Há uma tímida saída da crise econômica, diz professor de macroeconomia

Publicação: 2018-06-24 00:00:00
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Ricardo Araújo
Editor de Economia

Os números mais recentes do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) relativos ao mês de maio mostraram o fechamento de 299 postos de trabalho no Rio Grande do Norte. Nos primeiros cinco meses de ano, o número de demissões atingiu 5.068 pessoas no estado, na contramão dos números nacionais que são positivos. Instabilidade econômica e fragilidade dos modais de geração de emprego e renda, colocam o estado em posição desfavorável.
Na entrevista a seguir, o professor de Macroeconomia da Faculdade Estácio, Henrique Souza, analisa o momento atual da economia nacional, os reflexos dela no Rio Grande do Norte, aponta quadros que poderão se confirmar até o fim do ano e detalha como o presidente a ser eleito em outubro pode gerir a economia para tirá-la da instabilidade e, consequentemente, melhorando-a.  Equalizar o conservadorismo com o neoliberalismo será uma árdua tarefa para o futuro chefe da nação. Acompanhe na entrevista.

Créditos: Lenart VeríssimoProjeções do governo federal feitas no início do ano para a economia nacional serão revistas para baixo, como o PIB e, na contramão, inflação deverá subir; no RN, desempregados aumentamProjeções do governo federal feitas no início do ano para a economia nacional serão revistas para baixo, como o PIB e, na contramão, inflação deverá subir; no RN, desempregados aumentam

Henrique Souza tem 36 anos, formado em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e em Administração pela Faculdade Estácio. Possui Mestrado em Geociências pela UFRN. Atua como professor universitária há quase uma década na Faculdade Estácio, na qual leciona, entre outras disciplinas, Macroeconomia; e na UFRN como professor substituto.

Os números mostram a instabilidade da economia brasileira. O exemplo mais recente, com foco no RN, é o número do Caged que aponta fechamento de 5.068 postos de trabalho de janeiro a maio deste ano. O que está causando esse cenário local e nacionalmente?
A economia é basicamente formada por três setores: o primário, secundário e terciário. No estado do Rio Grande do Norte, o setor primário não é tão forte. O mais expressivo do setor primário no nosso estado é a fruticultura irrigada mais localizada na região Oeste e Alto Oeste. Quanto ao secundário, representado pelas indústrias, elas passaram por um processo, ao longo do tempo, o qual na realidade ainda estamos vivendo, de declínio da atividade industrial no nosso estado. O parque fabril a cada ano que passa, reduz. Então, é desproporcional a quantidade de empresas abertas perante a quantidade de empresas fechadas. Naturalmente, tem-se uma perda de arrecadação por parte do Estado, tem a questão da redução dos postos de trabalho, o desaquecimento da economia promovido por esse setor em específico, que é um dos mais importantes quando a gente pensa num incremento econômico. O que resta, porque é uma das forças da nossa cidade e várias outras do estado, são questões relacionadas ao comércio e serviços. Principalmente a área de serviços se formos tratar da capital. Em Natal, a atividade turística é uma mola mestra. Basicamente, o que vem acontecendo ao longo do tempo que provoca essa estagnação ou até mesmo redução, e em algumas situações um leve acréscimo, é a associação do desaquecimento da economia à tímida saída da crise econômica no nosso País.

Quem aponta essa saída?
Os principais institutos que trabalham com dados econômicos e socioeconômicos como o Ipea, a Fundação Getulio Vargas e o IBGE, eles mostram que o Brasil saiu da crise. Mas essa saída é lenta, tímida. Ainda há uma grande quantidade de pessoas desempregadas. A taxa gira em torno de 13,1% no País. É bem expressiva se formos pensar no cenário nacional, cuja ordem de desempregados chega a 13,7 milhões de pessoas. É um quantitativo muito alto, assustador, que reflete, por exemplo, que essas pessoas não conseguem se reinserir no mercado de trabalho por falta de qualificação ou baixa qualificação. São fatores que acabam exercendo. Nós temos hoje novas tendências de que os postos de trabalho estão sendo substituídos por máquinas. E essas máquinas, por sua vez, substituem as pessoas principalmente no segmento industrial. Nos setores de comércio e serviços, nem tanto. É necessária a permanência de pessoas para a prestação dos serviços. Mas a tendência é de estabelecimentos comerciais, principalmente supermercados, que já estão se preparando para operações individualizadas. Caixas que não serão mais operados por pessoas. Serão self-check outs. O indivíduo pesa sua fruta, seu pão, e despacha os outros tipos de mercadorias que está consumindo no supermercado sem a presença de um caixa. Ele é monitorado por questões de segurança e se houver alguma dúvida na operação, um funcionário irá abordá-lo, ajudá-lo. Esse método já é muito comum na Europa e Estados Unidos.

