Gustavo Cartaxo: 'A folha precisa estar dentro da realidade do ABC'

Publicação: 2020-12-27 00:00:00
A crise financeira caminhou “lado a lado” com o ABC durante toda a temporada de 2020. O time foi campeão estadual invicto, mas acabou sendo eliminado na principal competição do ano, a Série D do Campeonato Brasileiro.  Entre as explicações dos dirigentes, para o fracasso no nacional está o baixo poder de investimento do clube, que perdeu jogadores ao longo do ano. Para 2021, o cenário deve ser ainda mais complicado. De acordo com Gustavo Cartaxo, diretor de futebol, haverá redução na folha de pagamentos e o grupo de atletas deve ser reduzido e “enxertado” com jogadores da categoria de base.

Créditos: Reprodução/InstagramGustavo Cartaxo, diretor de futebol do ABCGustavo Cartaxo, diretor de futebol do ABC

Em entrevista à Tribuna do Norte/Jovem Pan News Natal, Cartaxo explicou que o futebol terá que “caber” dentro das possibilidades de pagamento do clube. A decisão dos dirigentes é privilegiar os pagamentos em dia. Para isso, é necessário economizar.

Essa realidade aponta para um perfil de jogadores jovens, que ainda estão buscando um “lugar ao sol” no futebol e por isso aceitam ganhar menos. O mesmo perfil, em tese, também deve ser o do futuro treinador abecedista, que, até o fechamento desta edição, ainda não havia sido anunciado pelos dirigentes do Alvinegro.

O ABC tem, para 2021 um calendário de competições já preenchido. O clube começa com uma competição local, o Estadual, uma regional, a Copa do Nordeste e um nacional, a Copa do Brasil. No segundo semestre, o Alvinegro tem pela frente o principal desafio: a Série D do Campeonato Brasileiro.

Segundo Cartaxo, o clube precisa se planejar justamente levando em consideração o que consideram como prioridade: O acesso à Série C do Campeonato Brasileiro. “Nós não aguentaremos ficar muito tempo na Série D”, analisou o dirigente, que diz ter o aval do presidente abecedista para seguir com esse planejamento para a temporada de 2021.

Qual o perfil do futuro treinador e dos jogadores para a próxima temporada?
O perfil que eu defendo é um perfil que seja de um técnico novo, que esteja buscando espaço no cenário nacional que esteja com sangue nos olhos. Acho que esse é o perfil para o técnico do ABC nesse novo momento. Até porque, com redução de folha, redução salarial, a gente precisa encaixar o treinador dentro desse perfil. Então, em relação aos jogadores o perfil vai na mesma linha. Um perfil de muita vontade , de muita pegada. Atletas que estejam, como diz na gíria do futebol, com fome, querendo aparecer no mercado. Acho que o pensamento é esse, de buscar atletas novos, que tenham o perfil do ABC, mas obviamente vamos precisar ter também atletas com experiência. Fazer um misto de experiência com juventude para que a gente possa brigar nas competições, como foi esse ano.

Como está sendo esse momento de trabalho no ABC?
Estamos organizando as rescisões de contrato e vamos posteriormente conversar com os jogadores que temos interesse de ficar no ABC. Está sendo tranquilo, porque nós estamos com tudo em dia. Então é só assinar a rescisão e está tudo ok.

Qual a avaliação que você faz do trabalho de Francisco Diá, que não renovou com o ABC?
Ele fez um grande trabalho à frente do ABC. No primeiro semestre conquistamos o título estadual de forma invicta, boa Copa do Nordeste, dentro das condições uma boa Copa do Brasil também. Foi um treinador que revelou jogadores até para o ABC negociar. Então foi um treinador com um custo benefício para o ABC muito interessante. Só que, infelizmente no momento final não conseguiu o acesso por não termos feito dois bons jogos e o Globo ter sido melhor.

