Natal
Grupo planejava gastar até R$ 4 milhões para explodir Alcaçuz
Publicado: 00:00:00 - 16/05/2021 Atualizado: 12:45:16 - 16/05/2021
Ícaro Carvalho
Repórter

Visto de longe, o prédio do Complexo Penitenciário de Alcaçuz parece intransponível. Muros altos, guardas armados, ronda policial. Contudo, a imponência do edifício não foi capaz de desestimular o planejamento de uma ação criminosa, composta por pelo menos 30 homens,  que pretendia resgatar, à base de balas e explosivos, cerca de 15 membros de uma facção de dentro do pavilhão 5 do presídio. A operação era tratada como “espetáculo” pelos envolvidos e ia requerer um investimento total de R$ 3 milhões a R$ 4 milhões. O ataque ao presídio também se destacaria por outro detalhe: a união da facção criminosa com o novo cangaço.
Adriano Abreu
A operação para conseguir resgatar cerca de 15 presos de Alcaçuz incluía 30 homens e explosivos. O custo seria algo entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões

A operação para conseguir resgatar cerca de 15 presos de Alcaçuz incluía 30 homens e explosivos. O custo seria algo entre R$ 3 milhões e R$ 4 milhões


O plano foi descoberto pela Divisão Especializada no Combate ao Crime Organizado (Deicor) e alguns envolvidos já estão presos, mas ele dá dimensão do poder de fogo da aliança entre membros de facções criminosas e do chamado "Novo Cangaço", como são chamados pela polícia os criminosos especializados em ataques à instituições financeiras. Desde o começo das investigações, pelo menos oito pessoas foram presas e 21 armas foram apreendidas, incluindo sete fuzis, além de cerca de 3.000 munições, coletes, balaclavas e veículos blindados que deveriam integrar do plano de fuga.

De acordo com a Deicor, parte dos responsáveis pela idealização e fornecimento das armas para a fuga já foram presos. A Delegacia agora trabalha para capturar outros envolvidos, e pretende solicitar a transferência dos detentos envolvidos no plano de fuga para um presídio federal. O relatório que embasa o documento está sendo finalizado e deve ser enviado ao Ministério Público do Rio Grande do Norte nas próximas semanas.

Segundo as investigações, o plano para resgatar presos do complexo de Alcaçuz não tinha data específica para acontecer, mas os primeiros indícios surgiram em 2020 e se intensificaram em janeiro de 2021. A ideia seria reunir ao menos 30 pessoas para retirar cerca de 15 presos instalados na Penitenciária Estadual Rogério Coutinho Madruga, localizada dentro do complexo. O objetivo seria libertar detentos de grupos do “Novo Cangaço”, como são chamados pela polícia os criminosos especializados em ataques à instituições financeiras, e de uma facção criminosa do RN.
Karol Carvalho
A equipe do delegado Erick Gomes, da Deicor, teve conhecimento do plano em 2020

A equipe do delegado Erick Gomes, da Deicor, teve conhecimento do plano em 2020


“Lá dentro eles cobram muito quem está aqui fora, os ‘irmãos do crime’, para que sejam resgatados, porque o sistema está controlado, alimentação é daquele jeito, tem controle de água, energia, visita, não tem mais liberdade para ter celular, televisão. Além disso, a Covid reduziu o contato externo. Então é uma cobrança forte do presídio para que os criminosos que estão fora vão lá e resgatem”, comenta o delegado Erick Gomes, diretor da Deicor.

As oitivas da Polícia Civil também descobriram que o bando que faria o resgate não necessariamente seria apenas de pessoas do Rio Grande do Norte, isto é, haveria uma espécie de “intercâmbio” com outros criminosos de outros estados, como Pernambuco, Ceará e Paraíba. A ideia do resgate, inclusive, seria executada de forma semelhante a outras fugas registradas em presídios do Nordeste, como a fuga na Penitenciária de Limoeiro, no Pernambuco, em julho do ano passado, quando 27 detentos escaparam após explosão do muro, e o caso do PB1, em setembro de 2018, quando 92 presos fugiram numa ação de resgate. “Eles chamam de consórcio. Como a atuação é interestadual, também fugiriam presos que não são potiguares, mas que estão naquela cúpula presa”, aponta.

