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Natal
Graco Magalhães celebra centenário com nome marcado na aviação do RN
Publicado: 00:00:00 - 29/05/2022 Atualizado: 11:49:08 - 28/05/2022
Felipe Salustino
Repórter

A celebração de um centenário marcado pelo amor à aviação, ao Rio Grande do Norte, à família e aos ilustres amigos. Na última segunda-feira (23), o aviador Graco Magalhães  Alves completou 100 anos de vida, numa trajetória convertida em um baú de reminiscências que ele faz questão de compartilhar. A aviação, uma de suas mais intensas e profundas paixões, ocupa grande parte das histórias que ele adora revelar. Oficial da FAB e depois piloto oficial do Governo do Estado, Graco se orgulha de poder contar um enredo  que lhe permitiu fazer amizades com personalidade políticas como Aluízio Alves, governador do RN  entre 1961 e 1966 e fundador da TRIBUNA DO NORTE.
magnus nascimento
Graco Magalhães é mineiro de nascimento, mas adotou o Rio Grande do Norte. Fez formação nos Estados Unidos e, na volta, passou por Natal. Resolveu ficar.

Graco Magalhães é mineiro de nascimento, mas adotou o Rio Grande do Norte. Fez formação nos Estados Unidos e, na volta, passou por Natal. Resolveu ficar.


Graco Magalhães é mineiro de nascimento e potiguar de alma e coração. O sonho da aviação já acompanhava o menino que cresceu em São Lourenço, na Serra da Mantiqueira (MG), mas nasceu em Muzambinho, cidade ao Sul do estado mineiro. “Sempre quis ser piloto e em  1942, com a criação do Ministério da Aeronáutica, fundou-se o Aeroclube de São Lourenço, a partir do incentivo do próprio ministério. Eu queria prestar concurso na Escola Militar de Realengo, no Rio de Janeiro, mas acabei ficando no aeroclube”, relata.

Em um ano, Graco conta que  foi aluno, piloto e depois instrutor de pilotagem elementar no aeroclube. Em dezembro de 1942, ele já havia recebido o brevê e, para completar as horas que faltavam de formação, passou a ser instrutor de voo no Aeroclube de São Lourenço. Nesse período, Graco soube que o Brasil havia feito um contrato para treinar pilotos nos Estados Unidos.

“Me candidatei para ir para aos EUA. Foi uma corrida difícil: tinha que fazer exames de saúde no Campo dos Afonsos, no Rio. A fila era longa, porque tinha muito candidato.  Acabei sendo aprovado e embarquei para a América em outubro de 1943, onde fiz mais exames. Nos três primeiros meses, eram somente aula teórica e a rotina era muitíssimo apertada”, recorda.  

Depois, as aulas passaram a ser divididas – em um turno, acontecia a formação teórica e na outra, as aulas práticas. A primeira parada do curso em terras americanas aconteceu em San Antonio. Depois, houve uma dispersão para mais de 50 escolas de voo primário, no Texas, Flórida e Oklahoma. Como tinha boas notas, Graco ficou encarregado de encaminhar a turma dele para Uvalde, no Texas.

O grupo no qual o brasileiro estava, ficou em uma escola chamada King Ranch, considerada de um “conforto muito grande”, já que a unidade tinha sido construída para moças, segundo Graco Magalhães.

O piloto conta que, nessa época, ficou amigo de um oficial do grupo. À noite, segundo relata, o oficial mostrava como trabalhar com computador de voo, medir distâncias e rumos e repetia toda a aula dada durante o dia. “Com isso, conseguimos as melhores notas dentre todos os alunos de navegação da escola”, afirma.

Na volta ao Brasil, Graco e os demais colegas brasileiros ficaram em Natal. A ideia era que os pilotos embarcassem aos poucos para o Rio de janeiro, já que a FAB dispunha de poucos aviões de transporte e só havia um voo semanal para o estado fluminense. Durante essa estadia em terras potiguares e com boa fluência em inglês, Graco traduziu para o português o manual do B-25, avião-guia a ser utilizado para voos em Natal. 
“Foi um trabalho grande”, diz enquanto sorri, ao falar da tradução. Desse modo, Graco foi o penúltimo piloto da turma a embarcar para o Rio.  Em 1945, o comandante da FAB fincava raízes definitivas no RN, desta vez para trabalhar, casar, ter filhos e fazer amigos ilustres. 

“Quando me apresentei no Rio de Janeiro, perceberam que eu tinha facilidade em dar instrução. Por isso, retornei a Natal para ser instrutor do B-25”, sublinha. Ele veio para a capital potiguar classificado pelo 5º Grupo de Bombardeio Médio (GBM).

Paixão pelo RN
Três anos depois de fincar raízes no Rio Grande do Norte, Graco Magalhães se casou com Elza Pedroza, mãe de cinco de seus seis filhos (o aviador casou-se uma segunda vez tempos depois com Mazeka, mãe  da caçula de Graco). Questionado sobre a relação que mantém com o Estado, ele responde, orgulhoso:

“Minha vida toda está aqui. Casei, tive filhos, netos e agora bisnetos. Minha família me dá muitas alegrias. A vida é muito boa comigo, graças a Deus”, destaca. Graco tem seis filhos (dois já falecidos), seis netos e dois bisnetos. A relação de carinho pelo RN, no entanto, vai além dos laços familiares  existentes. As amizades que o trabalho lhe permitiu desfrutar  também estão entre os motivos pelos quais o aviador dedica carinho especial ao Estado. Parte delas começar logo após a chegada do comandante ao RN e se aprofundaram com o passar dos anos.

