Gigantes da literatura sul-americana

Publicação: 2020-07-19 00:00:00
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Diógenes da Cunha Lima 
[ Escritor, advogado e presidente da ANL ]

Um brasileiro, Jorge Amado; um argentino, Jorge Luiz Borges; e um peruano, Mario Vargas Llosa. Absolutamente singulares, mas têm alguma coisa em comum. O elo é o Nobel Llosa. Qualifico-os, pela ordem: o bom, o filosófico, o contemporâneo.

Com carinho e natural generosidade, Jorge recebeu, na Bahia, o parceiro romancista que iria escrever “A Guerra do Fim do Mundo”, baseado em “Os Sertões”, de Euclides da Cunha. O projeto era recriar um épico, 80 anos depois da loucura apocalíptica de Canudos. Llosa inebriou-se com o clássico de Euclides. Por muitos meses, pesquisou nos arquivos históricos do Rio de Janeiro e da Bahia e conversou com o povo da região para criar uma ficção histórica maravilhosa.

Nessa cruzada intelectual, Llosa teve os préstimos e orientação de outro mestre do dizer, Jorge Amado. A pesquisa tinha como meta o roteiro de um filme da Paramount Pictures, mas tornou-se uma grande obra da realidade nacional sob o olhar de um vizinho que ama e dedicou-se ao Brasil.

Agradecido, o autor veio para a comemoração do aniversário de Jorge. Quando jovem, em Arequipa, no Peru, sua cidade natal, havia feito uma brincadeira com um amigo, escrevendo uma rigorosa lista de escritores contemporâneos que deveriam ir para o céu, se o céu existisse. Depois, foram excluindo um a um, restou o baiano. Quem o conhecesse e lesse sua obra jamais o excluiria. Llosa constatou, ainda, que na Bahia os escritores são tão valorizados quanto os jogadores de futebol. Um exagero, óbvio, os baianos só aplaudem Jorge e Castro Alves, embora sem nem ao menos lê-los.

Quarenta anos depois, em livro, vamos receber uma maravilhosa entrevista entre os geniais vizinhos do Sul do Continente. Pelo pouco que foi revelado, será dos mais significativos acontecimentos literários. Algumas respostas de Borges são reveladoras do poeta filosófico, do ensaísta, da grandeza do seu pensamento humanitário.

O entrevistador anota que os livros borgeanos são “perfeitos como um anel”. Ele se sentiu ferido com a radicalidade do pensamento de Borges: “Desvario empobrecedor o de querer escrever romances, o de querer explicar em quinhentas páginas algo que pode ser formulado em uma só frase”. A perplexidade: perderiam tempo escrevendo centenas de páginas que poderiam ser resumidas em uma única frase? A desculpa de Llosa é a de que o romance é “um gênero literário canibal, que traga todos os gêneros”.

O borgeano escritor Irapuan Sobral contou-me que o seu ídolo havia qualificado o romance como apresentador de muitas pessoas, o conto de algumas pessoas e o poema como único personagem.

É bom aproximar os três gigantes da literatura latino-americana: Jorge Amado, o bom, conhecido por seu coração de ouro, um contador de histórias, traçando no tempo o típico e agradável brasileiro; o pensador Jorge Luis Borges, no ponto mais alto do surrealismo do Continente, e o outro romancista, que eleva a dignidade humana a partir de sua gente.