A recessão na economia, a nova lei trabalhista formam essa “tempestade perfeita” que reflete no aumento dos desempregados?
Eu diria que é uma conjunção de fatores. Tivemos a reforma trabalhista, que flexibilizou as relações de trabalho. Novas modalidades de contrato, principalmente, proporcionaram apoio aos empresários. Enfraqueceu para algumas pessoas em termos contratuais a forma como elas poderiam trabalhar. De repente, elas ganham uma quantidade X e passam a ocupar novas funções ou mantidas no mesmo cargo e recebendo de forma diferenciada. E essa política de remuneração diferenciada, por vezes, prejudica aqueles que já atuavam naquela segmento, mas beneficiou o empresário. Isso também induz os trabalhadores que estão empregados ou desempregados, a buscarem constantemente se profissionalizarem cada vez mais. A população precisa conhecer a nova lei. Com a flexibilização houve enfraquecimento nas formas de contrato. As pessoas que não estão bem qualificadas acabaram se prejudicando com a reforma trabalhista.

Vimos ao longo do último ano o aumento do exército de trabalhadores informais. O que isso tem de negativo?
Os trabalhadores informais são pessoas que, ao término de suas jornadas de trabalho com o tempo de vida no segmento no qual estão atuando, elas não terão cobertura previdenciária. A não ser que, como autônomo, contribuam junto à Previdência Social. Isso ocorre, mas não é muito comum. São pessoas que estão fora do eixo da economia formal que prejudica, por exemplo, a arrecadação de impostos. A gente tem, na economia, um fator muito importante. As pessoas costumam dizer que o governo está preocupado em arrecadar mais para engordar os cofres públicos. Mas existe um termo na economia que chamamos de gastos de governo, e eles são utilizados para manter a máquina e pagar, principalmente, o funcionalismo. Quanto menor for a arrecadação, mais problemas terá para fazer a manutenção dos serviços essenciais e investir nas áreas que, constitucionalmente, ele é obrigado a investir – saúde, educação e segurança. Ao passo que não se contribui por ser trabalhador informal, o governo não arrecada. E a população que precisa do dinheiro absorvido pelo governo, não terá o benefício gerado pois o governo dirá que o caixa está zerado.

Até o final do ano, o senhor acredita que essa problemática na economia irá mudar?
São conjecturas. No início do ano de 2018, a perspectiva era de índices positivos. As medições são feitas trimestralmente e os resultados que serão medidos no fim do mês de junho, teremos uma nova parcial do segundo trimestre do ano. Tivemos um resultado até positivo no primeiro trimestre do ano. Nas projeções feitas pelo governo, há uma estimativa, sim, de redução de PIB e um pequeno aumento na taxa de inflação. O que puxa tudo isso? Juros, alta nos combustíveis, mesmo com a redução do diesel, mas isso gera um impacto. Grande parte da população vive de veículos que são abastecidos por gasolina e etanol. Em caráter de previsão, há uma expectativa, sim, de que ainda tenhamos índices positivos a serem vistos ao longo do ano. Principalmente porque ainda existem duas datas, para o comércio, que são muito esperadas: dia das crianças e natal. Eles podem ser os elementos puxadores, através das vendas, desses indicadores. A Economia é uma ciência que trabalha com fatores objetivos e subjetivos. Mas acontece que a economia é muito volúvel ao comportamento do consumidor e às regras definidas pelo governo ou também definidas em caráter internacional. Os principais indicadores econômicos como as taxas de inflação, a produção industrial, emprego e desemprego, inflação, juros e câmbio são os principais elementos levados em consideração para a gente mensurar, calcular e definir o comportamento dos fatores e índices econômicos no nosso país. Existem dados muito importantes para serem levados em consideração.

O próximo presidente, do seu ponto de vista, deverá ser neoliberal ou conservador para mudar o atual cenário econômico do País?

Eu acredito que tudo na vida tem que se basear no equilíbrio. Nem conservador, nem neoliberal. Em economia, existe uma concepção antiga que diz que a mão pesada é representada pelo Estado, que define regras e regula. O mercado sempre irá participar. A tendência é que o mercado deve participar de uma forma gradativa, crescente. Isso não tem como evitar. O modelo que nós temos mais forte de emprego no mundo, é o neoliberal, que é um caminho sem volta. Há uma tendência que os governantes tenham um posicionamento mais fortemente neoliberal. O que será o neoliberal? É uma tendência contemporânea na qual se tem uma participação do mercado em relação à presença e atuação do governo. Mas aí é necessário que o governo ainda gere suas intervenções. Se o modelo ficar todo na responsabilidade, sendo conduzido pelo mercado, isso é extremamente negativo para a sociedade, que não irá conseguir se sustentar. E um dos principais índices que mostram o crescimento da economia e que será impactado negativamente, será a inflação. No momento que se há uma atuação exclusivamente conduzida pelo mercado, pode ter consequências ruins. É um equilíbrio. Deve ter características do neoliberal. O conservadorismo exacerbado não pode existir. Que haja um presidente que traga características de conservadorismo e até mesmo protecionismo em virtude da globalização e competitividade entre os países. O neoliberal tem fatores positivos que não podemos deixar de lado que são as concessões e privatizações que alguns casos foram positivas. A intervenção mínima do Estado pode ser fatal.