roupa é essa rapaz? Você tá estranho demais!”. O vaidoso Domício, arrumando o colete, devolveu: “Pois é amigo, esse é um lançamento do estilista francês, o famoso “Jaques Dukupracá”. Artigo de luxo meu “véi”...”. A resposta doeu no interpelante porque mais estranho do que vestuário era o nome ferino e jocoso do “figurinista”.

03) Um vereador de Lagoa Salgada tinha um lema: “Durmo com um olho fechado e o outro aberto”. Pelo fato da esposa ser evangélica, ele pulou a cerca sem a maior parcimônia litúrgica. Há anos, administrou um caso extraconjugal por baixo de sete capas, com uma comadre. Sempre que saía, a concubina recebia trinta reais do parceiro, à título pró-labore. Certo dia, a companheira assumiu a tribuna: “Amor, faz tempo que você só me dá trinta?! Tá dando pra nada”. O parlamentar municipal, arrumando o paletó para ir a câmara, estranhou a queixa. ““Qué” isso “mulé”! Toda vida num é só isso?”. A amante, com as notas à mão, respondeu: “Sabe o que é, meu bem, é que as coisas subiram. A gasolina, ó...”. Aí o vereador interrompeu: “Então minha filha... Faça uma conversão “xerequista”. Mude para gás, pois sai mais barato...”. A história chegou ao público como: “Love com todo gás”.

04) No Ceará, o rio Jaguaribe inundava todo o vale. A cidade de Aracati estava quase coberta d’água. A divisa dos estados do RN e CE, no Km 31 sofria com a enchente. As estradas sumiram e só se via as cumeeiras das casas. Os políticos do RN caíram em campo. Um bloco formado por Dix-Huit, Vingt, Antonio Rodrigues entre outros, partiram em socorro aos “loshermanos” do Ceará. Centenas de famílias foram trazidas para Mossoró. Roupas e alimentos não faltaram. Também não faltaram os discursos inflamados “de cortar coração”. Hora era Dix-Huit, hora Raimundo Soares. Ai chegou a vez de Toinho Rodrigues, que tirando os sapatos, arregaçando as calças, entrou nas águas. Erguendo os braços para os céus, Toinho mais parecia o profeta “Moisés Tupiniquim”. O povão estava emocionado. De volta à Mossoró, Dix-Huit quebrou o silêncio: “Toinho, eu não sabia que você tinha tanto conhecimento do Mar Vermelho até chegar no Jaguaribe! Pura inspiração!”. Toinho, cheio de “mé”, respondeu: “Einstein já dizia: nos momentos de crise, só a inspiração é mais importante que o conhecimento”. Conclusão: nessa enchente, que de tudo tinha, muito maior do que a força da natureza, foi a sabedoria dos políticos.






Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.