Havemos de aprender!

Publicação: 2020-11-29 00:00:00
João Maria de Lima
Professor


Quanto a ti, premanece naquilo que aprendeste e aceitaste com fé. E sabes de quem o aprendeste! 2Tm 3,14

A língua portuguesa é uma experiência cotidiana. É por meio dela que alcançamos os significados dos mundos que nos cercam, que compreendemos nossos mundos interiores e construímos aquilo que dá sentido a tudo o que fazemos, pensamos, falamos, sentimos. Ao contrário do que muita gente pensa, nunca a palavra esteve tão em moda. A linguagem da comunicação na internet, que aparentemente valorizaria símbolos e imagens, no fundo supervalorizou a palavra. Ela voltou a ser a ponte mais segura que une os membros da sociedade humana.

Carlos Drummond de Andrade nos deixou, entre tantas, a seguinte reflexão: “O português são dois; o outro, mistério”. Essa era uma clara referência ao ensino do nosso idioma, tão diferente da língua falada no dia a dia. Drummond questionava isso. Continuou o poeta mineiro: “A linguagem/na ponta da língua/tão fácil de falar/e de entender./A linguagem na superfície estrelada de letras/sabe lá o que ela quer dizer?”.

Como o nosso ensino da língua sempre se baseou na norma gramatical de Portugal, as regras que aprendíamos na escola em boa parte não correspondiam à língua que realmente falamos e escrevemos no Brasil. Por isso achamos que “português é uma língua difícil”, uma vez que tínhamos de decorar conceitos e fixar regras que não significavam nada para nós. Ultimamente, nosso ensino de português passou a se concentrar no uso real, vivo e verdadeiro da língua portuguesa do Brasil.

Todavia, não podemos negar que o charme de nossa língua é que ela tem algumas particularidades. E uma delas diz respeito ao verbo “haver”. Uma rápida consulta ao dicionário vai mostrar que ele tem mais significados do que podemos imaginar.

Um dos tantos significados de “haver” é “existir”. Outro é “ocorrer”, “acontecer”. E, nesses casos, o verbo “haver” apresenta uma particularidade: é chamado de impessoal. Verbo impessoal é aquele sem sujeito. E, quando o verbo não tem sujeito, não tem com quem concordar. Moral da história: quando o verbo “haver” é impessoal, deve ser mantido sempre na terceira pessoa do singular.

Muitas das pessoas públicas não foram à escola no dia em que isso foi ensinado. Basta ligar o rádio ou a televisão, abrir um jornal  ou pesquisar em uma página eletrônica para encontrar pérolas como “Haviam muitas pessoas aglomeradas”, ou “O árbitro não puniu as faltas violentas que houveram durante o jogo”. Exatamente quando deve aparecer o singular, entra em cena o plural inadequado.

A mesma observação vale quando se conjugam os tempos do modo subjuntivo (usado para expressar conteúdo tido como provável, duvidoso ou hipotético): “Caso haja pessoas interessadas”; “Se houvesse pessoas interessadas”. Nada de “Caso hajam pessoas…”, ou “Se houvessem pessoas…”.

É preciso ter atenção para não fazer uma confusão que muita gente faz. Os verbos “existir” e “ocorrer”, como a maioria dos verbos da língua, são normais, têm sujeito, fazem a variação singular/plural. Então: “Havia pessoas”, “Havia discussões”, mas diga ou escreva “Existiam pessoas”, “Ocorriam discussões”. O problema ocorre com o verbo “haver”, e não com seus sinônimos. É preciso dizer, ainda, que, formando locução verbal, o verbo “haver” transmite sua impessoalidade ao outro verbo, ficando ambos na 3ª pessoa do singular: “Pode haver propostas mais interessantes”, e não “Podem haver…”.

Mais uma observação. Essa impessoalidade só ocorre quando o verbo “haver” apresenta os sentidos citados. Nos outros casos, ele se conjuga normalmente, sem cerimônia. Por falar nisso, vamos relembrar a sua conjugação no presente do indicativo: eu hei, tu hás, ele há; nós havemos, vós haveis, eles hão. Parece esquisito? Parece. Por isso, encanto-me com Manoel de Barros e seus versos em “O livro das ignorãças”: “No descomeço era o verbo./Só depois é que veio o delírio do verbo”. Fiquemos atentos, pois “No caminho do perverso há espinhos e laços; quem é cauteloso passa longe deles”. Pr 22,5