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Natal
Grávidas aguardam hora do parto no chão
Publicado: 00:00:00 - 06/07/2016 Atualizado: 22:53:57 - 05/07/2016
Marcelo Lima
Repórter


Gestantes pegaram colchões empilhados no corredor do Hospital Santa Catarina (Pedro Bezerra) e se acomodaram no chão durante a madrugada da terça-feira (5). Isso foi a alternativa que elas e suas acompanhantes encontraram para não esperar a chegada de seus filhos em pé ou em cadeiras de plástico. Além da superlotação, as mães e pacientes do Centro Obstétrico do segundo maior hospital público da capital sofreram com falta de insumos, atraso no almoço e relataram casos de violência obstétrica.
Na madrugada da terça-feira, grávidas se acomodaram em colchões no chão por falta de leitos

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A jovem Alani Wilka, de 23 anos, foi uma das vítimas do tratamento desumano. Moradora do conjunto Vale Dourado, ela foi até a maternidade do Hospital Santa Catarina para ter a sua segundo filha, Sara. Ela chegou por volta das 16 horas da tarde da segunda-feira e só foi ter o filho 12 horas depois. “Assim que a gente entrou, o hospital estava lotado e os médicos não estavam nem aí pra nós. A gente é quem tinha que está se virando dando assistência uma para outra. A gente estava tudo sentada em cadeira de plástico”, contou.

 Por volta, das duas horas da madrugada, as gestantes em trabalho de parto não aguentaram mais o desconforto dos assentos de plástico, que são destinados para as acompanhantes. “Deveria ter umas seis gestantes na cadeira e as acompanhantes todas em pé. Teve uma hora que uma menina não aguentou: pegou o colchão e se deitou no chão porque estava em trabalho de parto, chamando o médico. O médico falou que não ia atender. Aí ela tirou a roupa lá no chão e começou a fazer força. Foi uma enfermeira que veio olhar que a criança estava saindo. Aí veio outro médico e levou ela para a sala de parto”, relatou. Em seguida, outras parturientes também pegaram os colchões empilhados no corredor. Foi o caso de Alani.

Ele avalia que a conduta que um dos médicos foi negligente. “Quando viram a menina quase ter o filho no chão, todo mundo ficou desesperado. Eles ficaram só olhando [os médicos]. Teve mulher que queria ir embora na hora, começaram a chorar no corredor, ficaram todas nervosas”, acrescentou. A nossa equipe não conseguiu encontrar a paciente a que Alani se referiu. “Os governantes daqui deveriam investir mais em saúde. Acho que os governantes deveriam colocar pessoas mais capacitadas e para quem realmente queira trabalhar, porque se existe médico é para ajudar a paciente. Se não fosse as enfermeiras, não sei nem o que seria”, opinou.

Quem não optou pelos colchões, teve que esperar nas cadeiras mesmo. Foi o caso Ilana Garcia de 19 anos. “Fiquei na cadeira por 12 horas. Depois fui para uma sala e só tive minha filha de 19h23 ontem (segunda-feira)” relembrou.

Violência obstétrica
“Fui muito mal atendida mesmo. O médico puxou o menino e jogou o menino em cima de mim. ‘segure seu filho’! E não tinha material para me limpar”, contou Adenilma Horácio, de 28 anos. Ela veio do município de São Miguel do Gostoso com uma irmã de acompanhante. Antes de passar por esse constrangimento na hora do parto, Adenilma teve que esperar sentada numa cadeira de rodas e pelo colchão no chão. “as contrações vinham, mas não conseguia nem fazer força sentada. Aí me botaram num colchão no chão e disseram: deita aqui mulher não deixe seu filho cair no chão, não”, rememorou.

Não bastasse esses episódios, ela também teve que ouvir “discursos em prol da cidadania” e críticas sobre a regionalização da saúde, que não funciona.  “Todos eles reclamando, mandado a gente votar nos prefeitos melhores e dizendo que não tem obrigação de atender a gente”, falou Adenilma. Por sorte, o filho de dela está em perfeita saúde, mas a má experiência num momento difícil ficou marcada. “Eu fiquei horrorizada. (SIC) Me deu foi um trauma de ter menino”, desabafou.

Há 22 anos no hospital,  a obstetra Josemira Mendes disse que nunca viu situação semelhante. Ela entrou no plantão às 8h da terça-feira com 27 pacientes no centro obstétrico, quando a capacidade é de 15. “Quando eu cheguei, fui atrás de macas para colocar as pacientes, porque eu não ia receber o plantão com paciente no chão”, disse. Além do alto risco de infecção, ao ficarem na altura do chão, segundo a obstetra há um evidente desrespeito a figura humana da mulher. “Nossas pacientes vieram para ganhar bebê, ter uma vida, e não para ser degradada a esse ponto”, completou.

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