Internacional
Há 20 anos: os atentados que mudaram o mundo
Publicado: 00:00:00 - 11/09/2021 Atualizado: 00:13:52 - 11/09/2021
Há 20 anos, os atentados terroristas promovidos pela Al-Qaeda contra os Estados Unidos em 11 de setembro mudaram o mundo. Para muitos, o evento marcou a virada do século 20 para o século 21, e determinou os rumos dos mais diversos temas da agenda internacional nas décadas seguintes.

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Torres Gêmeas foram atacadas pelos terroristas suicidas que também colidiram com o Pentágono, sede do Departamento de Defesa

Torres Gêmeas foram atacadas pelos terroristas suicidas que também colidiram com o Pentágono, sede do Departamento de Defesa


Em 11 de setembro de 2001, fundamentalistas islâmicos ligados à organização terrorista Al-Qaeda sequestraram quatro aviões comerciais nos Estados Unidos, desviando a rota dos voos para realizar os ataques. O mais famoso deles teve como alvo o World Trade Center, símbolo do mercado financeiro mundial, que foi atingido por duas aeronaves, matando cerca de 3 mil pessoas. Além das Torres Gêmeas, os terroristas suicidas também colidiram com o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA, na Virgínia. A última aeronave caiu na Pensilvânia, antes de acertar seu alvo.

A resposta americana ao atentado ditou os rumos da geopolítica mundial a partir de então. As determinantes de política externa e de segurança e defesa estabelecidas durante o governo de George W. Bush mergulhou os EUA e seus principais aliados na Guerra ao Terror, iniciada com o conflito no Afeganistão. Também foi no governo Bush que os americanos definiram as nações que formariam um 'eixo do mal' - entre elas, Irã, Iraque e Coreia do Norte -, que seriam uma ameaça à paz mundial.

Internamente, os atentados também mudaram o cotidiano dos americanos. Regras mais rígidas de fiscalização foram impostas nos aeroportos do país. O conceito de vigilância constante ganhou força e novas tecnologias foram desenvolvidas para rastrear e identificar possíveis ameaças.

Guantánamo
Criada por George W. Bush trancafiar terroristas, a prisão da base naval da Baía de Guantánamo permanece como uma herança incômoda da "Guerra ao Terror". Vinte anos depois os ataques de 11 de setembro, a prisão permanece aberta com presos sem acusação formal e julgamentos intermináveis à margem da lei americana. É raro achar presos que foram acusados formalmente por um crime. Mais difícil ainda que um julgamento chegue ao fim. Cerca de 780 pessoas passaram pelo presídio. A maioria foi transferida para outros países ainda nos governos Bush e Obama. Trump autorizou a saída de apenas um detento. Trinta e nove permanecem detidas.

Avanço do jihadismo
Os ambiciosos esforços dos Estados Unidos feitos em nome do contraterrorismo desde 11 de setembro - que custaram US$ 8 trilhões (o equivalente a R$ 41,87 trilhões em valores atuais) - incluíram a tentativa de mudança de regimes no Oriente Médio e a tentativa de conquistar a simpatia dos muçulmanos em todo o mundo - um tiro que saiu pela culatra. A ocupação prolongada no Afeganistão, por exemplo, acabou com os vestígios de simpatia dos primeiros anos após a invasão do país pelos EUA e a queda do Taleban. No Iraque, o efeito foi o contrário ao esperado: a invasão americana produziu insurgência e alimentou o surgimento do Estado Islâmico. Novos grupos militantes islâmicos surgindo em cada canto de algum país onde houve uma ação americana ou aliada, que teve como saldo a morte de pelo menos 7.052 soldados americanos e 387.000 civis.

Hipervigilância
O desenvolvimento e o uso de tecnologias de vigilância acelerados no pós-11 de Setembro transformaram a sociedade. Após duas décadas da Guerra ao Terror, o exercício da segurança direcionado aos conflitos internacionais passou a incorporar as atividades das pessoas comuns, com as democracias ainda debatendo o limite entre privacidade e proteção à segurança nacional.

Especialistas e levantamentos da área estabelecem a Lei Patriótica (Patriot Act), criada e promulgada apenas 45 dias após o 11 de setembro de 2001, como um grande símbolo da expansão massiva da vigilância governamental nos EUA e, por consequência, mundo afora. Ao mesmo tempo, as discussões à época sobre a tecnologia da guerra e os grandes sistemas de armas não eram suficientes para combater a ameaça do inimigo invisível.

