Geraldo Melo prefere concorrer ao Senado, mas não recusa o governo

Publicação: 2018-02-11 00:00:00 | Comentários: 0
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A equipe de reportagem da TRIBUNA DO NORTE conversou com o ex-governador do Rio Grande do Norte e e ex-senador da República, Geraldo Melo, que no momento encontra-se sem partido. Alguns nomes chegaram a citá-lo como candidato ao governo do estado nas próximas eleições, porém, Geraldo Melo diz preferir concorrer ao Senado, embora não descarte o poder executivo estadual. Confira a entrevista.

Ex-senador e ex-governador, Geraldo Melo afirma que candidatura não está confirmada, mas tem conversado sobre o Estado
Ex-senador e ex-governador, Geraldo Melo afirma que candidatura não está confirmada, mas tem conversado sobre o Estado

Há quem defenda liberar ou pelo menos flexibilizar a possibilidade das pessoas terem armas. Considera que essa é uma medida que devia ser adotada?
Isso é uma das coisas ridículas do Brasil, esta questão da arma. Para começo de conversa, o povo brasileiro já se manifestou formalmente sobre esse assunto. O povo foi ouvido para saber se queria desarmamento. E respondeu que não queria. O governo da época fez de conta que não ouviu e o desarmamento foi implantado. Deu nisto:  Qualquer bandido sabe que pode entrar na sua casa, que lá não vai correr perigo, a não ser que você seja muito forte e possa brigar com ele no bofete. Agora, os bandidos podem chegar com as armas que quiserem, porque essa lei que proíbe o uso de armas, só tem servido contra o cidadão, contra os bandidos não tem servido.

Isso não foi implantado no governo do PSDB?
Qualquer governo que tenha feito isso, fez uma aberração, na minha opinião.

O senhor vê alguma liderança, partido ou grupo político que estejam se habilitando à eleição presidencial e possam enfrentar os grandes problemas do país?
Ainda não. Existem alguns que já estão mostrando as linhas de seus pensamentos, mas a arquitetura que vai ser feita para o próximo governo, seja ele qual for, vai nascer quando a gente souber quem é que vai disputar essa eleição.

Avalia que o PT, que esteve até pouco tempo no Palácio do Planalto, pode ser descartado como força política e eleitoral?
Tem força política e eleitoral, se tiver candidato, se achar um, porque não é possível que vá propor ao Brasil que o presidente da República seja um presidiário. Se achar um candidato, o PT é uma força respeitável, porque embora 70% da população brasileira seja contra o PT, essa parte está dividida e o PT não está. Agora, como proposta... Acho que o PT não pode ter nenhuma, porque o problema que o povo quer resolver agora, o cenário que o Brasil quer mudar, é o cenário que foi o PT que fez. Criou esse Brasil de hoje, ao dividir a sociedade brasileira entre “nós e eles”. Isso em um país cordial e de mestiços, de imigrantes, pessoas que vieram de tudo o quanto é lugar no mundo, um país de negros e brancos, louros, morenos e mulatos, que vão fazer tanto sucesso agora neste Carnaval nas ruas do  Brasil e são as expressões e o símbolo da nossa condição racial. Aqui no Rio Grande do Norte, é bom não esquecer,  no início do século passado, teve um negro senador, Eloy de Souza. Tem uma instituição educacional no Rio Grande do Norte chamada Escola Doméstica, que foi inspirada em uma escola da Suíça, que foi estudada por outro negro, que saiu daqui para se tratar de sua tuberculose na Suíça, Henrique Castriciano. Portanto, ele não estava aqui sofrendo perseguição, segregação racial,  nem nada disso. Henrique Castriciano por acaso era irmão de Eloy de Souza. Tão negro  quando Eloy de Souza, tão negro quanto Auta de Souza, que era irmã dele. Essa característica de um país cuja raça era não ter raça, nós temos todas as raças, estão todos misturados... Mas interessava a um projeto de poder desunir e criar um clima no qual todo negro tinha obrigação de ter ódio dos brancos e todo sujeito que não fosse negro, ter obrigação de ter ódio dos negros;  todo sujeito que fosse pobre, tinha obrigação de ter ódio de quem não era pobre e assim por diante. Essa cultura é a raiz do grande drama que a sociedade brasileira vive hoje. Então, é difícil que um partido que trouxe essa proposta para o Brasil seja agora a solução para crise que criou.

O senhor acha que o país vai superar esse acirramento e ter um debate amadurecido neste ano eleitoral?
Não sei, mas acho que vamos ter — pelo que a gente está sentindo em certas candidaturas, independente de gostar delas ou  não — algumas propostas para discussão. Se vai ser com aquela neutralidade que a discussão acadêmica deveria ter, não sei. Mas acho que uma campanha eleitoral é oportunidade para se ter um debate.

Pelos nomes que estão colocados, o senhor já teria uma opção?
Tenho amigos, como Geraldo Alckmim, meu xará, quero muito bem a ele, que é extremamente preparado. Mas tenho que compaginar essas opções com a realidade daqui. Se o Rio Grande do Norte quiser que eu tenha uma participação mais ativa nessa campanha, terá que estar ajustada a uma conduta associada a um problema nacional. Então, acho que não está na hora de anunciar [um apoio a candidato presidencial].

