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Brasil
Grávidas com zika devem realizar mais ultrassons
Publicado: 00:00:00 - 11/03/2016 Atualizado: 23:32:46 - 10/03/2016
São Paulo (AE) - Grávidas infectadas por zika devem fazer ultrassonografias seriadas para a identificação de possíveis más-formações no feto e também alterações na placenta. Essa é a recomendação do obstetra José Pereira Júnior, coautor de pesquisa da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e da Universidade da Califórnia. O estudo apontou que a infecção por zika pode prejudicar o feto em qualquer fase da gravidez, não apenas se a mãe adoecer nas primeiras semanas de gestação, como se imaginava inicialmente.
Estudo recomenda ultrassom com doppler em mulheres grávidas infectadas pelo zika vírus
O estudo, publicado na revista científica The New England Journal of Medicine, acompanhou 72 grávidas com zika. Dessas, 42 passaram por exames de ultrassonografia no Instituto Fernandes Figueira, onde Pereira Júnior é responsável pela maternidade. Entre as gestantes, 29% esperavam bebês com diferentes alterações: microcefalia, calcificações cerebrais, restrição de crescimento intrauterino, ausência de hemisférios cerebrais. A infecção pelo vírus também afetou a função placentária, e houve casos de grávidas com pouco líquido e até mesmo com ausência de líquido amniótico. Em um caso, a gravidez precisou ser interrompida para que o bebê fosse salvo.

"O mais preocupante é que problemas com o feto e com a gravidez foram descritos em qualquer idade gestacional, até mesmo no terceiro trimestre, com casos de natimortos e ausência de líquido amniótico. Os dados sugerem que o vírus pode afetar negativamente a gestação em qualquer momento", afirmou a pesquisadora da Fiocruz Patrícia Brasil, coordenadora do estudo.

De acordo com Pereira Júnior, foi a primeira vez que alterações na placenta foram associadas à infecção por zika. "Embora ainda sejam números pequenos, a gente pode responder o que pode oferecer para o acompanhamento desses bebês. Aqui no hospital, o que se ofereceu foi ultrassonografia com Doppler", afirmou Pereira Júnior.

O exame com Doppler permite ver, além da imagem do bebê, o fluxo de sangue para a placenta. "(Em casos de infecções), a placenta pode ficar inflamada. E essa inflamação pode dificultar a troca de oxigênio e nutrientes entre o feto e a mãe, e com prejuízo para o feto: ele pode crescer menos, produzir menos líquido amniótico", explica o obstetra. "O feto, num primeiro momento, lança mão de estratagemas para continuar sobrevivendo. Mas no segundo momento, temos a diminuição do líquido amniótico e em casos extremos, a morte. Com o Doppler seriado, aumenta-se a vigilância e se for possível ou se for necessário, faz-se a interrupção da gravidez. E salva-se o bebê antes que deteriore o estado geral dele."

O protocolo de atendimento no IFF ainda está sendo ajustado. Mas a recomendação inicial é de que, para mulheres infectadas no início da gravidez, o primeiro exame seja feito na 14ª semana de gestação, e repetidos pelo menos outras três vezes: entre a 24ª e 26ª semanas, 34ª semana e 38ª semana.

"O que a gente está recomendando é que as pacientes zika positivo passem a fazer exames seriados de ultrassom com doppler, de acordo com a rotina que seus médicos decidirem. Tenho pacientes que fizeram 5. E tem paciente que chega aqui, com 35 semanas, e faz uma. O estudo é um farol, um caminho para as pessoas começarem a seguir. Vai fazer só ultrassom? Não. Faz ultrassom com doppler, porque você vê se tem alguma anomalia do corpo do bebê, mas vê também como está a hemodinâmica do bebê", defende Pereira Júnior.

Na rede particular, um exame de ultrassonografia obstétrica custa cerca de R$ 200. A ultrassonografia com dopplerfluxometria sai por R$ 380. O exame é coberto pelos planos de saúde.

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Ultrassonografia, Waldemar Naves do Amaral, o protocolo sugerido está correto. "Quando a gravidez é de baixo risco, o recomendado é que a mulher faça em torno de duas ultrassonografias, na 13ª semana e entre a 20ª e 24ª semanas. Na gravidez de alto risco, é variável Como não se sabe se a infecção provoca lesão no início da gravidez ou no fim da gravidez, o seguimento vai mostrar o grau da lesão. O protocolo está correto. São necessários outros três ou quatro exames", afirmou.

Ele acredita que as mulheres não terão dificuldade de acesso ao exame. "O Brasil é o segundo país em número de equipamentos de ultrassom. Mesmo a paciente do SUS de alguma forma vai conseguir, porque ela entra no protocolo de parto de alto risco e o acesso a exames de maior complexidade é facilitado." Em nota, o Ministério da Saúde informou que a recomendação é que a ultrassonografia seja realizada, "preferencialmente, no primeiro trimestre, para início do acompanhamento da gestação pela equipe médica".

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