Xenofobia
Os ataques terroristas promovidos pela Al-Qaeda também criaram o ambiente perfeito para o desenvolvimento de movimentos xenófobos de ultradireita nos Estados Unidos. Ao mesmo tempo que a ascensão do jihadismo levou à população em geral os temores alimentados por grupos extremistas ao longo de décadas, a preocupação das autoridades em destinar esforços no combate aos inimigos no estrangeiro tirou o foco de grupos externos - que ainda se beneficiaram com o surgimento das redes sociais para difundir suas teorias.

As ameaças internas, que aumentaram nos últimos anos, preocupando inclusive o FBI, ganharam maior atenção internacional durante os distúrbios no Capitólio, no dia 6 de janeiro, quando manifestantes que alegavam fraude nas eleições presidenciais invadiram o Congresso para impedir a certificação da vitória de Joe Biden.

Mudança de foco 
A retirada das tropas americanas do Afeganistão, justamente nos 20 anos do aniversário do 11 de setembro, mostra a mudança do cenário geopolítico no período. Enquanto a atuação de grupos jihadistas no Oriente Médio representava uma ameaça sensível aos interesses americanos em 2001, a ascensão da China como superpotência está na raiz da política externa americana em 2021.

A estratégia foi sinalizada ainda na gestão Barack Obama, sob o nome de pivô para a Ásia, e hoje é marcada principalmente pela necessidade americana de encontrar soluções energéticas para conter a mudança climática e de fazer frente aos avanços tecnológicos chineses, principalmente no 5G.

A terça-feira histórica em 2001
A terça-feira, 11 de setembro de 2001, amanheceu como um dia normal nos Estados Unidos. O clima ameno e o céu quase sem nuvens na porção Leste do país ofereciam as condições climáticas ideais para que milhões de passageiros que embarcariam em uma das malhas aéreas mais movimentadas do mundo fizessem um viagem tranquila. Poucas horas depois do nascer do sol, no entanto, o mundo inteiro assistiria em choque ao maior atentado terrorista realizado em solo americano da História.

Na manhã de 11 de setembro, 19 terroristas ligados ao grupo jihadista Al-Qaeda subiram à bordo de quatro voos comerciais, que cruzariam o país de Leste a Oeste, com destino a Los Angeles e São Francisco. As aeronaves nunca chegaram ao destino final. Dois aviões colidiram com as torres gêmeas do World Trade Center, símbolo mundial do mercado financeiro, em Nova York, às 08:46:40 e às 09:03:11 (09h46 e 10h03 em Brasília, respectivamente), no evento mais famoso - e letal - dos atentados daquele dia.

Uma terceira aeronave se chocou contra o Pentágono, sede do Departamento de Defesa dos EUA, em Arlington, no Estado da Virgínia, às 09:37:46 (10h37 em Brasília). O último avião caiu em uma área descampada da Pensilvânia, por volta das 10h03 (11h03 em Brasília), após a tripulação reagir e impedir que os terroristas tivessem sucesso no ataque - que provavelmente tinha como alvo algum símbolo político do país.

Quem eram os terroristas das Torres Gêmeas e como eles embarcaram em voos comerciais?
Os atentados ao World Trade Center e ao Pentágono foram arquitetados pelo grupo terrorista Al-Qaeda, então liderado por Osama Bin Laden, que reivindicou publicamente a autoria dos ataques. Participaram diretamente do atentado 19 terroristas suicidas, que se dividiram em quatro grupos e se infiltraram em voos operados pela American Airlines e pela United Airlines.

A Comissão Nacional americana concluiu que os terroristas que executaram o ataque ao World Trade Center se encontraram no Aeroporto Internacional de Logan, em Boston, que fica a cerca de 350 Km de Manhattan. Mohamed Atta e Abdul Aziz al Omari desembarcaram em Boston às 06h45 da manhã, vindos de Portland. Sete minutos depois, Atta fez uma ligação telefônica para Marwan al Shehhi, que estava em outro terminal do aeroporto. A conversa entre os dois, que durou aproximadamente três minutos, foi provavelmente o último contato de ambos.

Entre 06h45 e 07h40, Atta, Omari e mais três homens - os irmãos Wail al Shehri e Waleed al Shehri, e Satam al Suqami - fazem seus check-ins e embarcam no voo 11 da American Airlines. Atta, Omari e Suqami ocupam os assentos 8D, 8G e 10B, na classe econômica, enquanto os irmãos Shehri se acomodam em poltronas na primeira classe (2A e 2B). O voo decola às 07h59.