Como vocês estão encarando a possibilidade de fazer futebol em 2021 com recursos ainda mais escassos?
Vamos aguardar a definição do treinador para iniciarmos o processo de contratações. Não é novidade a dificuldade do ABC. A questão financeira no futebol é fundamental. Não se faz planejamento sem dinheiro, porque todo planejamento precisa de receita, de dinheiro, mas o que o presidente (Bira Marques) está buscando é enxugar para poder pagar. Então assim, tenho tido facilidade para negociar com os jogadores porque a coisa está meio que em dia. Então a gente libera o atleta, faz o acordo, o ABC paga e ele segue a vida dele e não temos nenhuma ação trabalhista ou algo do tipo. Isso é muito importante no ABC. Ter uma folha que se possa pagar, para que lá na frente a gente não esteja pagando por isso na justiça. Então o presidente tem uma mentalidade que eu acho corretíssima que é ter uma folha que se possa pagar e a gente vai buscar isso. Teto salarial para que possa ter condição de dar outro suporte ao clube. O clube ão funciona só com salário. O clube tem suplemento, conta de energia, alimentação, material esportivo, enfim, o clube tem tudo que envolve, não é só folha salarial. Então o clube precisa realmente se enxugar. Temos que montar uma folha dentro da realidade do ABC. Temos que ser transparante com o torcedor. Ele tem que saber que a folha salarial do ABC é um valor X, que tem as despesas para pagar e temos que mostrar ao torcedor, não pode omitir dele essas informações.

Qual a avaliação que você faz da temporada 2020 do ABC?
Eu faço uma avaliação por partes. A gente avalia o primeiro semestre positivo demais. Campeão invicto, calendário do ano de 2021 já garantido com a Copa do Nordeste, Copa do Brasil e Série D. O segundo semestre avalio que a gente poderia ter dado um algo a mais. Tentamos de todas as formas o acesso, com todas as dificuldades financeiras de perder jogadores, acho que perdemos nove jogadores, no meio de uma competição. Não é fácil você remontar com três divisões à sua frente, remontar com um poder financeiro pequeno. A gente perde um jogador com o valor X e você contratar um outro que ganha quatro vezes menos e manter o padrão do cara lá é muito complicado, mas a gente entendia a questão administrativa do clube, que não adiantava contratar um bem mais caro, porque quando chegasse no final do mês não teria dinheiro para pagar. Então, essa foi a tônica da Série D do ABC. Infelizmente a gente esbarrou na questão financeira. A gente preferiu manter o salário em dia e trabalhar para o acesso. Mas, infelizmente não veio, eu tiro a temporada, então, com uma temporada mediana. Assumo a responsabilidade pela não conquista do acesso, tentamos de todas as formas, mas infelizmente não deu. Faz parte do futebol, agora é planejar. Desde domingo, após o jogo do Globo, eu tenho me reunido diariamente para já planejar 2021 e planejar 2021 com o acesso, que é o principal objetivo do ABC. Disse até ao presidente que a gente tem que focar no acesso, porque a gente não aguenta ficar muito tempo na Série D não. A gente precisa sair urgente dessa divisão, para que o ABC possa começar a respirar.

O time tem que encarar, no primeiro semestre, o Estadual, Copa do Nordeste e Copa do Brasil. Na segunda parte do ano tem a Série D. Como pensa montar o elenco?
A gente precisa equilibrar. Precisamos ter uma noção de quanto vai se gastar no primeiro momento, nesses primeiro quatro meses e após isso ver quanto se vai gastar no restante do ano. Eu acho que o momento agora, nesses primeiros quatro meses, é de montar uma equipe equilibrada, com um orçamento mais enxuto, não trazer um grande número de jogadores, pelo contrário e no Brasileiro dar aquela qualificada, tento orçamento já para isso. Então eu acho que o pensamento tem que ser esse, não adianta a gente cometer loucuras agora. Eu sei que o primeiro semestre também é muito importante, porque nos garante o calendário do ano seguinte, mas a gente tem condição, o ABC tem condição de montar uma equipe competitiva sem gastar muito nesse primeiro semestre. É esse o nosso pensamento até para, na Série D, ter um lastro financeiro para poder dar uma investida um pouco maior. Afinal, se o objetivo maior do clube é a Série D, você precisa ter um investimento um pouco maior. Então, acho que esse  é o pensamento da diretoria do ABC. Fazer algo mais enxuto nesse primeiro momento. Temos a base que tem alguns atletas promissores e vamos trabalhar em cima dessa nova realidade, que é a realidade do futebol brasileiro. Os clubes das Séries C e D tem que encarar essa realidade que é de dificuldade financeira, mas a gente não pode cometer loucuras para, até sendo redundante, a gente não pagar esse prejuízo depois. Então, pé no chão e em busca do objetivo. Nesse caso, inclusive, você tem que ter um cuidado até maior na hora de contratar, o critério tem que ser maior. Esse é o grande X  da questão. O trabalho da contratação não pode ser de qualquer forma, tem que ser com bastante análise e tentar trazer um barato de qualidade.