Gilberto, no coração

Publicação: 2019-09-08 00:00:00 | Comentários: 0
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Horácio Paiva
Poeta, advogado, escritor e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes

Contava-me o meu irmão Daltro que o poeta Esmeraldo Siqueira, seu professor no velho Atheneu, costumava dizer que nunca lhe faltavam interlocutores para uma boa conversa. Quando precisava de sua companhia, naqueles instantes dedicados ao alimento da alma, ia à sua biblioteca e diante da plêiade de autores consagrados escolhia um deles, “puxava-o pela orelha” e li-o avidamente no silêncio de seu recolhimento.

Com Gilberto Avelino, meu grande amigo, posso dizer que o meu diálogo continua, mesmo após sua morte. Não apenas na agradável e emocionada leitura de sua obra lírica, mas também  -  e sobretudo  -  no arranjo da memória, no hábil e sentimental exercício da evocação e manuseio diário das lembranças, pondo-as em movimento, removendo-lhes o pó do tempo, polindo-as constantemente, para preservar-lhes a atualidade, a pureza da vida ao girar desses girassóis. Sim, a saudade bate no peito como armadilha no coração remove o pó do tempo aquece como um frêmito de sol as veias geladas do passado. 

Às vezes quero oferecer-lhe algo, ou escutar, por exemplo, sua opinião sobre algum poema que escrevi. E a memória aquecida me dá essa resposta... Às vezes trago-lhe a lembrança lírica de remotas passagens de sua própria infância que, com prazer, me contava. E então o vejo criança, à noite, já deitado em sua rede, mas ainda sem dormir, e assim o ouço dizer à sua mãe: “Mamãe, quero água!” E vejo a imagem terna da mãe que se levanta, pega o canequinho de alumínio, enche-o com a água fria da quartinha postada à janela para melhor assimilar a frieza da noite e dá-lhe de beber. Ou passo a oferecer-lhe a singularidade de suas visões proféticas, como nos três exemplos a seguir narrados:

Artigo publicado por Ticiano Duarte, nosso amigo comum, jornalista e escritor também já falecido, narra a sua reconciliação com Gilberto, ainda na juventude, a partir de um sonho deste. Gilberto sonhara com o falecido pai de Ticiano, que lhe recomendava procurar o grande amigo e reconciliar-se. Cumpriu o sonho, dando continuidade à longa amizade.

Na semana de sua própria morte, Gilberto sonhou com o meu pai, já falecido à época, Horácio de Oliveira Neto, a quem estimava e admirava, e a quem seguira politicamente em Macau. Nesse sonho, meu pai lhe dizia que precisava de sua presença, de sua assessoria, para tratar de assunto que requeria urgência. Era uma premonição. Não se evidenciava a certeza, mas Gilberto contou-me repetidamente esse sonho, embora sem ares de tragédia e de forma até divertida. Proféticos ainda esses belos versos de seu último livro publicado em vida, que tive o prazer de prefaciar, “Os Tercetos e um Canto às Vozes do Mar”, último também dos Tercetos:

“Amada amiga, não devo dizer-te agora: entende a voz dos ventos. Chama-me o mar. Embarcar irei. À madrugada, a vaga é tranquila. Digo-te, perenizo os instantes. Nas tuas lembranças, pois, sempre aportarei.  Ao mar. É o caminho, a minha saga e sina.”

Eis que ressurge Gilberto! Mas ressurgir talvez não seja o verbo adequado, pois não falamos de um mundo de aparências. Melhor dizer que Gilberto vive e cumpre mais um ciclo entre nós, ante julho que se aproxima, mês total, mês de seu nascimento e de sua morte, ou que seu tempo é algo maior, sem fim, pois pertence ao coração. Buda, Zenão de Eleia, Santo Agostinho, Montaigne... Muitos questionaram o tempo (aquele que aprendemos a retalhar e a pendurar num calendário) e alguns até o negaram, embora crendo na eternidade.

Penso talvez não seja esse tempo ilusório a razão de nossa decadência, mas apenas uma metáfora da fluidez que habita e corrói o mundo corpóreo. E que o tempo real só exista mesmo num conceito de eternidade, como tempo de Deus, do amor, do coração, onde sempre esteve o meu inesquecível amigo Gilberto Avelino e onde sempre o vejo a recitar sua declaração de amor a Macau, ao pôr do sol no rio em preamar sereno:

“Esta é a terra que amo.

De rio em preamar sereno,

onde, entre ferrugens e sombras,

descansam âncoras, e navegam

fantasmas de barcos cinzentos.”


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