Enquanto isso, no outro terminal do aeroporto de Logan, Marwan al-Shehhi, acompanhado por outros quatro terroristas - Fayez Banihammad, Mohand al Shehri, Ahmed al Ghamdi e Hamza al Ghamdi -, tentam embarcar no voo 175 da United Airlines. Uma funcionária da companhia aérea ouvida pela comissão afirmou que era evidente que alguns dos homens não tinham familiaridade em viagens de avião, demonstrando dificuldade em entender os procedimentos padrão de segurança. O grupo embarcou e entre às 07:23 e 07:28.

Outros cinco terroristas se encontraram em Washington D.C., no aeroporto internacional Washington Dulles. Às 07h15, Khalid al Mihdhar e Majed Moqed fizeram check-ins para o voo 77 da American Airlines. Nos 20 minutos seguintes, também realizaram check-in Hani Hanjour e os irmãos Nawaf al Hazmi e Salem al Hazmi. Os cinco só embarcaram às 07h50, após passarem por checagens adicionais de segurança, que não identificaram nada que os impedisse de subirem no avião. Hani Hanjour sentou na cadeira 1B, a mais próxima do cockpit, enquanto os outros terroristas sentaram em duplas, nas fileiras 5 e 12.

O último grupo, formado por Saeed al Ghamdi, Ahmed al Nami, Ahmad al Haznawi e Ziad Jarrah chegou ao aeroporto de Newark, em Nova Jersey. Os terroristas fizeram check-ins entre 07h03 e 07h39 para o voo 93 da United Airlines. Após passarem por dois postos de checagem antes do embarque, os quatro jihadistas subiram no avião entre 07h39 e 07h48, todos com assentos de primeira classe. Nas fileiras 1, 3 e 6.

Todos o terroristas do 11 de setembro passaram pelos procedimentos padrão de segurança estabelecidos para a aviação civil americana na época. Muitos deles chegaram a ser submetidos às medidas mais rigorosas disponíveis até então, como o Computer Assisted Passanger Prescreening System (CAPPS) - ou Sistema de Pré-seleção de Passageiros Assistido por Computador, em tradução livre. Eles também passaram sem reclamações pelos testes com detectores de metal e raio-x.

Os aviões que atingiram o World Trade Center
O Boeing 767 usado no voo 11 da American Airlines decolou de Boston com destino a Los Angeles com 92 pessoas a bordo. Oitenta e um passageiros (incluindo os cinco terroristas), nove comissários de bordo, o copiloto Thomas McGuinness e o piloto John Ogonowski. A aeronave decolou às 07h59. 

Por volta das 08h14, quando o Boeing havia alcançado a altitude de 26 mil pés, o voo 11 fez sua última comunicação normal com o centro de controle de tráfego aéreo (ATC) da Administração Federal de Aviação em Boston. Dezesseis segundos depois da transmissão, o ATC passou uma instrução para que os pilotos subissem a uma altitude de 35 mil pés. Não houve retorno. "Por essa e outras evidências, acreditamos que os sequestradores tomaram o avião às 08h14 ou imediatamente depois disso", assinala o relatório do Comitê americano.

O que se sabe sobre o que se passou dentro do voo 11 se deve basicamente ao relato de duas aeromoças, Betty Ong e Madeline Sweeney, que trabalhavam na classe econômica durante o atentado. Elas conseguiram ligar a partir de airphones da AT&T e relataram o que estava acontecendo à bordo às autoridades em solo.

No começo, algum ou alguns dos terroristas - acredita-se que os irmãos Wail e Waleed al Shehri, que estavam na segunda fileira do avião - esfaquearam dois comissários de bordo que se preparavam para atender os passageiros. Um homem na primeira fileira teve a garganta cortada. Dois comissários de bordo foram esfaqueados - pelo menos um deles com seriedade, precisando ser colocado no oxigênio. Não se sabe ao certo como eles tiveram acesso ao cockpit, mas especula-se que tenham tomado a chave de um dos comissários de bordo feridos ou forçado um deles a enganar o piloto ou copiloto para que abrissem a porta.

Pouco depois, Mohamed Atta, o único terrorista a bordo que sabia como pilotar um avião, teria saído do seu assento na classe executiva em direção ao cockpit, possivelmente acompanhado por Omari. Um passageiro posteriormente identificado como Daniel Lewin, que serviu nas Forças de Defesa de Israel por quatro anos, tentou reagir e acabou esfaqueado por um dos terroristas - provavelmente por Satam al Suqami, que estava no banco imediatamente atrás dele.

Cinco minutos após o sequestro começar, por volta das 08h19, Betty Ong ligou para um escritório da American Airlines na Carolina do Norte, usando um Airphone da AT&T. 


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