Tem discutido opções partidárias, alguma conversa mais objetiva sobre essa escolha?
Não. Acho que até o fim de março, se eu tiver que participar, terei que estar filiado, mas ainda estou assuntando. 

Alguns citaram o senhor como candidato a governador...
Para falar com sinceridade, não sei se serei candidato agora. Mas se perguntarem se gostaria de ser candidato ao Senado, sim, eu gostaria.

Para o governo? Considera a hipótese?
Existe um grupo de pessoas que até trabalha a minha cabeça, defende essa tese por aí afora. Só posso dizer o seguinte: Eu não tenho vontade, não tenho desejo de ser candidato a governador. Agora, alguém vai ter que ser.

Quem se eleger governador este ano vai ter um enorme desafio?
Vai. É tanto que eu estava em um programa de rádio e disseram que o formato de minha participação é mais parecido com [candidato ao] governo do Estado. Eu disse: “Você está com raiva de mim para dizer um negócio desse”. Mas as pessoas com responsabilidade estão enxergando que é preciso fazer alguma coisa, e as circunstâncias deverão dizer quem é que vai ter a atribuição, com a ajuda da sociedade, para enfrentar esse problema. Espero sinceramente que se encontre uma pessoa apta e disposta. E que eu não seja essa pessoa. Agora, eu não vou me recusar.

O senhor se proporia?
Tenho falado muito sobre o problema nacional, mas acho que independente da questão nacional, a situação do Rio Grande do  Norte exige que a gente pare de conversar sobre direita e esquerda, porque o Estado não vai decidir e nem influir nada neste debate. Está na hora de alguém chegar e propor, discutir o que vai ser feito aqui, claro. Se tiver de opinar sobre o debate nacional, deve opinar. Agora, é preciso alguém começar a pensar o que vai ser feito aqui.

É possível enfrentar o problema fiscal do Rio Grande do Norte, diante da resistência das corporações?
Não peça para falar como candidato a governador, que não vou fazer isso. Acho que quem chegar lá, vai sabendo que não se consegue tratar uma enfermidade sem dor. Não é para ir lá receber louros, coroas, aplausos e aclamações, é para enfrentar esse abacaxi, que qualquer pessoa convocada não pode se recusar.

Mas tem setores que o estão convocando?
Não, tem pessoas falando sobre isso, mas por enquanto acho que não há relação com os processos político e eleitoral reais. O que existe, no processo real, é que o pessoal que tem os cordéis nas mãos, que tem força, poder, está trabalhando mesmo é para se ver livre de mim. Tem um povo hoje que está uma raiva danada de mim, porque não morri ainda (risos). Existe uma turma também que circula, falando por conta de idade. Se eu tivesse falando em me candidatar a uma posição na Seleção Brasileira de futebol ou alguma atividade desse tipo, estaria caducando. Nós estamos discutindo aqui soluções políticas e administrativas para o país e para o Estado. E, para isso, me sinto em perfeitas condições de participar como qualquer pessoa. Faço questão de dizer isso: Não me apresento ao Rio Grande do Norte como candidato a nada, não sou uma pessoa que pelo fato de estar me mexendo, conversando aqui e ali, estaria me apresentando. Portanto, esses que são donatários das capitanias do poder, fiquem despreocupados, porque não estou trabalhando para tomar o lugar de ninguém. Não sou mais um para botar alguém para fora, não. Apenas sou um cidadão no gozo dos meus direitos, com experiência suficiente para me sentir qualificado e participar desse debate, opinar. Se isso levar a uma situação na qual tenha de ser candidato a alguma coisa, eu serei; caso contrário, não serei. Não sou profissional, não vivo disso.

Como o senhor avalia as medidas apresentadas pelo governo para conter a crise fiscal do Estado?
Apenas acho que o governador  reconheceu que precisava fazer o dever de casa. Resolveu fazer agora, não discuto nenhuma das propostas, mas acho que todas foram tardias.

E o episódio da saída do MDB? Está superado?
Eu sai do PMDB sem briga. Não teve briga, inclusive eu vou repetir uma frase que eu disse ao senador Garibaldi Filho: “A nossa amizade pessoal, neste episódio, não sofreu nenhum arranhão, nem grande e nem pequeno, nós não estamos discutindo questões de amizade, estamos discutindo política e nossa amizade está fora disso. Agora, eu entendo que você esteja tratando dos seus interesses e não dos meus, que esteja cuidando dos seus projetos políticos e não dos meus. Então, pode continuar cuidando dos seus, deixe que cuido dos meus”. Não precisa brigar, eu não briguei, o PMDB tem um pedaço de minha vida de homem público. Fui governador eleito pelo PMDB. Depois que o PMDB estava ferido, como foi ferido em 1982. Aluízio Alves, que era o grande patrimônio político e eleitoral do PMDB, tinha sido derrotado de maneira esmagadora por José Agripino, que foi o grande adversário à vida toda quando o Rio Grande do Norte se dividia entre Maias e Alves. Foi o grande adversário de Garibaldi na luta para prefeito de Natal. Eu sou amigo de José Agripino também e disse a Garibaldi: “Só tive uma briga com José Agripino e foi na história do “rabo de palha' por sua causa”. Na verdade eles hoje superaram essas diferenças, estão  juntos e parece que quem não deu grande contribuição fui eu. Mas, sai sem brigas, sem queixas, sem mágoas, sem amarguras. Esse é um episódio natural no processo político.

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