Governo esloveno barra trens vindos da Croácia

Publicação: 2015-09-19 00:00:00 | Comentários: 0
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A Eslovênia interrompeu o tráfego ferroviário na principal linha proveniente da Croácia, após encontrar 150 refugiados num trem com destino a Zurique. Os detidos tinham atravessado a fronteira croata na própria noite de quinta-feira, segundo informações da polícia eslovena, que informou ser este o maior grupo de migrantes a chegar ao país desde o início da atual crise migratória na Europa. "Os enviaremos de volta à Croácia o mais rápido possível", afirmou uma autoridade policial. O país poderá se tornar o próximo ponto de parada de refugiados vindos da África e do Oriente Médio, a maioria dos quais almeja chegar aos países mais ricos da Europa, no oeste e no norte do continente.
Balazs Mohai/ApSoldados húngaros montam cerca temporária com serpentina na fronteira com a CroáciaSoldados húngaros montam cerca temporária com serpentina na fronteira com a Croácia

Entretanto, as autoridades eslovenas alertaram que não vão viabilizar a criação de um corredor de trânsito para os migrantes em seu território, afirmando que isso iria contra as regras de asilo da UE.

Na quinta-feira, o primeiro-ministro esloveno, Miro Cerar, reafirmou a determinação do país de observar as regras do acordo de Schengen – que desde 1995 estabelece uma zona de livre trânsito entre países europeus – ao lidar com os refugiados. Cerar ressaltou que o país não pode "permitir a entrada nas fronteiras da UE de pessoas que não atendem aos requisitos necessários".

Autoridades eslovenas também controlaram todos os passageiros de trens vindos da Croácia na cidade fronteiriça de Dobova e reforçaram a vigilância com mais guardas e um helicóptero.

A presidente croata, Kolinda Grabar Kitarevic, ordenou na quinta-feira que o Exército fique de prontidão, caso seja necessário proteger a fronteira dos imigrantes ilegais que chegam através da Sérvia.

Segundo a polícia croata, mais de 9 mil refugiados chegaram ao país nas últimas 48 horas. Centenas deles chegaram a romper barreiras policiais exigindo o direito de continuar sua jornada até o oeste da Europa.

Na noite de quinta-feira, as autoridades croatas ordenaram o fechamento temporário de sete postos na fronteira com a Sérvia, além de proibir o tráfego nas rodovias nos limites com o país vizinho. O ministro croata do Interior, Ranko Ostojic, instou as autoridades a impedir o fluxo de migrantes, pedindo que eles não venham mais ao país. "Fiquem em campos de refugiados na Sérvia, Macedônia ou na Grécia", afirmou. "Este não é um caminho para a Europa. Não há ônibus que os levem até lá. Isso é mentira."

Nova cerca
A Hungria iniciou na madrugada de ontem a construção de uma cerca na fronteira da Croácia, poucos dias após a conclusão de uma barreira nos limites do país coma Sérvia.

O primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, confirmou o envio de centenas de soldados e policiais para vigiar os limites do país com a Croácia. Ele informou que a nova cerca se estenderá pelos 41 quilômetros em que a fronteira não é delimitada por um rio.

"Precisamos implementar as mesmas medidas adotadas na fronteira com a Sérvia", afirmou Orbán em entrevista a uma rádio estatal. Segundo o premiê, 600 soldados trabalham na construção da barreira, além de outros 1,2 mil que serão enviados ao local nos próximos dias.

A Hungria se tornou rota de trânsito para mais de 180 mil refugiados neste ano. Além de construir uma barreira nos limites com a Sérvia, o país implementou novas e rígidas leis anti-imigração.

Na quarta-feira, migrantes que tentavam forçar a passagem num posto de controle na cidade fronteiriça de Roszke entraram em confronto com policiais húngaros.

Orbán considerou o episódio "uma ataque armado contra a Hungria a partir do território sérvio", e condenou o país vizinho por não agir para impedir o incidente. Ele afirmou que o episódio demonstra que este não é mais simplesmente um problema de imigração, mas sim de "ameaça, perigo e terrorismo".