Ainda de acordo com o delegado, há uma espécie de “identidade” entre criminosos da facção potiguar e membros do Novo Cangaço. “Há uma identidade do Novo Cangaço com a facção estadual, por conhecer, por ter morado no presídio numa fase da vida. Muitos da facção são do Novo Cangaço. Mas também existem integrantes do Novo Cangaço que não têm vínculo com a facção, que poderiam até fugir sem problema  por fazer parte da cúpula, ter dado a cota da parte dele”, acrescenta.   

Enquanto junta as provas e complementa as oitivas e investigações, a Polícia Civil já tem a ideia de solicitar o encaminhamento dos presos resgatados para presídios federais. Os detentos não tiveram seus nomes revelados por questões de segurança e sigilo da investigação.

“Temos um trabalho em andamento que é justamente sobre essa fuga e identificação e prova técnica dos envolvidos. Eu creio que daqui a duas semanas terminaremos o relatório, porque tem que ter provas das lideranças a serem resgatadas, e vamos representar ao Ministério Público de Nísia Floresta, com o juiz decidindo acerca do encaminhamento desses presos para o sistema penitenciário federal. Temos essa vontade que deve ser concretizada em breve, pelo menos vamos tentar”, comentou o delegado.

A reportagem da TRIBUNA DO NORTE procurou a Secretaria do Estado da Administração Penitenciária (Seap) para comentar o assunto. Em nota, a pasta disse que “não fala sobre assuntos que podem comprometer a segurança das unidades prisionais”.

Reforma

O Complexo de Alcaçuz passou por uma série de reformas e investimentos nos últimos quatro anos. Foram reformados todos os pavilhões, estruturação de celas e instalação de câmeras de segurança e sistemas de vigilância 24h. O secretário Pedro Florêncio Filho, em entrevista recente, chegou a dizer que a chance de uma rebelião como a de 2017, quando 27 presos morreram no episódio conhecido como Massacre de Alcaçuz, era “quase nula”.

Inaugurado em março de 1998, o Complexo de Alcaçuz registrou diversas fugas ao longo dos 23 anos de existência. A maioria das escapadas se deu por debaixo da terra, com presos cavando túneis. Em apenas uma situação, em novembro de 2000, foi registrada uma fuga com apoio de membros externos. Pelo menos 28 detentos, entre eles Valdetário Carneiro, fugiram após um grupo parar uma caminhonete do lado de fora do presídio e metralhar a unidade para dar cobertura à fuga.

O caso mais emblemático aconteceu em janeiro de 2017, quando pelo menos 27 presos foram assassinados em uma briga entre as facções Sindicato do RN e  Primeiro Comando da Capital (PCC). Em novembro de 2019, a Polícia Civil indiciou 74 detentos pelos crimes de homicídio, associação criminosa e dano ao patrimônio público.

A Penitenciária de Alcaçuz tem 1.660 presos, com capacidade para 967. O Rogério Coutinho Madruga tem 708 presos, com capacidade para 420. Os dados são de fevereiro, do Geopresídios, do CNJ.

Dinheiro sairia de assaltos e tráfico


A operação para retirar presos de Alcaçuz custaria em torno de R$ 3 a R$ 4 milhões, segundo estimativa da Polícia Civil. Os recursos para custear uma ação desta magnitude, segundo as investigações, viriam de várias frentes, como os assaltos a carros fortes e instituições financeiras, além de dinheiro advindo do tráfico de drogas. “Eles são muito unidos. Tem um cara que roubou com um rapaz que está preso, há um ano, por exemplo. Levaram R$ 2 milhões. Então ele tem aquela dívida, se compromete a enviar dinheiro tranquilamente para ajudar o colega a ser resgatado”.

O estopim para que as apurações percebessem a ideia do resgate surgiu em oitivas datadas de outubro de 2020, que viriam se comprovar em janeiro de 2021. Numa das primeiras ações da Polícia Civil, integrada com policiais da Paraíba e Pernambuco, Alan Davydson Nunes Santos e Anderson Xavier Souza Pontes, dupla suspeita de estar envolvida em ações do Novo Cangaço, morreram após troca de tiros.

