Governantes, prostitutas e a ética

Publicação: 2020-05-31 00:00:00
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Tomislav Femenick
Jornalista

O atual panorama nacional fez-me lembrar de uma das muitas aulas que recebi do meu tio Padre Mota (prefeito de Mossoró por quase dez anos, nos anos de 1930/40), sobre como administrar as instituições, os bens e as finanças públicas. Como em tudo, o ex-vigário fez uso das suas tiradas satíricas de alto nível. Aqui estão as anotações, que fiz na ocasião:

– “Res publica” é uma expressão que se diz em latim, composta de duas palavras: ‘res’ e ‘publica’. O substantivo, ‘Res, rei’ tem um significado amplo, pois pode ser entendido como coisa, ofício, negócio, governo etc., enquanto a palavra ‘publica’ tanto pode ser um substantivo quanto um adjetivo. Se substantivo, ‘publica, æ’ quer dizer ‘meretriz’, ‘prostituta’; se adjetivo, ‘publicus, publica, publicum’ quer dizer ‘do povo’, pois ela deriva de uma outra, do latim arcaico: ‘poplicus’, público, sempre dita com relação a POVO. Se assim é, REPUBLICA é a ‘coisa do povo’, o ‘governo do povo’, porém é muito fácil de ser deturpada em seu sentido maior, corrompida em sua finalidade, prostituída em seus propósitos. Ora, se os bens e o ‘danaro’ [dinheiro] são do povo e não dos governantes, eles têm que deles cuidar com muito mais zelo do que cuidam dos seus bens e dinheiro. Também não podem usar as instituições do Estado como se fossem suas. Não reclamem se, quando passarem na rua, forem apontados como meretrizes”.

Mas o mundo anda e eu também fiz as minhas andanças. Em 1972 deixei o solo potiguar e fui moram em São Paulo. Dois anos depois, fui convidado para integrar o staff do banqueiro Aloysio de Andrade Faria, controlador do grupo Banco Real. Minha primeira tarefa foi instalar e estruturar a gerência de Planejamento e Controle da Produção das empresas seguradoras do grupo. Entre os meus funcionários, estava Manoel Moreira, um estudante de economia, ex-controlador de voos da Aeronáutica. Um dia ele foi a minha sala se despedir. Estava deixando a companhia para se candidatar a vereador em Campinas.

O tempo passou e, alguns anos depois, li nos jornais a notícia de que o meu ex-subordinado tinha sido eleito para a Assembleia Legislativa paulista. Mais algum tempo e leio outra notícia; agora ele tinha sido eleito deputado federal. Um dia, quando eu era diretor de uma empresa de Auditoria, a Soteconti, a secretária anunciou-me que o deputado Manoel Moreira estava na recepção, querendo falar comigo. Foi com alegria que o recebi; não são todos os dias que a gente recebe a visita de um deputado federal que tinha sido nosso funcionário. Foi uma conversa amena, sem rumo, apenas troca de recordações de dois antigos colegas de trabalho.

Meses depois estourou a bomba: Manoel Moreira estava envolvido no escândalo dos “anões do orçamento”, como ficou conhecida a CPI que investigou congressistas que desviavam recursos do Orçamento Federal. Três de suas emendas, no valor de 100 milhões de dólares, beneficiaram a construção do prédio do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo; aquele do juiz Lalau.

E por que estou me lembrando de tudo isso? Se antes eu me envergonhava pelo simples fato de ter sido chefe de um bom funcionário que se transformou em um ótimo escroque, agora me envergonho de tudo o que aconteceu e está acontecendo no meu país. Talvez eu pertença a essa rara espécie animal em extinção, os que acham que a honestidade, a ética e a moral são atos naturais de dever. Como se pode fazer uma descarada defesa de ladrões da coisa pública dizendo que há falta de provas, quando as provas são abundantes? E desde quando burlar o fisco não é falta de ética? Talvez exista no pais uma pandemia de astereognosia (incapacidade de identificar os fatos como eles realmente são) moral.

Posso até ser tido como bobo, mas continuo sendo um otimista inveterado. A esperança de dias melhores para este país e para nosso povo está arraigada em meu ser. Que país maravilhoso este poderia ser. Basta negar votos aos mentirosos, incapazes, espertalhões e ladrões do dinheiro do povo; inclusive aos arautos de um novo Brasil e ético, que não nos chega. Acredito mais nas lições no Padre Mota do que na desfaçatez descarada dos “representantes do povo”; quer sejam da esquerda, quer sejam da direita.


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