Cookie Consent
Natal
Greve prejudica atendimento aos pacientes na rede básica
Publicado: 00:00:00 - 28/01/2018 Atualizado: 15:48:16 - 27/01/2018
A picape preta de Marcelo* estaciona subitamente na calçada da Unidade de Pronto Atendimento do bairro Potengi, zona Norte de Natal. Em poucos segundos, ele desce do carro aflito junto com o filho de 12 anos. O menino abre a porta de passageiro, enquanto Marcelo pede ajuda para retirar sua esposa, Renata, desmaiada no carro. Os maqueiros da UPA correm com a cadeira de rodas e ajudam. Quinze minutos depois, Marcelo sai com o filho Marcos. A aflição é a mesma: Renata continua desmaiada, mas o atendimento na UPA foi negado por causa da greve dos médicos associados à Cooperativa Médica do Rio Grande do Norte (Coopmed).

Adriano Abreu
Na UPA Potengi (Zona Norte) só estão sendo atendidos os pacientes considerados em estado grave

Na UPA Potengi (Zona Norte) só estão sendo atendidos os pacientes considerados em estado grave


Na UPA Potengi (Zona Norte) só estão sendo atendidos os pacientes considerados em estado grave

A cena foi testemunhada pela reportagem, na manhã deste sábado (27). Desde a última quinta-feira, as UPAs de Natal estão com serviços reduzidos por causa da paralisação. Causada por um atraso no repasse da Prefeitura de Natal à Coopmed, médicos cooperados paralisaram atividades na rede municipal de saúde – o que causa sobrecarga nas UPAs. Somente casos considerados urgência médica ou pediátrica estão sendo atendidos.

Ao chegar à recepção da UPA, o caso de Renata não foi considerado urgente. Assim que entrou na unidade, ela teve os sinais vitais verificados pelos assistentes da enfermaria. A pressão arterial e o batimento cardíaco foi considerado normal. Ao longo de dez minutos, entretanto, Marcelo e Marcos precisaram esperar a enfermeira da unidade, que estava em outro atendimento, classificar ou não o caso como grave. Com a ficha analisada, explicou à Jailson a negativa do atendimento. “Ela está sonolenta por causa do remédio, mas está bem. A pressão arterial e o batimento cardíaco está bom. Infelizmente, por causa da greve, não poderemos atender aqui”, disse a enfermeira.

A resposta foi recebida com surpresa pelo marido de Renata. “Vou levá-la para casa. Mas se acontecer algo com ela, vocês serão culpados”, disse, mas voltou a insistir pelo atendimento. Depois de mais uma negativa, decidiu levá-la para o Hospital Municipal de Natal. Renata teria tomado remédio para dormir no dia anterior e, ao acordar no sábado pela manhã, sentiu-se mal e desmaiou. A preocupação de Marcelo e Marcos, que a todo instante tentava acordar a mãe, era a dosagem dos remédios. A enfermeira tentou tranquilizá-los. “O remédio foi com uma dosagem pequena. Ela estaria com a pressão alterada caso fosse o contrário”. O caso de Renata foi considerado isolado pelos profissionais da UPA. De acordo com eles, os últimos três dias foram tranquilos na unidade, apesar da greve. Nas unidades da Cidade da Esperança e Potengi, visitadas pela reportagem, o atendimento diário caiu de 300 pacientes para 100 nos últimos três dias – período da paralisação. Os pacientes não-atendidos são orientados a procurarem os postos de saúde ou outros hospitais. “Os casos 'azul' e 'verde' são casos simples, que podem ser tratados em postos. O nosso trabalho nós continuamos fazendo normalmente”, afirmou a diretora da UPA Potengi.

Os casos considerados urgentes são os que apresentam o risco de vida. Nas UPAs, são classificados como “faixa amarela” e “faixa vermelha”, após os sinais vitais serem verificados por enfermeiros. De acordo com os diretores das unidades, encaixam-se nessas categorias pacientes que apresentam picos de pressão arterial, febre infantil, trauma abdominal, hipoglicemia e hiperglicemia, por exemplo.

Alguns pacientes reclamam da distância dos hospitais para onde são direcionados. Jailson Bezerra, feirante de 49 anos, também teve o atendimento rejeitado após ter a pressão arterial e o batimento cardíaco verificado. Ele reclamava de pés e mãos dormentes, dores de cabeça e na região da nuca. Assim como Renata, foi encaminhado ao Hospital Municipal. “É muito longe de onde moro. Estou com muita dor e é desumano ter que ir de ônibus para o outro lado da cidade”, disse.

A Coopmed confirmou a paralisação à TRIBUNA DO NORTE na última sexta-feira (26), mas não informou quantos médicos aderiram o movimento. A reportagem tentou entrar em contato com o presidente da cooperativa, mas não obteve resposta.

* Os nomes são fictícios. Eles pediram para não ser identificados, temendo represálias no atendimento em UPA's


Leia também

Plantão de Notícias

Baixe Grátis o App Tribuna do Norte

Jornal Impresso

Edição do dia:
Edição do Dia - Jornal Tribuna do Norte