A operação aconteceu no dia 21 de janeiro e Alan, conhecido como Galeguinho, estava sendo apontado como um dos líderes do plano de resgate. Contra ele, havia 10 mandados de prisão em aberto e a Deicor o investigava há seis anos. A organização criminosa chefiada por Alan seria a responsável por um roubo contra um banco em São Paulo do Potengi, em 14 de outubro de 2020. Alan, segundo a Polícia, também estaria envolvido no resgate de presos do PB1, em João Pessoa, em setembro de 2018.

Nesta semana, a Polícia Civil do Rio Grande do Norte prendeu o que acredita ser um dos principais mercadores de armas do Nordeste, que estaria, inclusive, concedendo armas para o bando que cometeria o crime. A operação ganhou o nome de “Senhor das Armas”.

Na quarta-feira (12), Makson Felipe de Menezes Pereira e Esterivar Ferreira de Lima foram apreendidos juntos, em Candelária, zona Sul de Natal, quando supostamente estariam negociando um fuzil AR10, calibre 7,62, com três carregadores, além de uma pistola calibre 9mm, com carregadores, dois veículos de luxo blindados. Na quinta-feira (13), a Polícia Civil  apreendeu outra submetralhadora calibre .40 e uma pistola 9mm, além de munições. O material como um todo é avaliado em pelo menos R$ 200 mil. Ao final da Operação, foram apreendidas um total de cinco armas de fogo e 183 munições. Segundo as investigações, não há comprovação de ligação deles com facções criminosas.

“A operação foi feita de forma espontânea e rápida e não tivemos acesso a nada, apenas aos autos de prisão em flagrante. Pelo conteúdo da decisão, se percebe que tem muita coisa carente de provas. O que se tem é o que foi pego no ato. Pelo que o juiz entendeu, não haveria um comércio de armas ali, só uma posse. É um entendimento primário. A defesa está tomando as medidas necessárias para reaver a liberdade dos dois. Eles são inocentes até que se prove o contrário”, comenta o advogado Daniel Magnus de Vasconcelos Costa Junior.

Esta foi a terceira fase da operação “Senhor das Armas”. Antes, no começo de abril, a Polícia Civil chegou ao maior arsenal apreendido até o momento e o que seriam utilizados na operação de resgate dos presos. Em Alexandria, no último dia 17 de abril, Camilo Cassimiro Nunes, 31 anos, foi preso suspeito de integrar uma facção criminosa e investigada por assaltos a agências bancárias ocorridos em São Paulo do Potengi em outubro de 2020. Ele estava com duas pistolas calibre 9mm e depois colaborou com a Polícia Civil, indicando o esconderijo de três fuzis calibre 5,56 e 7,62 mil munições, 20kg de explosivos, coletes balísticos e balaclavas.

“Com relação às acusações de roubos, a defesa já pediu habilitação nos autos e irá se manifestar. Tem uma acusação de tentativas de homicídios, na cidade de Taipu contra policiais, porém essa acusação não procede porque ele estava no Fórum em Parnamirim, na mesma data e horário do ocorrido. Com relação às acusações de roubo a banco, alguns processos estão sob sigilo e já pedi habilitação dos autos para poder tomar ciência das acusações. Com relação a esse estouro a um possível resgate no presídio, isso não procede. Até agora estamos tentando entender, quais são as provas, de onde tiraram isso. Ele me disse que desconhece isso e que jamais iria trocar tiro com polícia”, defende o advogado de Camilo, Alzivam Alves de Moura.

Posteriormente, no dia 23, a Polícia Civil também apreendeu outros dois fuzis calibre 5.56 e uma pistola na cidade de São Pedro do Potengi, armas estas que seriam negociadas com criminosos que atuariam no “front” do resgate dos presos. Foram conduzidos ao sistema prisional Miguel Cabral Nasser Filho, e Francisco Félix da Silva, motorista de Miguel e funcionário da prefeitura, também foi detido. A reportagem da TRIBUNA DO NORTE não conseguiu contato com a defesa dos outros investigados citados.

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