Gerações do Centro de Turismo

Publicação: 2018-10-07 00:00:00 | Comentários: 0
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Fora das praias, o Centro de Turismo é o atrativo natalense mais prestigiado pelos visitantes. Localizado no alto do Monte Petrópolis, o prédio centenário que já foi casa de veraneio, asilo para pacientes psiquiátricos, orfanato feminino e cadeia pública, só foi transformado em espaço do artesanato potiguar em 1976. Mas dez anos depois da abertura do lugar, uma paraibano que fez a vida em São Paulo chegou por lá em busca de informações na Emprotur, que era sediada no prédio. Ele queria começar um negócio em Natal. Seu nome é Francisco Barbosa e seu feito foi criar uma tradição que dura mais de três décadas na cidade: se tem quinta-feira, tem Forró com Turista.

Produzindo o Forró com Turista há mais de três décadas, Francisco Barbosa relembra atrações, casas noturnas e histórias vividas no Centro de Turismo e destaca a importância do espaço como equipamento de lazer e cultura
Produzindo o Forró com Turista há mais de três décadas, Francisco Barbosa relembra atrações, casas noturnas e histórias vividas no Centro de Turismo e destaca a importância do espaço como equipamento de lazer e cultura

Nesta entrevista à TRIBUNA DO NORTE, Barbosa fala da sua relação com o Centro de Turismo, lembra de como começou no lugar, primeiro com o restaurante Marenosso e depois com o Forró com Turista. O lugar já recebeu grandes shows, festivais, bailes de carnaval e abrigou uma série de casas noturnas, como o Club Set, Pool Music Hall e Calabouço.

Bater o recorde dos 6 meses
Antes da gente assumir com o nome de Marenosso, o restaurante se chamava Brisas do Mar. Isso era em 1986. O dono na época era um português. Mas ele queria passar o ponto. Sentei com ele e em duas horas fizemos negócio. A primeira coisa que nos perguntaram quando abrimos foi se passaríamos dos seis meses, pois o lugar sempre mudada de dono.  Estamos lá até hoje. É um lugar com vista maravilhosa. Nossa cozinha é voltada para o regional, mas com algumas coisas próprias, como o Baião de Dois à Potiguar, um prato que bolamos recentemente. Peguei a receita do Baião de Dois cearense e coloquei o camarão no lugar da carne.

O Forró
Em 1987 nasceu o Forró com Turista, já com esse nome e na quinta-feira. Na época existia uma animação turística promovida pela Emprotur. Mas não funcionava muito bem. Fiz uma proposta para gerir o espaço festivo noturno do Centro. Eles toparam. Para começar o projeto contei com a parceria de quatro feras de Natal, os meninos da Destaque, que na época estavam começando: Ricardo, Roberto, Gustavo e Paulinho. Ficaram comigo uns cinco anos.

Prédio só foi transformado em espaço de artesanato na década de 70
Prédio só foi transformado em espaço de artesanato na década de 70

Boate Pool
Nascemos juntos com a Pool Music Hall, boate que ficava no subsolo. Era muito bem frequentada. O nome foi uma concessão feita pelo Flávio Rocha, dono do nome, uma marca da Riachuelo. Antes foi a boate Calabouço.

Universitários
De 88 até 95 foi o auge. Mas na época, o público absoluto era de universitários natalenses, e não de turistas. Chegamos a colocar aqui mil e quinhentas pessoas. Fizemos parceria com a boate. Entrava no forró e tinha direito a boate. Na época os grupos que tocavam com a gente eram a Banda Xodó e Pagode Madureira. Sempre no pátio.

Presenças ilustres
As vezes a gente dava de presente para o nosso público um show especial. Trouxemos Reginaldo Rossi, Moraes Moreira, Biquíni Cavadão. De visitantes, já passaram por aqui Romário com o time do Flamengo todinho. Ficaram numa mesa reservada. Djavan também foi outra grande visita. Ele estava bem discreto, numa das portas centrais. Fui lá, me apresentei e chamei para ir no restaurante. Ele adora forró. Sentou comigo numa mesa perto da janela. Ficamos tomando cerveja e conversando umas duas horas. Foi uma noite especial pra mim. Sou fã.

Sempre as quintas
O Forró sempre foi na quinta-feira. Acreditávamos que Natal tinha chegado numa fase que precisava de programação todos os dias. Escolhemos o dias mais próximo do fim de semana. Simples assim. Durou um ano para a data pegar na cidade, mas pegou e virou point. Tinha dia  que a gente voltava pra casa às 10 horas da manhã do dia seguinte. Um amigo já me disse que eu comecei muito casamento aqui no Forró com Turista. Mas também já terminei vários.

Mais que forró
Aqui não é só forró pelo forró. É o forró pela cultura. Na primeira parte do evento a gente abre com “Asa Branca” na sanfona. Eu entro no palco. Recebo o público. Convido a minha academia de músicos para fazer uma performance. Sete casais, dentre eles, Lampião e Maria Bonita. Depois é o momento da literatura de cordel com Moacir  do Repente. Ele improvisa histórias com os Estados dos turistas presentes. Ai sim começa o forró. E meia-noite a gente fazer uma quadrilha improvisada. É o grande momento.

A importância do lugar
O governador Cortez Pereira foi visionário quando criou o Centro de Turismo. Estabeleceu um lugar para escoar para o Brasil inteiro a produção dos artesãos das praias. Ele transformou um presídio,  mantendo toda a sua linha arquitetônica, num projeto sociocultural. Isso é dar vida a um lugar! Dos principais equipamentos tombados do Rio Grande do Norte é o que consegue ter vida própria. Temos uma associação aqui. Bancamos tudo. Próximo mês quem vir aqui verá que estará de pintura nova.

Nossa arte é especial
A galeria de arte é a grande estrela do Centro de Turismo. Tem xilogravura, arte sacra, escultura em madeira, pintura. É um acervo cultural fortíssimo. Temos também uma grande oferta de roupas. Nossa tipologia é maravilhosa – o custo-benefício é ótimo –, mas acho que poderia ser mais diversificada.

Turismo e patrimônio histórico
Uma coisa que me dói muito na cidade é o estado do nosso Centro Histórico. É um lugar riquíssimo de cultura. Mas não está em condições de receber turistas. O Forte dos Reis Magos, dá pra ver ele aqui da janela, também não dá para levar visitantes lá. Não entusiasma ninguém. Falta estrutura e melhor atendimento nos nossos equipamentos culturais. E isso é um desperdício grande de oportunidade para incrementar nosso turismo. O Museu da Rampa (Rio Potengi), com aquela história da 2ª guerra, uma coisa única no Brasil! E a gente desperdiçando esse atrativo. O pessoal fala que não se vende para os turistas passeios para o Centro Histórico. Verdade. No máximo as agências se fazem um city tour. Mas enquanto não se estruturar melhor nosso patrimônio cultural, esses atrativos não terão como competir com São Miguel do Gostoso, as dunas de Genipabu e Pipa.


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