“Quando as autoridades do Governo do Estado pediam um avião à Base Aérea  para levá-las ao interior, o comandante me chamava e dizia: 'é você o piloto'”, descreve Graco. Desse modo, a lista de autoridades transportadas por ele é vasta e inclui o interventor  Ubaldo Bezerra e os governadores Dix-Sept Rosado, Sylvio Pedroza,  Dinarte Mariz,  Aluízio Alves,  Monsenhor Walfredo Gurgel,  Cortez Pereira,  Tarcísio Maia,  Lavoisier Maia, Geraldo Melo e José Agripino (durante seus dois mandatos).

No governo de Aluízio Alves, Graco Magalhães foi convidado a ser piloto oficial do Estado, onde permaneceu até 1992, quando fez 70 anos e teve que se aposentar em função da idade. Desta época, ficaram os laços com os amigos políticos. Aluízio Alves era um deles. Os dois se conheceram em 1947, logo após o noivado de Graco com  Elza Pedrosa. 

“Minha relação com Aluízio era incrível. Quando eu e Elza noivamos, ela me disse: “Graco, amanhã nós vamos a Angicos para eu lhe apresentar os pais de umas grandes amigas (no caso, eram as irmãs de Aluízio). E eu fui lá, tomar café. Foi assim que eu o conheci e ficamos amigos da vida toda”, rememora. 

Parceria
A amizade entre Graco Magalhães e Aluízio Alves era tamanha que o, quando governador, Alves comprou um avião para o Estado a partir de uma indicação do aviador. Foi aí que surgiu o convite, feito por Aluízio na casa do próprio Graco, para que ele se tornasse piloto do Estado. A proximidade entre os dois permitiu que o aviador acompanhasse a luta de Aluízio para fazer chegar às bancas a primeira edição do jornal TRIBUNA DO NORTE.

“Foi uma luta muito grande. As pessoas diziam: 'a TRIBUNA não vai sair'. Mas Aluízio insistia: 'a TRIBUNA sai'. Ele pedia dinheiro emprestado para o jornal e as pessoas arrumavam, mesmo acreditando que [o jornal] não ia dar renda. Elas diziam que, como era para Aluízio, não podiam negar [dinheiro emprestado]. Até que um dia, ele, com a ajuda de [José] Gobat e Agnelo [Alves], colocaram o jornal em circulação”, descreve Graco.

Com a expertise de quem havia sido comandante da FAB, com formação no exterior, o piloto passou a colaborar com a TRIBUNA DO NORTE. Foram inúmeros artigos escritos, todos sobre aviação. “Perdi  os originais, mas Woden Madruga [jornalista e amigo de Graco que assina a coluna Jornal do WM, na TN] me disse que está tudo guardado no jornal”, relata.

Graças aos escritos para a TRIBUNA, Graco foi convidado três vezes para a Feira Mundial de Aviação, em Paris. “Eu acabei virando jornalista também. Nos textos, eu tratava do futuro da aviação, então, veio esse convite para a feira. O primeiro [convite] foi 'banal'. Mas os outros vieram por meio de uma carta muito atenciosa, com diretrizes e crachá de identificação. Eu ia à feira, andava nos exibidores, conhecia e trocava ideia com expositores”, relembra, de forma saudosa.

Graco fez livro sobre o seu centenário

Este ano, para comemorar o centenário, Graco Magalhães decidiu transformar em escritos as histórias que o acompanham desde que nasceu. Assim, surgiu o livro “Centenário Graco Magalhães Alves – Depoimentos de um pai para um filho”. O material foi produzido a partir de relatos que o aviador detalhava ao filho, Antônio Carlos Magalhães.

“Eu guardei muita coisa de jornal, cartas...mas perdi muita coisa também. Um dia, conversando com Antônio Carlos, decidimos que eu escrever as histórias pelas quais passei na vida. Fiz os relatos e ele escreveu. Levamos alguns anos para finalizar o livro e, sempre que eu me lembrava de algo, contava para ele, que escrevia tudo em seguida”, diz o piloto sobre o processo de construção dos relatos.

No livro estão as narrativas da infância, o começo na aviação ainda em São Lourenço, as experiências durante o período de formação nos Estados Unidos.  Um dos relatos revela um sonho realizado. “Aí fui voar no avião dos meus sonhos, o North American T-6. Era um senhor avião, com um motor de 600 cavalos, trem de pouso retrátil e muito rápido. Acrobático ao extremo, foi o avião mais usado para treinamento em todos os países aliados dos Estados Unidos”, diz o trecho. 

A experiência com as histórias sobre o centenário, no entanto, não foi a primeira de Graco com os livros. Em 2009, ele publicou “Voar é preciso”, cujas orelhas foram escritas pelo amigo Woden Madruga. O prefácio é do poeta Sanderson Negreiros. Graco também foi empresário e fazendeiro. “Sofri secas terríveis. Tive como vizinho o Garibaldi pai, que me ensinou sobre o cultivo de algodão”, conta. Graco foi, ainda, criador  de gado e cavalos. 

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