Opinião
Egoísmo nacional prevalece na UE

O que hoje conhecemos como União Europeia (UE) teve, no passado, uma série de precursores com os mais diferentes nomes. Um deles foi a CEE. Essa sigla, no entanto, não se referia a uma "comunidade europeia ética", como alguns poderiam imaginar atualmente. Em vez disso, o E na sigla chamava a atenção para o que desde o início importava e importa até hoje: Economia. Interesses econômicos. O ponto de partida da unificação europeia foi a vontade de manter o controle sobre a reconstrução da República Federal da Alemanha por parte de seus países vizinhos. Algo compreensível – passados menos de dez anos do fim do nazismo. Nessa época teve origem a forma de organização supranacional da UE: o que antes era responsabilidade dos Estados nacionais é transferido para uma autoridade que está acima dos países-membros – a atual Comissão Europeia.

Na época, os otimistas esperavam que o sucesso desse modelo fosse assegurar, automaticamente, que os diferentes Estados nacionais concedessem, cada vez mais, responsabilidades políticas para a Bruxelas. Mas ledo engano.

Porque o verdadeiro centro de poder da UE não é a Comissão, mas o Conselho Europeu – ele reúne os ministros das diversas áreas ou, no caso de assuntos de grande importância, os chefes de Estado e governo. Nessas rodadas, por vezes há disputas duras, por vezes, negociações banais.

Ali não se trata de "valores comuns" europeus, mas de vantagens nacionais que cada país quer tirar para si. É assim, e não de outra forma, que a UE vem funcionando há décadas. Todavia, com grande sucesso: há 70 anos a Europa Ocidental não vivencia mais nenhuma guerra – dando espaço a uma zona de incomparável prosperidade.

A Alemanha fez, naturalmente, uma série de concessões, pelas quais pagou, muitas vezes, mais que outros países. Mas, no final, isso também sempre foi apenas egoísmo nacional: como a forte economia exportadora alemã deve sua existência a uma Europa funcional, um fracasso europeu sairia bem mais caro.

Até o momento, cada um dos Estados-membros monitora, cuidadosamente, para que não sejam outorgados muitos poderes a Bruxelas. Uma política externa e de segurança comum da UE? Não há nada que faça jus a esse nome realmente. E é justamente por isso que a atual crise de refugiados não acontece nem por acaso nem por destino, mas é o resultado de uma política comum de fracasso.

É claro que a UE poderia ter evitado uma imensa parcela da atual movimentação de refugiados. Esse seria o caso, por exemplo, se o pedido de ajuda do Acnur (Alto Comissariado da ONU para Refugiados) para os campos de refugiados em Jordânia, Líbano e Turquia tivesse sido atendido a tempo.

Ali não existe nem educação escolar para as crianças e, atualmente, nem mesmo alimentação suficiente. Quem pode então se surpreender com o fato de há semanas milhares de refugiados estarem a caminho? Mas isso teria tido um custo. E o que acontece agora está custando muitas vezes mais do que isso! E como se não se tivesse compreendido o que está acontecendo agora, cada um prossegue em sua causa nacional: Grécia e Itália continuam apenas a acenar, a Hungria constrói cercas, o Leste Europeu ignora e, sem consultar ninguém, Angela Merkel convida todos os sírios para a Alemanha, mas mesmo assim quer dividir os custos e, já uma semana depois, é obrigada a capitular parcialmente. Os gastos extrapolam qualquer volume.

Enquanto isso, em Bruxelas, os ministros não conseguem sequer chegar a acordo sobre a distribuição de 160 mil pessoas. Um número muito maior do que esse já chegou aqui, há muito tempo, e outros estão por vir – sem que ninguém tenha o controle sobre quem eles são, de onde eles vêm e para onde eles vão. A política como um poder de formação e transformação é o que falta na Europa de hoje.

Onde isso vai parar? Ninguém sabe, pois ninguém tem um plano ou um conceito. A Convenção de Dublin já morreu há muito tempo. O Acordo de Schengen será o próximo. Afinal, com as fronteiras abertas, quem vai querer manter refugiados em países em que eles não querem permanecer? Um valor fundamental da Europa vai ser assim perdido?

Embora a livre-circulação de pessoas seja algo agradável, uma vida boa também já era possível anteriormente. Por meio dos novos controles de fronteiras, principalmente o transporte de cargas vai encarecer de forma dramática. Se um indicador econômico estiver em perigo – então talvez alguma coisa venha a ser feita.



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